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No auge da recente onda musical baiana, que começa com Luís Caldas e vem até os nossos dias, costumava-se dizer que tínhamos três “divas”, duas morenas e uma negra. A última, Margareth Menezes, era a que, de longe, possuía menos presença na mídia e tinha as suas canções menos executadas nas FMs nacionais.
Embora a primeira a lançar, com estrondoso sucesso, a fórmula musical “samba-reggae”, esse, sim, o mais escancarado atestado da genialidade baiana contemporânea, Margareth não veio a vender milhões de CDs, nem a povoar os horários nobres da TV brasileira.
Sei que temos muitas respostas para isso, inclusive a mais recorrente e mais óbvia e é exatamente a que está na sua mente agora querido (a) leitor (a). Aliás, foi a mesma Margareth quem gravou, com razoável sucesso aqui na Bahia, uma música minha e de Lazzo Matumbi que diz: “minha pele é linguagem e a leitura é toda sua!”.
Pois bem, com inegável contribuição à nossa cultura e largo reconhecimento nos quatro cantos do mundo, vai Margareth declarar em uma mesa de debates, dentro de contexto específico, que “não gosta desse pagode baiano, sobretudo porque suas letras induzem ao preconceito contra a mulher e ofendem valores muito caros à maioria da população”. Foi o bastante para que boa parte dos pagodófilos e até pagodólatras de última hora caíssem feito feras em cima de nossa diva negra chegando ao extremo gesto de ameaça física.
Que é isso? Não se pode ter mais opinião diversa da corrente principal?A pena agora é o paredão para quem “desafina o coro dos contentes”? Só os “condestáveis incontestáveis” podem gritar o seu gosto na mídia, contra o silêncio de todos?
Margareth Menezes lidera hoje, na Bahia, o movimento “Afro-Pop Brasileiro”, que reúne os blocos afros – matrizes da música baiana que realmente interessa ao mundo – numa grande celebração de sua diversidade rítmica, mas buscando uma unidade necessária que lhes assegure presença mínima e digna na cena do entretenimento e da cultura nacionais. Esses mesmos blocos que, durante a festa maior, são jogados na invisibilidade das madrugadas, no final do circuito, quando as “lentes do Fantástico” e do Jornal Nacional já foram guardadas na sacola da desinformação e insensibilidade dos que apostam na equação carnaval + celebridades = mercado.
É isso. A minha utopia é que, um dia, o povo ainda venha a aprender com os professores que eu tive. Ou, então, “cole na corda”. Viva Margareth! |

