ago 12

 

Deve estrear em breve o filme “Jardim das Folhas Sagradas”, do cineasta baiano Pola Ribeiro.Em sessão especial para a imprensa local, pude vê-lo e saí vivamente encantado por muitos aspectos que não encontro no cinema que se faz atualmente no país.

Para os olhares mais apressados, o “Jardim” pode parecer apenas um filme feito sobre o Candomblé, seus rituais, mistérios e até polaridades internas.Mas eu lhe peço, desde já, que se desarme de qualquer preconceito( se é outro o seu credo) e dirija ao filme o olhar humano e inteligente que merece toda grande obra de arte.Não há dúvida de

 que o povo negro da Bahia e sua cultura religiosa ocupam a centralidade da trama que, no entanto, traz outros temas que pontilham nosso debate contemporâneo e dizem respeito ao tipo de organização social que queremos e à sustentabilidade do planeta em que moramos: a intolerância religiosa, o racismo e a relação profunda entre religião e natureza permeiam a história, disfarçados de tramas secundárias, mas, apenas, “disfarçados”.

O “Jardim das Folhas Sagradas” é filme para encher os olhos.Se Pola Ribeiro apenas fixasse a câmera na direção de todos os desdobramentos de um ritual de matriz africana, já teria “cinema transcendental” para oferecer ao nosso olhar.As danças, o colorido de pessoas e roupas,a beleza natural dos cenários e cenas, uma cultura viva no seu momento sagrado, por si sós já fariam a grandeza de um documentário imperdível.Mas Pola conta-nos muitas histórias, dentro de uma história maior, que informa e encanta.

Saí  da sessão com a sensação de que, guardadas as proporções,O Jardim das Folhas Sagradas revela uma “coragem de autor” semelhante à “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, de Gláuber Rocha.Ambos desvelam um Brasil, se não desconhecido da maioria, com certeza olvidado pelos que se escusam a reconhecer e assumir sua profunda identidade cultural.

E em tempos de “Tea Party”, “Frente Nacional Francesa”, “Liga Norte”, “Islamofobia”, prática explícita de intolerância religiosa e racial no Brasil, nada melhor do que afirmarmos a pluralidade de nossas origens e, dentre elas, aquela que ficou escanteada por séculos, na tela da TV,na universidade, no cinema e na consciência nacional.A matriz-mãe de nossa diversidade.

O Jardim das Folhas Sagradas é narrativa que prende o olhar do primeiro ao último minuto; é cine-poesia da mais alta beleza  e dignidade.Longe do superficialismo dos blockbusters estrangeiros e das comédias-Globo Filmes, comunica-nos um Brasil negro e profundo que, no final das contas, somos nós mesmos.

 

ago 2

 

Santo Amaro é uma cidade cheia de “senados”.Explico: não é que lá pontifiquem, em câmaras altas, Pinheiros, Lídices, Suplicys ou Saneys.Senado, na minha terra, é o nome dado aos encontros regulares(sublinho o “regulares”) de pessoas, em lugar igualmente fixo, para falar da vida(em muitos casos, alheia), debater a vida, celebrar a vida.Já houve senados famosos na cidade, como o de Doutor Ranulpho, na praça do Rosário,e o de Dona Da Paz,  na rua do Amparo. Atualmente, com grande peso sócio-existencial-político, temos o de Geraldo Salles, que chegou a fundar uma praça na sala de visitas de sua casa, o de Sapateirinho, regado a uma “erva-doce” que só ele sabe fazer, e o senado do adro da Igreja da Purificação, o principal de todos eles, sem recesso há cerca de 150 anos!

Como bem disse, no senado, a conversa é aberta, sem censura, temas livres que vão da conjuntura internacional à última fofoca da cidade.Naturalmente que o assunto galvanizador de corações e mentes é a política municipal, com defensores e adversários fervorosos do prefeito da ocasião quase indo ao confronto físico na calorosa defesa de posições.Disse “quase”,  notaram?E é esse “quase” que nos dá a certeza das mínimas chances da bela caminhada humana.Na composição do “senado do adro”, pessoas de todas as cores,  credos,  convicções políticas e  classes sociais discutem com ardor questões que, em outros lugares, causariam a morte de milhões. O discurso inflamado de Miguel de Né, a polêmica sempre acesa por Itagildo Mesquita, a adesão democrática de Gabi,Lelinho,Agostinho,Virgílio Sena,Zé Roberto a uma ou outra posição nunca levam a estremecimentos pessoais ou inimizades frontais.Antes, quase toda sessão do senado – e são diárias – acaba em risadas e congraçamento com pamonhas de Sílvio e copos de coca-cola servidos pelas mãos atenciosas de Capenga, e sob a sábia presidência de João Rodrigues.

Engraçado,minha intenção, hoje, era redigir um artigo sobre o massacre na Noruega; e terminei escrevendo sobre o “senado” de minha cidade.

 

                                      Jorge Portugal

    Educador e poeta.E-mail>secretaria@jorgeportugal.com.br

jul 29

 

Choro e ranger de dentes.Corações despedaçados.Torcedores à beira de um ataque de nervos.Quase não se podia sair à noite, depois do jogo, em Itapuã pois os carros pareciam desgovernados, buzinaço de raiva e protesto contra os quatro pênaltis perdidos pela seleção no jogo com o Paraguai. “Não pode!”, gritavam uns;”Traidores!” urravam outros.E o Brasil inteiro parece não ter conseguido dormir diante de tamanho fracasso e derrota.

Entretanto, muito além daquele jogo e há muito tempo, ainda contamos 18 milhões de analfabetos “clássicos” e porcentuais piores de analfabetos funcionais, pessoas que, até com “anel no dedo” não sabem interpretar uma parágrafo, nem entender a simples mensagem de um gráfico. O nosso ensino médio, em particular, tornou-se “a bomba social brasileira”, nas palavras de Gilberto Dimenstein, e apenas 50% dos que ingressam no segundo grau, conseguem chegar ao fim do terceiro ano.Silêncio total.Ninguém diz nada.A voz coletiva não se levanta.Ninguém ameaça ir às ruas e escancarar sua indignação.Desse quadro, ninguém parece ter vergonha.

“Esses jogadores são uns pernas –de-pau, uns avarentos que só pensam em grana; não têm amor à camisa, nem sentimento pelo país”. Essa era a avaliação comum na boca de cada brasileiro, nos bares, nas esquinas e nas ruas.Nos escritórios também.E quiçá nos palácios.Humilhação maior não poderia haver: perder para o Paraguai, com quatro pênaltis desperdiçados! De que maneira chegaremos à copa?

Todavia, muito além do estádio e daquela desclassificação, há muitíssimo tempo, estamos tomando goleada da corrupção, que surrupia bilhões dos cofres públicos para bolsos privados e, quando a grande mídia anuncia espalhafatosamente o fato, quase nunca denuncia o corruptor, facilitando a eterna substituição dos corruptos nos próximos crimes das novas manchetes.Nas construções dos estádios para a copa, nas estradas, pontes, viadutos, no desvio da merenda escolar, no “mensalinho” das feiras livres, onde quer que haja dinheiro do povo, a “mão-de-gato” age rápida e livremente.Apatia geral.Alguns resmungos aqui e ali, mas nenhuma proposta de tomar as ruas e nelas permanecer até a restauração da ética e da moralidade públicas.Passeatas por uma reforma política à prova de corrupção, nem pensar!

“Esse mano Menezes não sabe nada de tática!”, gritavam muitos naquela noite.E, nos guetos e periferias, muitos “manos” pensavam desesperadamente em alguma tática que lhes trouxesse a primeira refeição de todo o dia, que já terminava.”Neymar e Ganso não jogaram nada!”, esbravejavam os que ainda não aceitavam o resultado.No resto do país, milhões de “patos” continuam chutando “pra fora” a chance de existir, porque são ,apenas, cidadãos de segunda categoria, sub-empregados, sem informação e, provavelmente, sem futuro.Por eles,quase ninguém se importa.Por eles, ninguém jamais soltará um grito de gol.

jul 20

 

Depois de uma semana inteira de FLIP, em Paraty, cheguei a Salvador com a sensação de quem “despongava” do céu.Cinco dias inteiros respirando o melhor  da cultura brasileira – e internacional – de alto repertório deixam qualquer um com a experiência de imersão no paraíso.A mesa de abertura, com Mestre Antônio Cândido e Zé Miguel Wisnik, “devorando” o pensamento e a poética de Oswald de Andrade, o homenageado da festa, já pagaria a entrada da festa inteira.Entretanto, ainda teríamos Miguel Nicolélis e Luiz Felipe Pondé, num inesquecível debate entre o novo humanismo científico e o ceticismo filosófico contemporâneo;Inácio de Loiola Brandão e Contardo Caligaris, em tarde de gargalhadas e lágrimas e o encerramento monumental com João Ubaldo Ribeiro, freneticamente aplaudido cada vez que abria a boca.Tudo isso em uma cidade indescritível pela beleza, um lugar onde, na tirada de Mira Silva, diretora do Aprovado,” qualquer recanto é cenário”.

Do aeroporto para casa, já em Salvador, fui  notando a onipresença de out-doors que anunciavam o “Salvador Fest”, megaevento musical que reúne, por dois dias, a nata do sub-pagode baiano com os clássicos da axé music.De volta ao mundo real, acusei.

Mas, não é que na segunda-feira, ainda desarrumando as malas da Flip, recebo telefonema de Andréa “Google”, intrépida produtora do Aprovado, convocando-me para missão especial:entrevistar Nelson Mota, com tema específico: João Gilberto.

Corri para o endereço anotado e voltou-me a sensação de retorno ao céu: Na Varanda de Lícia Fábio, senhora e dona dos mais sofisticados eventos da cidade,o jornalista-poeta deu-nos uma aula inesquecível sobre o maior gênio de nossa MPB.Aula-show sobre Cultura Brasileira, para deixar qualquer universidade babando de inveja.Êxtase absoluto, com a Baía de Todos os Santos por cenário.

Lícia me contou que sonha uma programação mensal com presenças luminosas do Jornalismo, da Música, da Literatura e da Filosofia.O melhor de tudo é que o que Lícia sonha Lícia faz.

Varanda Delícia: seja bem-vinda!

jul 15

 

Passei cinco dias na FLIP gravando matérias e entrevistas para o  programa Aprovado! aqui da Bahia.Mais do que isso, também curti a FLIP, suas mesas, as palestras, os debates, aquela overdose de cultura de alto repertório.Vi, com olhos marejados, o depoimento do Mestre Antônio Cândido, na abertura do evento e, na sequência, a prosa poético-solar de Zé Miguel Wisnik, sempre brilhante, talento que nunca tira férias.O duelo de titãs entre o ceticismo filosófico de Luiz Felipe Pondé e o humanismo científico de Miguel Nicolélis nos deu a certeza de que o Brasil nada deve ao pensamento avançado do mundo.Vi também Inácio de Loiola Brandão e Contardo Caligaris transformarem um fim de tarde em Paraty num belo thriller de narrativas memoráveis e assisti, por fim, a João Ubaldo Ribeiro, pop star absoluto da grande literatura da Ilha Brasil.Só para ficar nos nacionais.Trinta mil pessoas aplaudiam ,com entusiasmo, intervenções, leituras, citações , tudo que fosse palavra boa de quem sabe fazer a mais fina arte com as palavras.Cheguei a fazer uma boutade com João Ubaldo, sugerindo uma letra de lei em nossa constituição que determinasse o direito( e o dever) a todas as cidades brasileiras realizarem uma  FLIP.Naqueles dias, Paraty foi a capital da inteligência brasileira, uma espécie de centro irradiador de poesia, beleza e grandes ideias.

Mas aí, “aquele demônio inquieto” que mora no coração do educador começa a se coçar e a sonhar com coisas não recomendáveis a quem deseja paz de espírito.Por exemplo: Por que essa maravilha SÓ  para 30.000 pessoas? Tudo bem, a internet transmitiu em tempo real, mas o contato direto, a fricção, o encontro com as super figuras que lá estiveram foram privilégio de poucos.Paraty é cidade cara, e fica mais cara ainda nessas ocasiões.De novo, o “demônio”: e por que não “espalhar” Paraty por mais dias do ano? Trazer um pouco do “conteúdo Paraty” e colocá-lo no currículo das escolas – públicas e particulares -, baratear o custo dos livros, criar uma “Faixa Flip” na programação das tevês comerciais, começar a fazer tudo isso tornar-se familiar ao brasileiro médio, quem sabe despertar um gosto escondido que nunca veio à luz por falta de estímulo e conhecimento.Utopia?

Pois asseguro-lhes que, guardadas as proporções, eu tive minha Paraty ainda no Ginásio Teodoro Sampaio, em Santo Amaro, quando vivia entre os 12 e 15 anos.Era a SELIBA/SA – semana do livro baiano, organizada pelo educador Hermano Gouveia, que promovia um contato direto entre os grandes escritores do estado com os estudantes, em uma semana inteira de música, teatro, literatura e poesia.E dali saiu tanta gente boa para as letras e para a vida.

Paratys escolares, que tal? Para que o resto do Brasil também possa “comer do biscoito fino” da literatura e das ideias, como queria Oswald de Andrade, o homenageado da FLIP deste ano.

Com a palavra o MEC e as secretarias de educação.E cultura.

jul 5

 

Salvo engano foi Darcy Ribeiro(ou Cristovam?) quem sentenciou: “ a universidade que não serve à sociedade não serve”.Ao que sei, esse axioma não é bem o metro para medir a UNEB.Nascida com estrutura multicampi, a UNEB constitui pequenas cidades-universitárias em muitas regiões e municípios baianos, auscultando, estudando e interpretando as vocações e carências de cada lugar,  tudo( ou quase) conduzido a seu estágio de pesquisa como caminho para transformar-se em conhecimento.Ainda sem a pujança financeira que toca uma UNICAMP ou USP, mas com o talento e garra que sobram aos baianos: seu reitorado, seu corpo docente, seus funcionários.

Trabalho destacado da UNEB é o seu estudo e ação voltados para o semi-árido baiano.Como sabemos, essa região, onde está a maior parte do território estadual, é uma vergonha histórica, que já mereceu livros, artigos, ensaios, letras de música, mas, de verdade, poucas políticas públicas que removessem de vez as causas da penúria do lugar.Miséria e analfabetismo, como sempre, boas fontes de votos e, por isso, entidades intocáveis!

Mas a UNEB, capitaneada pelo seu Pró-Reitor de Planejamento,Luiz Paulo Neiva, colocou o pé na estrada e está desenvolvendo um belíssimo trabalho na região, especialmente na sua cidade-símbolo.Através do” Projeto Canudos”, vem desenvolvendo com a população local(notem bem: com)ações nos campos da cultura( Memorial Antonio Conselheiro), agricultura, ecologia(Bioma Caatinga) e turismo.

Integrando turismo, arte e história, o sonho dos sonhos: a cidade cenográfica de Canudos.A exemplo de Nova Jerusalém, em Pernambuco, essa cidade, em caráter permanente, será palco de encenações sobre a Guerra de Canudos, atraindo milhares de turistas-culturais do Brasil e do mundo , empregando cerca de cinco mil pessoas do lugar.

Luiz Paulo não para. Espécie de “médium” de Antônio Conselheiro e mestre José Calazans vem batendo em todas as portas possíveis para a manutenção e realização desses projetos.A Bahia necessita tomar ciência de tudo isso.Porque Luiz Paulo tem que chegar mais longe ainda…

 

                                                Jorge Portugal

Educador e Comunicador. E-mail>secretaria@jorgeportugal.com.br

 

 

 

 

jul 3

 

Se alguém ainda tinha dúvidas sobre o poder e a força das classes emergentes, C e D, esse último São João derrubou todas, uma a uma.

Relembrando: outrora, as festas juninas eram vistas pela mídia sudestina como um evento folclórico, uma espécie de “arraial de pobres” que ocorria no Nordeste, mas digna de pouca atenção.Daí a presença tímida ou quase nula nos noticiários escritos e televisivos.Já li artigo de socialite/cronista execrando as festas juninas que Luís Inácio promovia no palácio, à época da presidência.Este ano, surpresa!Overdose junina nas telas de TV, especialmente “a dona de boa parte das cabeças do Brasil”, a Rede Globo de Televisão.

No “Esquenta” de Regina Casé, só deu São João; um especial comandado por Chico Pinheiro, “São João no Nordeste”, um Som Brasil dedicado a Jackson do Pandeiro e um Globo Repórter inteirinho mostrando a força e a fé dos santos juninos.Além de fartas matérias nos jornais da casa.Milagre? Simpatia repentina por uma festa que eles mesmos se esquivavam de mostrar em sua grandeza? O que teria provocado tamanha mudança?

“A  economia, estúpido!” como bem diria Carville.Estamos falando de cerca de 40 milhões de pobres que viraram classe média, com dinheiro no bolso e vontade de gastar.Origem deles?Em boníssima parte, nordestinos do Brasil que se despencaram há 20, 30 anos para o sul maravilha, e agora,alguns degraus acima das condições anteriores, são capazes de influenciar muita coisa, até programação de TV.

Na “sociologia-instântanea” disfarçada de reportagem que fez José Raimundo para o Globo Repórter, ele nos mostra uma família de nordestinos em Sampa preparando-se para passar o São João no interior da Paraíba.O chefe da família há 25 anos não retornava à terra natal.E agora, com mulher e mais três filhos resolveu matar saudades dos parentes e de seu lugar de origem.Viajaram de quê? De avião! Todos, que não puderam fazer essa viagem  antes, de ônibus da carreira, fazem-na agora de avião.

E é essa força capaz de mudar e movimentar supermercados, agências de turismo, shoppings centers, todo um mercado incipiente e amplo que começa a modelar um novo Brasil.Mas um novo Brasil que ainda vai precisar de outros ingredientes que dê sustentação a essa nova cidadania: ensino público de qualidade, educação em seu amplo sentido para que essa pessoas não se limitem apenas à condição de “máquinas de consumo” irrefreado,  detonando de vez o precário equilíbrio do planeta.

Distribuir renda não é difícil.É até rápido.Distribuir informação de qualidade é que são elas!E o pior é que são fenômenos com ritmos diferentes.E não estou falando de baião, xaxado e xote.Apenas não quero que toda essa conquista, no futuro,não passe de “espumas ao vento”, como grifou Aciolly Neto, numa bela canção nordestina.Viva São João!

E-mail>jorgeportugal@terra.com.br

Twitter> JorgePortugal1

Facebook> Jorge Portugal Portugal

jun 21

 

No último dia 10, João completou 80; no dia 18, Maria fez 65.Quem os vê como grandes artistas, que são, estão absolutamente certos; afinal é dessa maneira que eles chegam ao nosso conhecimento, melhor ainda, à nossa sensibilidade.

Eu – além da visão clássica – vejo-os como escolas, universidades vivas cujas vidas, trajetória e talento deveriam ser objetos de estudo, com cátedra própria em instituições superiores do Brasil.Ou mais e melhor: matérias do fundamental e médio, ao lado de matemática, história,Português e outras mais.Por João, aprenderíamos a seriedade da pesquisa, a ouriversaria da forma, os caminhos precisos da harmonia com dissonâncias, a economia dos sons e a epifania do belo.Tantos valores que a corrida do cotidiano e a leviandade das relações ordinárias vão apagando, deixando para trás como nota esmaecida, submetida ao consumo imbecil e ao individualismo tosco.João é uma aula de humanismo musical que se contrapõe a tudo isso!

Não à toa( e eu já fiz a mesma pergunta a muitos) todos os que foram marcados por João lembram-se nitidamente da hora, dia, lugar, cor do céu, intensidade do vento, do milionésimo segundo do momento em que ouviram “Chega de Saudade”, para que suas vidas não fossem mais as mesmas.Que aula!Que inesquecível aula!

Maria, por determinados aspectos, é a anti-João.A voz potente,gestos arrebatados de quem interpreta, intensa presença em tudo que faz.A única cantora que eu já vi/ouvi fazer pausa de ponto-e-vírgula e dois pontos ao cantar uma canção(em “O Ciúme”, de Caetano e “Vila do Adeus”, minha e de Roberto Mendes).Maria é uma lição de dignidade, fidelidade à Arte, entrega ritual ao seu ofício, senso ético a qualquer prova.

De vez em quando “ a canalha infernal” brasileira tenta respingar o veneno de sua sordidez sobre João e Maria.Eles, impávidos, olvidam.Pensando bem, que som de animal rastejante poderia alcançar a altura das estrelas?

João e Maria representam o Brasil dos meus sonhos.Como vocês podem ver, é belissimamente ambicioso o meu sonho de Brasil.Parabéns aos dois.

 

                      Jorge Portugal é educador e compositor

                      E-mail> secretaria@jorgeportugal.com.br

jun 17

 

“COPA “ ENEM: 6 MILHÕES JOGANDO O FUTURO.

Se você prestar atenção, é muito semelhante a um campeonato nacional de futebol: há Série A e Série B, times de ponta e elencos de enorme pobreza, craques revelados pelo grande esforço e talento, jogadores que se recusam a “suar” a camisa, pondo-se sempre na linha de impedimento, e os técnicos, bons e ruins, curiosamente chamados por ambos os grupos de…professor!

Pois bem, longe muito longe da atenção que a mídia tupiniquim dá às estrelas do futebol brasileiro, enchendo suas páginas e telas com notícias e fotos fartas , semana passada fecharam-se as inscrições do ENEM, hoje o grande vestibular nacional, e o número de candidatos surpreendeu até a mais otimista das previsões: 6 milhões e duzentas mil pessoas deixaram clara sua vontade de estudar e tentar uma vaga no nível superior de ensino.

Como num campeonato, os estudantes dos colégios particulares do sul-sudeste, à semelhança dos clubes de elite(São Paulo,Flamengo,Santos etc) saem na frente com uma grande vantagem: por lá, no mínimo, os professores compareceram a todas as aulas e, ganhando salários compatíveis com sua importância, deram o melhor de si nas aulas ordinárias e ainda extrapolaram em revisões, aulas extras e paciente atendimento personalizado aos alunos com acentuada dificuldade.Desses times, ou melhor, colégios, muitos estudantes prestam o ENEM de olho nas muitas Universidades Federais de ponta espalhadas pelo país.E são, sem dúvida, os primeiros a preencher as melhores vagas.

Na outra ponta, os colégios públicos do centro-oeste, norte-nordeste parecem entrar em campo para tentar um empate honroso ou assumir a “lanterninha” da competição.Por lá, há meses, não aparece professor de Química, Física, o de Redação foi uma vez e não mais voltou, inúmeras greves paralisaram o ano letivo, e dinheiro para aulas de reforço, nem pensar!São os times de várzea, ou escolas da pobreza cujos alunos ainda veem o ENEM como passaporte para o PROUNI, chance de ingressar em uma faculdade privada( nos dois sentidos, em alguns casos), com o governo pagando suas mensalidades. Em outros casos, é o ENEM ,agora, a possibilidade de conseguir o certificado de conclusão do ensino médio, para os que já tinham ancorado no meio do caminho.

E assim esse exame nacional – para o qual bato palmas, sim! – ainda é um claro indicador das nossas desigualdades sociais, aprofundadas pela má-distribuição da informação e do saber.O que precisamos- e já – é de providências públicas velozes, em parceria ou não com a sociedade civil, para qualificar nosso estudante do ensino médio, em qualquer ponta do país, a fim de que o seu time ( o seu colégio) não se veja eternamente condenado a disputar a “segundona” da nossa educação.E da vida, é claro.

TWITTER> JORGEPORTUGAL1

FACEBOOK> JORGE PORTUGAL PORTUGAL

E-MAIL> jorgeportugal@terra.com.br

jun 3

 

Notícia pra valer para mídia tupiniquim é escândalo com celebridade, muito sangue nas tragédias cotidianas ou o espetáculo sem fim da corrupção nacional.Pronto, aí está o tripé com que os “formadores de opinião” tentam entupir nossas cabeças e nos manter paralisados diante da vida.

Por isso, quase ninguém notou numa pequena nota que alguns poucos jornais veicularam há uns quinze dias: “Desigualdade no Brasil cai a seu nível mais baixo em 50 anos”. E mais e melhor: “educação é o fator responsável por  tal acontecimento” Aí o leitor apressado pode pensar: “ mas não dizem que nossa educação, sobretudo a básica, é um horror?”.Continua sendo, caro(a) leitor(a).Ocorre que é “ lá na ponta” que está se dando o milagre.Seguinte: com a política de cotas, o Prouni,os cursinhos sociais e a construção de mais universidades públicas, um número jamais visto de jovens negros e pobres vem tendo acesso ao diploma de nível superior, disputando e ganhando vagas prestigiadas no mercado de trabalho, recebendo bons salários e, com isso, diminuindo a desigualdade social no país. Não é uma bela notícia? Melhor, para nós, do que o casamento do príncipe inglês ou a última peripécia sexual de Lady Gaga, concorda? Não é uma sociedade menos desigual que tanto queremos? Com mais pessoas satisfeitas, menos violência e mais segurança para todos? Pois bem, a educação, com as políticas compensatórias, está conseguindo isso.E é só o começo! O que não dispensa, de jeito nenhum, luta sem trégua por um ensino básico de qualidade, para que, no futuro, nem dessas políticas de reparação precisemos.

Outra notícia maravilhosa que “passou batida”, na semana passada: “Governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, institui cotas para negros e índios em concursos públicos”. Sim, sim, sei que demétrios e demóstenes vão bradar a morrer, invocando a existência de uma só raça humana(argumentinho mais conveniente e calhorda!), cobrando meritocracia, como se um grupo étnico que teve contra si políticas perversas e excludentes de estado por cerca de 400 anos, tivesse a chance de construir mérito pelo conhecimento! Parabéns, governador Cabral, Vossa Excelência demonstra conhecer profundamente o país em que vive, o estado e o povo que governa.Menos desigualdade vindo por aí.

  espero – e sei que não vou esperar em vão – que o governador do meu estado, Jaques Wagner, homem público de sensibilidade social invulgar,tome a mesma iniciativa aqui na Bahia, a unidade da federação mais negra do Brasil , situada no Nordeste, periferia histórica de todos os benefícios da nação.

Gostaria muito que essas notícias estivessem na primeira página dos nossos jornais, portais e TVs.Não estiveram, assim como não esteve a notícia da morte de Abdias Nascimento. Mais do que nunca ficam valendo as palavras do poeta: “ A felicidade do negro é uma felicidade guerreira”. A bênção, mestre Hélio Santos!

 

                                    Jorge Portugal – Educador e Comunicador

                                  E-mail> jorgeportugal@terra.com.br

mai 24

 

 

Não, gente, podem ter certeza de que não errei a data.Sei muito bem que hoje são 24 de maio, véspera do 25, dia da África, efeméride talvez desconhecida por muitos.Mas eu quero falar mesmo é do dia 14 de Maio de 1888, o dia seguinte ao 13, da Abolição.Devo dizer, de saída, que não me alio ao repúdio puro e simples à data da Lei Áurea.Na boa reflexão do poeta Capinan só os que se viram livres das algemas, que não mais submeteriam o corpo ao tronco e às torturas é que souberam o tamanho da alegria de viverem em liberdade.Não à toa, os negros de Santo Amaro, desafiando a poderosa Igreja Católica, a sociedade aristocrática branca de então e a polícia, levaram todos os candomblés a bater em praça pública, no 13 de Maio de 1889, para comemorarem o fim da escravidão.E não pararam de o fazer até hoje.

Mas, voltando ao 14 de Maio. O dia anterior foi só alegria.No dia seguinte, entretanto, os ex-escravos já começavam a sentir o peso de uma liberdade sem cidadania,sem inclusão social e pior: com o próprio estado brasileiro estabelecendo medidas legais e institucionais para negar quaisquer benefícios ao negros, jogando-os na vala da marginalidade, tornando-os “gente diferenciada”.No excelente livro “ Cor da Pele”, que deveria ser leitura obrigatória de todos, o Dr. Almiro Sena, hoje secretário da Justiça e Direitos Humanos da Bahia, lista uma série dessas medidas, que tranformaram o dia 14 de Maio numa longa noite de tormentos e negações para a nossa etnia.A promoção da imigração da mão de obra europeia, tirando dos negros a remuneração por um trabalho que eles fizeram por 350 na condição de escravizados; o Código Penal de 1890, tipificando como crime a capoeiragem, a mendicância, a vadiagem e o curandeirismo; a inacessibilidade, aos negros, à educação de qualidade e à posse de terras.123 anos depois ainda sofremos os efeitos desse crime perfeito.

Se o estado brasileiro “inventou a tristeza”, ele mesmo “ tenha a fineza de desinventar”.Por isso, pense quatrocentas vezes antes de condenar as cotas e as políticas públicas de reparação, viu?

 

                                                   Jorge Portugal

          Educador e Comunicador.E-mail: secretaria@jorgeportugal.com.br

mai 23

 

 Faça um sincero exame de consciência, agora, e me responda:

- Você acredita que se tivéssemos uma rede pública de ensino de qualidade, o jogo da competição entre os nossos jovens estaria empatado, e a partir daí valeria apenas o talento?

-Acredita, também, que com essa rede pública acima referida, não haveria mais necessidade de cotas para a juventude negra e pobre dos colégios estaduais?

-Por fim, você crê , com a lucidez dos que pensam profundo, que, cumpridos todos os itens acima pelo estado brasileiro, aí, sim,teríamos completado nosso processo de abolição e instaurado, definitivamente, a república entre nós?

Pois, se você acredita sinceramente em tudo isso, pode ter certeza: você é um(a) educacionista.Só não sabia.

O Educacionismo, expressão-conceito criada pelo educador  Cristovam Buarque, é , principalmente, um movimento da cidadania brasileira que tem por bandeira principal a “educação como única revolução necessária e possível”.Entendemos que, na sociedade do conhecimento, cada minuto que perdemos pode representar décadas de atraso, frente à inaceitável taxa de analfabetismo que temos e o desqualificado ensino médio que oferecemos aos nossos jovens.Tornamo-nos ,há séculos, verdadeiros exterminadores de gênios que sequer tiveram a chance de se revelarem; estudantes que completam o segundo grau e não têm mais como progredir na sua marcha rumo à universidade ou a uma inserção digna no mercado.Uma juventude diariamente cooptada pelo crime organizado, porque a transformamos num exército de reserva do mal.

O Educacionismo, além de suas bandeiras já conhecidas, possui também um conjunto de ações bem delineadas: a lei do piso nacional do salário do professor, da autoria do senador Cristovam, pelo qual precisamos lutar decididamente, pois que existem governadores e prefeitos arranjando desculpas inaceitáveis para não pagar; a lei 11.700, pela qual crianças a partir de quatro anos de idade têm direito a uma vaga na rede pública, em escola próxima à sua casa; e o projeto de lei, do mesmíssimo Cristóvam, que propõe a federalização do ensino básico, ficando este sob a responsabilidade da União,com professores, diretores e demais funcionários ,com o seu plano de carreira assegurado e recebendo salários compatíveis com os de funcionários do Banco do Brasil, Caixa Econômica e outras estatais.

Gostou? Então junte-se a nós.Vamos fazer do Educacionismo um movimento da magnitude das “Diretas Já” , ou do  “Impeachment de Collor”.Acima de partidos, ideologias, crenças religiosas ou idiossincrasias quaisquer.Lembre-se: não existe país de “primeiro mundo”; há, sim, povo “de primeiro mundo”. E isso só se faz com ensino público de qualidade.Entre nessa!

 

                                                                               Jorge Portugal

 

                                  E-mail> jorgeportugal@terra.com.br

                                  Facebook> Jorge Portugal Portugal

                                  Twitter> jorgeportugal1

 

 

 

 

mai 11

 

Em semanas de Bin Laden, casamento de príncipe e beatificação de Papa, educação não entra.Por isso, fui descobrir na sétima página de um poderoso jornal paulista, a melhor das notícias que poderia receber:”Desigualdade é a menor em 50 anos, e educação é o principal motivo da distribuição mais igualitária”.Políticas de ações afirmativas, Prouni e a explosão dos cursinhos sociais certamente respondem por isso.Mais pobres no ensino superior,melhor renda, melhor vida.Sinceramente, leitor(a), você não acha que essa notícia deveria vir até num canto qualquer da primeira página?

Na Bahia,Pacto pela Educação; Pronatec no Brasil.O primeiro apresenta dez metas ambiciosas, calçadas na parceria entre o estado e municípios,e dispõe-se a: extinguir o analfabetismo escolar,ampliar o acesso à educação integral, combater a repetência, valorizar o profissional da educação e promover sua formação, estimular as inovações e o uso das tecnologias como instrumentos pedagógicos e outros itens que, com a ajuda e participação da cidadania, ou seja, todos nós, poderá transformar-se em uma bela revolução.Já o Pronatec, lançado pela presidente(a) Dilma Roussef mira o fortalecimento e a ampliação do ensino profissionalizante médio, em um país que cresce  5% ao ano, mas já começa a vislumbrar um apagão de mão-de-obra qualificada segurando o pique da economia.

São três notícias pra deixar a alma de qualquer educador em festa.Mas, gente, meu coração bateu ainda mais forte e apaixonado há cerca de dez dias quando entrei no Colégio Djalma Pessoa, do Sesi, na Av. Orlando Gomes.O velho professor viu ali a escola dos sonhos.Mantido pela FIEB,tem instalações impecáveis, laboratórios de ciências de primeiríssima linha, teatro, programação cultural intensa, professores capacitados e motivados e 1.600 alunos  com os olhos brilhando de inteligência e contentamento.Ali, sem que ninguém me ouvisse, cantei baixinho para aquela maravilha: “ se todos fossem iguais a você…”

 

                                            Jorge Portugal

       Educador e comunicador.E-mail> secretaria@jorgeportugal.com.br

mai 7

 

Você, que está lendo este artigo agora, deve ser pessoa pertencente à classe média ou média-alta, não?Pois bem, devo-lhe dizer que até hoje não entendo sua compulsão por pagar duas vezes pelo mesmo serviço.Há anos parece que você firmou um indissolúvel casamento com a bitributação.Senão vejamos: você paga impostos para ter segurança e tranqüilidade no seu dia a dia; entretanto, paga mais ainda para morar num condomínio fechado ou em algum prédio cercado de câmeras por todos os lados.Você também paga impostos para ter direito a hospitais de ponta e assistência médica decente, não é? No entanto, “morre” numa quantia considerável mensal para garantir um bom plano de saúde.E, por fim, só para ficarmos em três exemplos, no imposto que você paga vai um percentual considerável para que seus filhos tenham boas escolas públicas e um padrão de ensino, no mínimo, satisfatório.E o que ocorre?Haja dinheiro para colégio particular e, a depender do número de filhos, isso vira uma pequena fortuna. Faça as contas direitinho e veja o quanto voltaria para o seu bolso se nós, da classe média,abraçássemos uma luta sem trégua por serviços públicos de qualidade!

Fico, por enquanto, com a luta por uma escola pública decente que é, para mim, a mãe de todas as outras lutas.Pelo simples fato de que uma pessoa bem informada, com boa visão de mundo e consciência cidadã saberá muito bem afastar o que de ruim ou inconveniente tente se aproximar de sua vida.Saberá lutar por um ótimo sistema de saúde, por boas estradas, pelos zelo necessário com o meio ambiente, pela sustentabilidade da vida no planeta.Assim como você faz, assim como eu faço.Dê escolarização e educação de qualidade a um povo, que do resto ele cuidará.

Além do mais, na escola pública, teremos a primeira aula de democracia e respeito às diferenças.Numa sala de aula sem apartheid, estudam o filho do deputado e o filho do gari; o filho do gerente do banco e o filho do contínuo; o filho do empresário e o filho do camelô.Uma sala com todas as classes e de todas as cores.E pela qual já pagamos altos impostos! Só pra lembrar: se já foi assim um dia, por que não pode voltar a sê-lo?

Por isso estou em campanha desde o artigo passado.Precisamos provocar uma audiência pública no senado para que seja discutido o projeto 480/2007, de Cristóvam Buarque, que prevê para” daqui a sete anos,que todo detentor de mandato público, de vereador a presidente, seja obrigado a matricular seus filhos na rede pública de ensino do Brasil”. É o que chamo de “bomba do bem”.Falta apenas o senador Antônio Carlos Valadares, o relator do projeto, retirá-lo da gaveta, onde dorme há quatro anos.Use o twitter, o facebook, mande e-mail para o relator. Isso é infocidadania.E-mail  dele:antoniocarlosvaladares@senador.gov.br

A luta continua, classe média!

JORGE PORTUGAL  > E-mail: jorgeportugal@terra.com.br

                                     Twitter: @jorgeportugal 1  / Facebook > Jorge Portugal Portugal

 

 

 

 

« Anterior Próximo »