set 9

 

Demorou! A melhor notícia que recebi na semana passada foi a manifestação de estudantes brasileiros em defesa da qualidade do ensino nacional.Já estava achando esquisito a moçada do Chile “mandando ver” nas ruas há várias semanas, e o pessoal daqui… nada!E olhe que no comparativo dos dois sistemas de educação, sempre nos chegaram notícias de que o Chile era praticamente um paraíso nessa área.E eu daqui pensando: “puxa, se o Chile é um paraíso e se movimenta, o Brasil, que está pra lá de inferno, nem pia”.

Os estudantes que foram às ruas em Brasília pedem basicamente duas coisas: que se aumente o percentual do PIB, em 10%, para a educação e que se destinem 50% da renda do Pré-Sal para promover e incrementar políticas públicas que melhorem nosso ensino.Boa e justa pauta! Mas se eu tivesse voz amplificada sugeriria a eles que aproveitassem o embalo  e incluíssem algumas “velhas reivindicações” que temos martelado aqui do nosso espaço, muitas propostas pelo grande educador Cristóvam Buarque: 1)que fosse criada e aplicada responsabilidade penal aos gestores que ainda se negam a pagar o piso nacional aos professores;2)excluída essa possibilidade, que fosse então federalizado o ensino público brasileiro, passando os trabalhadores em educação a serem tratados da mesma forma que funcionários do Banco do Brasil, da Caixa Econômica e da Petrobras;3)que fosse aprovada , pelo congresso, a “bomba do bem”, que determinaria a qualquer detentor de cargo público – do vereador ao presidente – a matricular seus filhos na rede pública de ensino.

Quem sabe se, pedindo tudo isso, os estudantes não consigam levar, pelo menos, os 10% do PIB e os 50% do Pré-Sal? A situação é clássica: todo partido de esquerda que chaga ao poder pelo voto, tende a  fazer um leve(ou acentuado) movimento à direita.Sobretudo quando precisa aliar-se a um elenco de partidos que até ontem apoiavam a ditadura.A possibilidade de vender um quarto da alma em nome da governabilidade é altíssima.Daí então, os movimentos sociais(que sabem onde o calo dói) não podem relaxar um minuto.Se não se movem nas ruas, o governo não se move no poder.Por isso, precisamos voltar a gritar –e bem alto – nos ouvidos do Congresso e da Presidente Dilma .A UNE não pode ser uma secção do Planalto.Nem os sindicatos.Nem o MST.Movimento social é pra fazer governo avançar!

Já que voltaram às ruas, espero que os estudantes “tomem gosto” e continuem por lá.E a sociedade venha atrás.Afinal, ensino público de qualidade é a única bandeira que ainda tem cheiro de revolução, nessa quadra histórica sem utopias.Como a juventude está fazendo no Chile, temos muito mais motivos para não voltarmos a casa tão cedo.

ago 30

 

Luz, câmera, atenção!Em breve estreia nos cinemas do Brasil o filme “O Jardim das Folhas Sagradas”, do cineasta baiano Pola Ribeiro.Não se trata de acontecimento trivial e explico:há muito tempo que as grandes produções do cinema nacional se apoiam em duas fórmulas de sucesso: o “favela movie”( Cidade de Deus,Carandiru, etc) e as comédias românticas da Globo Filmes que, pela máquina de promoção de que dispõem, “entopem” com facilidade as salas do país.De vez em quando, pula daqui ou dali um “Estômago”.E o resto, o grande resto fica por conta dos blockbusters norte-americanos , que servem de pretexto para o consumo de sacões de pipoca e espetáculos de deseducação de plateias boçais nas salas escuras.

Assim como Glauber Rocha(que falta esse agitador cultural  faz!)nos apresentou , em 1964, um Brasil que vivia  escanteado, com todos os ingredientes do nosso inconsciente cultural, escancarando uma realidade latente com poesia cinematográfica incomum, Pola Ribeiro, em 2011, nos conta o universo da cultura afro-baiana na expressão do Candomblé e sua tensão dialética entre a tradição e a modernidade.É obra de ficção com enredo, personagens, cenários, uma história apaixonante que prende nosso olhar da primeira à última cena.

Como assinalei em artigo para o Terra Magazine, se Pola tivesse apenas aberto a câmera na direção dos rituais e sua plasticidade estonteante, já estaria fazendo “cinema transcendental”.Mas optou pela narrativa e pelo desempenho de um elenco fabuloso que tem em Gody, Arildo Deda,João Miguel, Ray Alves, Mariene de Castro, boa parte do Bando de Teatro Olodum “cavalos” de uma interpretação magistral.

Um aviso e um grande pedido: se você acha que o “Jardim” faz mero proselitismo religioso, pode desarmar seu preconceito. Seja qual for seu credo,  tenha certeza de que você estará diante de uma obra de arte da maior relevância e beleza.Algo que nos engrandece e nos permite uma emoção estética de alto teor.Filme que você vai ver e não esquecer jamais.

Jorge Portugal – educador e comunicador .   E-mail> secretaria@jorgeportugal.com.br

ago 27

 

Vem da deputada Luiza Maia, do PT-BA uma proposta que vai acender polêmica sem fim: sugere ao governo da Bahia que não contrate grupos de pagode cujas músicas desrespeitem a figura feminina, que atentem contra a dignidade da mulher.Para os que não conhecem bem a história, aqui na Bahia há um sub-produto da Axé Music – grupos de pagode – que invariavelmente trazem nos refrões de suas músicas(?) “carinhosos elogios” à figura feminina como “ cachorra”, “periguete”, “problemática”….

Alguns “arautos da livre expressão” já colocam a boca no trombone de vara alegando a instituição da censura, que as bandas de pagode têm todo o direito de cantarem o que quiserem, que vivemos numa democracia, etc, .

Feministas  apoiam o projeto argumentando que tais músicas ferem direitos humanos, entre os quais o respeito ao semelhante, e essa desconstrução da imagem da mulher - prática contínua dessas bandas baianas - é violência verbal que pode muito bem levar à violência física.

Convido vocês a uma análise de fundo: qual é o perfil daqueles que formam um grupo de pagode? Jovens negro-mestiços, entre 18 e 30 anos, nascidos e criados em alguma periferia de Salvador, onde o braço do estado pouco ou quase nunca chegou, sem acesso, portanto, a qualquer repertório cultural  de melhor nível, e que “monta” sua composição geralmente a partir de um refrão que condensa todo tipo de preconceito em relação ao “outro” que ele considera mais frágil e menos poderoso: a mulher, o travesti, o gay.

Do outro lado, um grande público em tudo semelhante aos “artistas”, imerso na mesmíssima indigência intelectual, quer apenas balançar o esqueleto com um ritmo eletrizante que inspira coreografias sexuais excitantes.No meio dos “artistas” e do público, o empresário esperto e um programador de rádio mais esperto ainda, que vai executar 15 vezes por dia esse “trabalho”, transformando-o em retumbante sucesso e faturando imensa fatia do Carnaval-São João-Carnaval em que se tornou o calendário baiano.Em suma, a falta de informação, educação, ética humana e inteligência musical tornaram-se a principal mercadoria da “cultura baiana” atual.Grosseria que gera muito dinheiro!

Acho que o projeto da deputada Luiza Maia vai encontrar resistência até dos seus pares na Assembleia Legislativa.Brandindo o argumento da “livre expressão”, jamais confessarão o medo que têm de perder os votos da pagoderia.Por outro lado, grande contingente de mulheres que se sentem agredidas por essas bandas, não demonstraram,ainda, a mínima vontade de ocupar as redes sociais e as ruas, em protesto, contra essas aberrações musicais.

Uma proposta à proposta: por que não sugerir ao Governo do Estado, prefeituras municipais e estatais que não contratem tais bandas simplesmente…porque elas não precisam do dinheiro público?Já estão muito bem colocadas no mercado, faturando horrores com sua grande massa de consumidores.Que se virem com o patrocínio privado.E aí, mulheres, hora da ação: denunciar e boicotar produtos de empresas que se associam a essa baixaria musical.

ago 19

 

Nesta primeira quadra do século 21, marcada por fanatismos e medo, onde estão fincadas bandeiras de correntes deploráveis como Liga Norte italiana,Tea Party norte-americano, fundamentalismos religiosos e étnicos, corrupção desenfreada , usuras sem fim, protagonismo irracional do mercado e do consumo, só mesmo a Arte pode dar conta de um pedaço de sossego para as angústias humanas.

No meu caso, tenho tomado, ultimamente, doses cavalares de Arte da melhor fonte, pois quanto maior o veneno, maior também o remédio.Tenho sobrevivido às custas do novo cd de Chico Buarque, que sempre sabe o endereço das belas melodias para casá-las com as metáforas que arrebatam sentidos e imaginação.O velho e bom Chico, que não precisa fazer concessões a vagas modernosas, nem ao fel do pior que infesta a programação da maioria das rádios brasileiras.Ouvir novas canções como” Nina”, “Querido Diário”, “Se eu soubesse”, “Sou eu” e a já antológica “Sinhá” anestesia a gente contra a aridez do momento.

Tenho também tomado overdoses de Zé Miguel Wisnik.Chegado pelo genial” Indivisível” – duplo cd ligado por um ímã – o mestre da Literatura e multiartista da MPB dá conta precisa de me livrar do tédio musical em que a burrice cotidiana insiste em nos sufocar.Uma obra que premia a beleza da canção e a excelência da poesia.Nenhum truque, nenhuma peripécia.Wisnik cantando “ Serenata” , “Cacilda!”, “Tenho dó das estrelas” é momento sublime demais que nos leva pra bem longe das pautas dos jornais e das portas do inferno.

Protegido pelo repertório desses santos artistas, ousei atravessar a cidade num sábado à noite,enfrentando a direção temerária dos volantes da classe média e fui ver a montagem de “Sargento Getúlio”,no CineCenaUniJorge, já carinhosamente chamado “Cine Ricardo”.Recebi uma mega-dose de direção magistral de Gil Vicente Tavares e uma atuação de Carlos Betão simplesmente de tirar o fôlego.Arte maior, com a assinatura da Bahia e o poder de neutralizar pagodes, sertanejos e outros torturadores da alma.

O Jardim das Folhas Sagradas fica para outro artigo.

 

                        Jorge Portugal>Educador e Poeta.E-mail>secretaria@jorgeportugal.com.br

ago 12

 

Deve estrear em breve o filme “Jardim das Folhas Sagradas”, do cineasta baiano Pola Ribeiro.Em sessão especial para a imprensa local, pude vê-lo e saí vivamente encantado por muitos aspectos que não encontro no cinema que se faz atualmente no país.

Para os olhares mais apressados, o “Jardim” pode parecer apenas um filme feito sobre o Candomblé, seus rituais, mistérios e até polaridades internas.Mas eu lhe peço, desde já, que se desarme de qualquer preconceito( se é outro o seu credo) e dirija ao filme o olhar humano e inteligente que merece toda grande obra de arte.Não há dúvida de

 que o povo negro da Bahia e sua cultura religiosa ocupam a centralidade da trama que, no entanto, traz outros temas que pontilham nosso debate contemporâneo e dizem respeito ao tipo de organização social que queremos e à sustentabilidade do planeta em que moramos: a intolerância religiosa, o racismo e a relação profunda entre religião e natureza permeiam a história, disfarçados de tramas secundárias, mas, apenas, “disfarçados”.

O “Jardim das Folhas Sagradas” é filme para encher os olhos.Se Pola Ribeiro apenas fixasse a câmera na direção de todos os desdobramentos de um ritual de matriz africana, já teria “cinema transcendental” para oferecer ao nosso olhar.As danças, o colorido de pessoas e roupas,a beleza natural dos cenários e cenas, uma cultura viva no seu momento sagrado, por si sós já fariam a grandeza de um documentário imperdível.Mas Pola conta-nos muitas histórias, dentro de uma história maior, que informa e encanta.

Saí  da sessão com a sensação de que, guardadas as proporções,O Jardim das Folhas Sagradas revela uma “coragem de autor” semelhante à “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, de Gláuber Rocha.Ambos desvelam um Brasil, se não desconhecido da maioria, com certeza olvidado pelos que se escusam a reconhecer e assumir sua profunda identidade cultural.

E em tempos de “Tea Party”, “Frente Nacional Francesa”, “Liga Norte”, “Islamofobia”, prática explícita de intolerância religiosa e racial no Brasil, nada melhor do que afirmarmos a pluralidade de nossas origens e, dentre elas, aquela que ficou escanteada por séculos, na tela da TV,na universidade, no cinema e na consciência nacional.A matriz-mãe de nossa diversidade.

O Jardim das Folhas Sagradas é narrativa que prende o olhar do primeiro ao último minuto; é cine-poesia da mais alta beleza  e dignidade.Longe do superficialismo dos blockbusters estrangeiros e das comédias-Globo Filmes, comunica-nos um Brasil negro e profundo que, no final das contas, somos nós mesmos.

 

ago 2

 

Santo Amaro é uma cidade cheia de “senados”.Explico: não é que lá pontifiquem, em câmaras altas, Pinheiros, Lídices, Suplicys ou Saneys.Senado, na minha terra, é o nome dado aos encontros regulares(sublinho o “regulares”) de pessoas, em lugar igualmente fixo, para falar da vida(em muitos casos, alheia), debater a vida, celebrar a vida.Já houve senados famosos na cidade, como o de Doutor Ranulpho, na praça do Rosário,e o de Dona Da Paz,  na rua do Amparo. Atualmente, com grande peso sócio-existencial-político, temos o de Geraldo Salles, que chegou a fundar uma praça na sala de visitas de sua casa, o de Sapateirinho, regado a uma “erva-doce” que só ele sabe fazer, e o senado do adro da Igreja da Purificação, o principal de todos eles, sem recesso há cerca de 150 anos!

Como bem disse, no senado, a conversa é aberta, sem censura, temas livres que vão da conjuntura internacional à última fofoca da cidade.Naturalmente que o assunto galvanizador de corações e mentes é a política municipal, com defensores e adversários fervorosos do prefeito da ocasião quase indo ao confronto físico na calorosa defesa de posições.Disse “quase”,  notaram?E é esse “quase” que nos dá a certeza das mínimas chances da bela caminhada humana.Na composição do “senado do adro”, pessoas de todas as cores,  credos,  convicções políticas e  classes sociais discutem com ardor questões que, em outros lugares, causariam a morte de milhões. O discurso inflamado de Miguel de Né, a polêmica sempre acesa por Itagildo Mesquita, a adesão democrática de Gabi,Lelinho,Agostinho,Virgílio Sena,Zé Roberto a uma ou outra posição nunca levam a estremecimentos pessoais ou inimizades frontais.Antes, quase toda sessão do senado – e são diárias – acaba em risadas e congraçamento com pamonhas de Sílvio e copos de coca-cola servidos pelas mãos atenciosas de Capenga, e sob a sábia presidência de João Rodrigues.

Engraçado,minha intenção, hoje, era redigir um artigo sobre o massacre na Noruega; e terminei escrevendo sobre o “senado” de minha cidade.

 

                                      Jorge Portugal

    Educador e poeta.E-mail>secretaria@jorgeportugal.com.br

jul 29

 

Choro e ranger de dentes.Corações despedaçados.Torcedores à beira de um ataque de nervos.Quase não se podia sair à noite, depois do jogo, em Itapuã pois os carros pareciam desgovernados, buzinaço de raiva e protesto contra os quatro pênaltis perdidos pela seleção no jogo com o Paraguai. “Não pode!”, gritavam uns;”Traidores!” urravam outros.E o Brasil inteiro parece não ter conseguido dormir diante de tamanho fracasso e derrota.

Entretanto, muito além daquele jogo e há muito tempo, ainda contamos 18 milhões de analfabetos “clássicos” e porcentuais piores de analfabetos funcionais, pessoas que, até com “anel no dedo” não sabem interpretar uma parágrafo, nem entender a simples mensagem de um gráfico. O nosso ensino médio, em particular, tornou-se “a bomba social brasileira”, nas palavras de Gilberto Dimenstein, e apenas 50% dos que ingressam no segundo grau, conseguem chegar ao fim do terceiro ano.Silêncio total.Ninguém diz nada.A voz coletiva não se levanta.Ninguém ameaça ir às ruas e escancarar sua indignação.Desse quadro, ninguém parece ter vergonha.

“Esses jogadores são uns pernas –de-pau, uns avarentos que só pensam em grana; não têm amor à camisa, nem sentimento pelo país”. Essa era a avaliação comum na boca de cada brasileiro, nos bares, nas esquinas e nas ruas.Nos escritórios também.E quiçá nos palácios.Humilhação maior não poderia haver: perder para o Paraguai, com quatro pênaltis desperdiçados! De que maneira chegaremos à copa?

Todavia, muito além do estádio e daquela desclassificação, há muitíssimo tempo, estamos tomando goleada da corrupção, que surrupia bilhões dos cofres públicos para bolsos privados e, quando a grande mídia anuncia espalhafatosamente o fato, quase nunca denuncia o corruptor, facilitando a eterna substituição dos corruptos nos próximos crimes das novas manchetes.Nas construções dos estádios para a copa, nas estradas, pontes, viadutos, no desvio da merenda escolar, no “mensalinho” das feiras livres, onde quer que haja dinheiro do povo, a “mão-de-gato” age rápida e livremente.Apatia geral.Alguns resmungos aqui e ali, mas nenhuma proposta de tomar as ruas e nelas permanecer até a restauração da ética e da moralidade públicas.Passeatas por uma reforma política à prova de corrupção, nem pensar!

“Esse mano Menezes não sabe nada de tática!”, gritavam muitos naquela noite.E, nos guetos e periferias, muitos “manos” pensavam desesperadamente em alguma tática que lhes trouxesse a primeira refeição de todo o dia, que já terminava.”Neymar e Ganso não jogaram nada!”, esbravejavam os que ainda não aceitavam o resultado.No resto do país, milhões de “patos” continuam chutando “pra fora” a chance de existir, porque são ,apenas, cidadãos de segunda categoria, sub-empregados, sem informação e, provavelmente, sem futuro.Por eles,quase ninguém se importa.Por eles, ninguém jamais soltará um grito de gol.

jul 20

 

Depois de uma semana inteira de FLIP, em Paraty, cheguei a Salvador com a sensação de quem “despongava” do céu.Cinco dias inteiros respirando o melhor  da cultura brasileira – e internacional – de alto repertório deixam qualquer um com a experiência de imersão no paraíso.A mesa de abertura, com Mestre Antônio Cândido e Zé Miguel Wisnik, “devorando” o pensamento e a poética de Oswald de Andrade, o homenageado da festa, já pagaria a entrada da festa inteira.Entretanto, ainda teríamos Miguel Nicolélis e Luiz Felipe Pondé, num inesquecível debate entre o novo humanismo científico e o ceticismo filosófico contemporâneo;Inácio de Loiola Brandão e Contardo Caligaris, em tarde de gargalhadas e lágrimas e o encerramento monumental com João Ubaldo Ribeiro, freneticamente aplaudido cada vez que abria a boca.Tudo isso em uma cidade indescritível pela beleza, um lugar onde, na tirada de Mira Silva, diretora do Aprovado,” qualquer recanto é cenário”.

Do aeroporto para casa, já em Salvador, fui  notando a onipresença de out-doors que anunciavam o “Salvador Fest”, megaevento musical que reúne, por dois dias, a nata do sub-pagode baiano com os clássicos da axé music.De volta ao mundo real, acusei.

Mas, não é que na segunda-feira, ainda desarrumando as malas da Flip, recebo telefonema de Andréa “Google”, intrépida produtora do Aprovado, convocando-me para missão especial:entrevistar Nelson Mota, com tema específico: João Gilberto.

Corri para o endereço anotado e voltou-me a sensação de retorno ao céu: Na Varanda de Lícia Fábio, senhora e dona dos mais sofisticados eventos da cidade,o jornalista-poeta deu-nos uma aula inesquecível sobre o maior gênio de nossa MPB.Aula-show sobre Cultura Brasileira, para deixar qualquer universidade babando de inveja.Êxtase absoluto, com a Baía de Todos os Santos por cenário.

Lícia me contou que sonha uma programação mensal com presenças luminosas do Jornalismo, da Música, da Literatura e da Filosofia.O melhor de tudo é que o que Lícia sonha Lícia faz.

Varanda Delícia: seja bem-vinda!

jul 15

 

Passei cinco dias na FLIP gravando matérias e entrevistas para o  programa Aprovado! aqui da Bahia.Mais do que isso, também curti a FLIP, suas mesas, as palestras, os debates, aquela overdose de cultura de alto repertório.Vi, com olhos marejados, o depoimento do Mestre Antônio Cândido, na abertura do evento e, na sequência, a prosa poético-solar de Zé Miguel Wisnik, sempre brilhante, talento que nunca tira férias.O duelo de titãs entre o ceticismo filosófico de Luiz Felipe Pondé e o humanismo científico de Miguel Nicolélis nos deu a certeza de que o Brasil nada deve ao pensamento avançado do mundo.Vi também Inácio de Loiola Brandão e Contardo Caligaris transformarem um fim de tarde em Paraty num belo thriller de narrativas memoráveis e assisti, por fim, a João Ubaldo Ribeiro, pop star absoluto da grande literatura da Ilha Brasil.Só para ficar nos nacionais.Trinta mil pessoas aplaudiam ,com entusiasmo, intervenções, leituras, citações , tudo que fosse palavra boa de quem sabe fazer a mais fina arte com as palavras.Cheguei a fazer uma boutade com João Ubaldo, sugerindo uma letra de lei em nossa constituição que determinasse o direito( e o dever) a todas as cidades brasileiras realizarem uma  FLIP.Naqueles dias, Paraty foi a capital da inteligência brasileira, uma espécie de centro irradiador de poesia, beleza e grandes ideias.

Mas aí, “aquele demônio inquieto” que mora no coração do educador começa a se coçar e a sonhar com coisas não recomendáveis a quem deseja paz de espírito.Por exemplo: Por que essa maravilha SÓ  para 30.000 pessoas? Tudo bem, a internet transmitiu em tempo real, mas o contato direto, a fricção, o encontro com as super figuras que lá estiveram foram privilégio de poucos.Paraty é cidade cara, e fica mais cara ainda nessas ocasiões.De novo, o “demônio”: e por que não “espalhar” Paraty por mais dias do ano? Trazer um pouco do “conteúdo Paraty” e colocá-lo no currículo das escolas – públicas e particulares -, baratear o custo dos livros, criar uma “Faixa Flip” na programação das tevês comerciais, começar a fazer tudo isso tornar-se familiar ao brasileiro médio, quem sabe despertar um gosto escondido que nunca veio à luz por falta de estímulo e conhecimento.Utopia?

Pois asseguro-lhes que, guardadas as proporções, eu tive minha Paraty ainda no Ginásio Teodoro Sampaio, em Santo Amaro, quando vivia entre os 12 e 15 anos.Era a SELIBA/SA – semana do livro baiano, organizada pelo educador Hermano Gouveia, que promovia um contato direto entre os grandes escritores do estado com os estudantes, em uma semana inteira de música, teatro, literatura e poesia.E dali saiu tanta gente boa para as letras e para a vida.

Paratys escolares, que tal? Para que o resto do Brasil também possa “comer do biscoito fino” da literatura e das ideias, como queria Oswald de Andrade, o homenageado da FLIP deste ano.

Com a palavra o MEC e as secretarias de educação.E cultura.

jul 5

 

Salvo engano foi Darcy Ribeiro(ou Cristovam?) quem sentenciou: “ a universidade que não serve à sociedade não serve”.Ao que sei, esse axioma não é bem o metro para medir a UNEB.Nascida com estrutura multicampi, a UNEB constitui pequenas cidades-universitárias em muitas regiões e municípios baianos, auscultando, estudando e interpretando as vocações e carências de cada lugar,  tudo( ou quase) conduzido a seu estágio de pesquisa como caminho para transformar-se em conhecimento.Ainda sem a pujança financeira que toca uma UNICAMP ou USP, mas com o talento e garra que sobram aos baianos: seu reitorado, seu corpo docente, seus funcionários.

Trabalho destacado da UNEB é o seu estudo e ação voltados para o semi-árido baiano.Como sabemos, essa região, onde está a maior parte do território estadual, é uma vergonha histórica, que já mereceu livros, artigos, ensaios, letras de música, mas, de verdade, poucas políticas públicas que removessem de vez as causas da penúria do lugar.Miséria e analfabetismo, como sempre, boas fontes de votos e, por isso, entidades intocáveis!

Mas a UNEB, capitaneada pelo seu Pró-Reitor de Planejamento,Luiz Paulo Neiva, colocou o pé na estrada e está desenvolvendo um belíssimo trabalho na região, especialmente na sua cidade-símbolo.Através do” Projeto Canudos”, vem desenvolvendo com a população local(notem bem: com)ações nos campos da cultura( Memorial Antonio Conselheiro), agricultura, ecologia(Bioma Caatinga) e turismo.

Integrando turismo, arte e história, o sonho dos sonhos: a cidade cenográfica de Canudos.A exemplo de Nova Jerusalém, em Pernambuco, essa cidade, em caráter permanente, será palco de encenações sobre a Guerra de Canudos, atraindo milhares de turistas-culturais do Brasil e do mundo , empregando cerca de cinco mil pessoas do lugar.

Luiz Paulo não para. Espécie de “médium” de Antônio Conselheiro e mestre José Calazans vem batendo em todas as portas possíveis para a manutenção e realização desses projetos.A Bahia necessita tomar ciência de tudo isso.Porque Luiz Paulo tem que chegar mais longe ainda…

 

                                                Jorge Portugal

Educador e Comunicador. E-mail>secretaria@jorgeportugal.com.br

 

 

 

 

jul 3

 

Se alguém ainda tinha dúvidas sobre o poder e a força das classes emergentes, C e D, esse último São João derrubou todas, uma a uma.

Relembrando: outrora, as festas juninas eram vistas pela mídia sudestina como um evento folclórico, uma espécie de “arraial de pobres” que ocorria no Nordeste, mas digna de pouca atenção.Daí a presença tímida ou quase nula nos noticiários escritos e televisivos.Já li artigo de socialite/cronista execrando as festas juninas que Luís Inácio promovia no palácio, à época da presidência.Este ano, surpresa!Overdose junina nas telas de TV, especialmente “a dona de boa parte das cabeças do Brasil”, a Rede Globo de Televisão.

No “Esquenta” de Regina Casé, só deu São João; um especial comandado por Chico Pinheiro, “São João no Nordeste”, um Som Brasil dedicado a Jackson do Pandeiro e um Globo Repórter inteirinho mostrando a força e a fé dos santos juninos.Além de fartas matérias nos jornais da casa.Milagre? Simpatia repentina por uma festa que eles mesmos se esquivavam de mostrar em sua grandeza? O que teria provocado tamanha mudança?

“A  economia, estúpido!” como bem diria Carville.Estamos falando de cerca de 40 milhões de pobres que viraram classe média, com dinheiro no bolso e vontade de gastar.Origem deles?Em boníssima parte, nordestinos do Brasil que se despencaram há 20, 30 anos para o sul maravilha, e agora,alguns degraus acima das condições anteriores, são capazes de influenciar muita coisa, até programação de TV.

Na “sociologia-instântanea” disfarçada de reportagem que fez José Raimundo para o Globo Repórter, ele nos mostra uma família de nordestinos em Sampa preparando-se para passar o São João no interior da Paraíba.O chefe da família há 25 anos não retornava à terra natal.E agora, com mulher e mais três filhos resolveu matar saudades dos parentes e de seu lugar de origem.Viajaram de quê? De avião! Todos, que não puderam fazer essa viagem  antes, de ônibus da carreira, fazem-na agora de avião.

E é essa força capaz de mudar e movimentar supermercados, agências de turismo, shoppings centers, todo um mercado incipiente e amplo que começa a modelar um novo Brasil.Mas um novo Brasil que ainda vai precisar de outros ingredientes que dê sustentação a essa nova cidadania: ensino público de qualidade, educação em seu amplo sentido para que essa pessoas não se limitem apenas à condição de “máquinas de consumo” irrefreado,  detonando de vez o precário equilíbrio do planeta.

Distribuir renda não é difícil.É até rápido.Distribuir informação de qualidade é que são elas!E o pior é que são fenômenos com ritmos diferentes.E não estou falando de baião, xaxado e xote.Apenas não quero que toda essa conquista, no futuro,não passe de “espumas ao vento”, como grifou Aciolly Neto, numa bela canção nordestina.Viva São João!

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jun 21

 

No último dia 10, João completou 80; no dia 18, Maria fez 65.Quem os vê como grandes artistas, que são, estão absolutamente certos; afinal é dessa maneira que eles chegam ao nosso conhecimento, melhor ainda, à nossa sensibilidade.

Eu – além da visão clássica – vejo-os como escolas, universidades vivas cujas vidas, trajetória e talento deveriam ser objetos de estudo, com cátedra própria em instituições superiores do Brasil.Ou mais e melhor: matérias do fundamental e médio, ao lado de matemática, história,Português e outras mais.Por João, aprenderíamos a seriedade da pesquisa, a ouriversaria da forma, os caminhos precisos da harmonia com dissonâncias, a economia dos sons e a epifania do belo.Tantos valores que a corrida do cotidiano e a leviandade das relações ordinárias vão apagando, deixando para trás como nota esmaecida, submetida ao consumo imbecil e ao individualismo tosco.João é uma aula de humanismo musical que se contrapõe a tudo isso!

Não à toa( e eu já fiz a mesma pergunta a muitos) todos os que foram marcados por João lembram-se nitidamente da hora, dia, lugar, cor do céu, intensidade do vento, do milionésimo segundo do momento em que ouviram “Chega de Saudade”, para que suas vidas não fossem mais as mesmas.Que aula!Que inesquecível aula!

Maria, por determinados aspectos, é a anti-João.A voz potente,gestos arrebatados de quem interpreta, intensa presença em tudo que faz.A única cantora que eu já vi/ouvi fazer pausa de ponto-e-vírgula e dois pontos ao cantar uma canção(em “O Ciúme”, de Caetano e “Vila do Adeus”, minha e de Roberto Mendes).Maria é uma lição de dignidade, fidelidade à Arte, entrega ritual ao seu ofício, senso ético a qualquer prova.

De vez em quando “ a canalha infernal” brasileira tenta respingar o veneno de sua sordidez sobre João e Maria.Eles, impávidos, olvidam.Pensando bem, que som de animal rastejante poderia alcançar a altura das estrelas?

João e Maria representam o Brasil dos meus sonhos.Como vocês podem ver, é belissimamente ambicioso o meu sonho de Brasil.Parabéns aos dois.

 

                      Jorge Portugal é educador e compositor

                      E-mail> secretaria@jorgeportugal.com.br

abr 15

 

Não, o que me preocupa não são as declarações racistas e homofóbicas do dep. Bolsonaro.Esse, aliás, já deveria ter sido banido da vida pública há muito tempo, desde quando fez clara apologia à tortura, ou quando sugeriu que” se o regime militar tivesse matado FHC, ele agora não seria presidente”.Mas essas coisas não parecem calar fundo na alma do brasileiro médio, deitado eternamente no berço do seu comodismo político.
O que me causa pasmo é a ponderável quantidade de e-mails, nos debates da internet,de apoio declarado à posição do deputado-boquirroto e seus 120. 000 fieis eleitores cariocas.Dirão os cínicos relativistas que isso é a democracia, é liberdade de opinião e outras platitudes que tais.Como se uma declaração que reforça a homofobia e o racismo –este, crime inafiançável- tivesse o mesmo teor, por exemplo,que uma tentativa retórica de desqualificar algum governo de plantão.
Leio no Jornal A Folha de São Paulo que na capital paulista já são 25 os grupos neonazistas especializados em espancar e até matar negros, gays e nordestinos.Notem bem:grupos mapeados pela delegacia especializada do estado.Ganha um acarajé de Cira, recheado de camarão, quem adivinhar quem é o político idolatrado por essa corja.Inclusive, no último sábado, saíram à Avenida Paulista com o fito de “acabar na porrada” uma manifestação que pedia a cassação de Bolsonaro.
Em artigo escrito na quinta-feira, para o Terra Magazine, o juiz paulistano Marcello Semmer expunha com clareza e fundamentação as razões para uma cassação do mandato de Bolsonaro.Recebeu uma enxurrada de e-mails agressivos e velados tons de ameaça.Um deles não se conteve e deixou lá sua saudação:”Heil Hitler!”.
E o brasileiro “cordato”, “democrata racial”, “defensor da liberdade de opinião”(desde que não ameace seus interesses)faz ouvidos moucos a tudo isso.A esses eu recomendo a leitura do belo, curto e incisivo poema “No caminho, com Maiakóvski”, de Eduardo Alves da Costa.No Google você acha.Ah! aproveite e assista ao filme “O Ovo da Serpente” , de Bergman.E pode esquecer a leitura deste artigo.
Jorge Portugal
Educador e Apresentador de TV.E-mail>jpportugal@uol.com.br

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