mar 4

 

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Tô Sabendo é um programa exibido em rede nacional às terças, quintas e sábados pela TV Brasil, TV Educadora 17:30 hs.
Às terças e quintas-feiras, o Tô Sabendo Desafios apresentará uma maratona de conhecimento, cheia de desafios e perguntas, que discutem  atualidades,  abrangendo questões do novo Enem e dos vestibulares mais concorridos do  país.  Participam da disputa (games) estudantes da rede pública dos estados da Bahia,  Belém do Pará  e  São Paulo.
Envie suas dúvidas para site  www.tosabendomais.com.br
mar 4

 

Cenas de um carnaval sem carnaval

Cena número um: no estúdio da TVE, no Campo Grande , quinta-feira à noite,nove horas, eu e o Prof. Jaime Sodré já nos queixávamos dos não-acontecimentos da primeira noite de carnaval, quando à nossa esquerda, não mais que de repente, irrompeu aquele caminhão de luz, trazendo a dinastia Macedo, Armandinho à frente, e daí em diante foi contada a história do carnaval, através de todas as músicas que fizeram seu sucesso e glória. Pensei: meu carnaval já está pago”.
Cena número dois: sábado, circuito Barra-Ondina. Os olhos já cansados de verem os mesmos blocos de trio – mudando apenas o cantor – já lá pras duas da manhã, se arregalaram em desmedida alegria quando despontou Luiz Caldas – o verdadeiro inventor dessa nova etapa do nosso carnaval. Vinha comandando o trio Tapajós, como se um filme tivesse voltado trinta anos na minha memória. De repente, de novo, vejo um senhor de boné levantar-se com alguma dificuldade do andar superior do trio e acenar para mim: Orlando Campos, o homem que modernizou o “caminhão da alegria” e assegurou a festa do povo baiano, quando a festa ainda era de graça. Pensei: “agora já estou devendo ao carnaval”.
Cena número três: já pelas três da manhã, quando tudo parecia encerrado, um mar de gente negra, pobre, misturada – uma massa compacta em bloco que eu ainda não tinha visto até ali, invadiu o circuito da Barra vigiada fortemente pela Polícia e comandada pelo novo “Zumbi do carnaval”, Léo Santana. Parecia um quilombo de alegria vivendo sua apoteose no pedaço da classe média baiana. O “Rebolation” tomou conta de tudo e arrastou turistas, malandros, patricinhas, periguetes e avulsos, misturando arrocha e pagode numa música só.
Claro que vi também Ivete, Bell Marques, Timbalada, Daniela, e até recebi uma declaração de amor pública de minha ex-aluna Claudinha Leitte.
No dia seguinte soube de uma proposta que deseja privatizar o carnaval, em lugar fechado, com acesso apenas para a classe média alta e os turistas endinheirados. Mais parece uma volta aos bailes de salão, retomando a época do Baiano de Tênis e do Yatch.
Pensei: “vai ser uma festa sem Armandinho, Luiz, Orlando, Ylê, sem rebolation… e sem carnaval!

Jorge Portugal
secretaria@jorgeportugal.com.br

(71) 3240.2252

fev 5

 

No município de Botoporã dia 10 de Fevereiro 2010
No município de Érico Cardoso 11 de Fevereiro 2010
No município de Irará dia 22 de Fevereiro 2010

Em Salvador, no Colégio Lomanto Junior dia 03 de Março 2010

fev 5

 

Peço que por uns segundos você esqueça o Shopping Iguatemi, o panetone (epa!), a árvore enfeitada, a mesa farta, o abraço protocolar dos parentes e me responda: o que se comemora mesmo no dia 25 de Dezembro?

Se não me engano é a data presumível do nascimento de uma criança paupérrima, cuja trajetória neste mundo pode ser resumida em uma frase que a tal criança, uma vez adulta, vivia repetindo: “ama o teu próximo como a ti mesmo”.

Se essa frase tivesse sido levada a sério, ao longo desses dois mil e nove anos poderíamos ter evitado um mar de sofrimento e clamor que marcou e tem marcado a presença humana no planeta: cruzadas assassinas, grandes guerras mundiais, escravidão de negros africanos, racismo de todas as formas, fome, miséria e aquecimento global.

Se a humanidade ocidental-cristã tivesse realmente aquela criança na conta de um deus, certamente que nem precisaria escrever leis absurdas, impor regras e limites de convivência, erguer “cercas embandeiradas que separam quintais” e outras complicações que estarrecem e empobrecem a vida.Bastaria ter o Sermão da Montanha como fonte de inspiração e orientador de condutas.

Mas a verdade é nunca demos a menor bola para o que o nosso aniversariante fez ou propôs.Montamos uma forma de viver, por essa banda do mundo, que corresponde exatamente ao contrário das suas melhores ideias.Construímos templos suntuosos para abrigar as correntes religiosas que fundamos e temos fundado, em nome de uma certa fé nesse homem que achamos ser Deus.Acontece que ele nunca pediu nada disso e até repudiava os que transformavam casas de oração em casas da moeda.

Inventamos e sustentamos milhares de padres e pastores que se arrogam professadores e exegetas da mensagem do “cara” e o fazem… da boca pra fora!

Por esses últimos dias, tivemos notícia de morte e desespero pelas chuvas de São Paulo, cenas explícitas de corrupção por bandidos de Brasília e do fracasso de Copenhague, cujos líderes, na sua maioria auto-intitulados “cristãos”, resolveram apressar, por simples egoísmo, a morte do planeta.

Por isso, se você se encaixa em alguma das categorias acima descritas, por favor, seja coerente e verdadeiro com você mesmo(a): no próximo dia 25, não comemore o natal.

Jorge Portugal
Educador e poeta.
Postado em 28/12/2009 ás 23:30

fev 5

 

A metáfora, perfeita, é da autoria de Ailton Ferreira, hoje Secretário Municipal da Reparação: “ quando o Jornal Nacional anuncia a morte de algum jovem negro e favelado, a bala que ceifou sua vida foi apenas o último tiro. O primeiro ocorreu quando do seu nascimento, certamente de uma mãe solteira, num barraco sem água encanada e sem luz ,na periferia; o segundo, quando ele ingressou em uma escola pública do bairro, sem material escolar, com professores que lá não apareciam e um currículo completamente defasado; o terceiro, quando, sem qualificação, bateu à porta de várias empresas e lhe foi negada a vaga, com o argumento de que não correspondia ao perfil exigido. Sem perspectivas, por volta dos dezenove anos, recebe uma proposta irrecusável do tráfico de drogas.Topa.Aos vinte e cinco, no máximo, a polícia invade o morro e lhe dá o tiro de misericórdia. O último” .
Agora entro eu: a polícia dá o tiro, mas é a nossa omissão que aperta o gatilho.Não vou falar da secular omissão histórica, porque nesse caso, durante quinhentos anos, ela foi política de estado: escravidão, abolição sem cidadania, exclusão social contínua, racismo e negação.
Quero me reportar à pouca velocidade, ao ritmo lento com que certas ações governamentais e atitudes da sociedade civil abordam a questão.Claro que vai aqui o reconhecimento a programas como Bolsa-família, Prouni,Pró-Jovem, Promimp, Cotas universitárias e tantas outras iniciativas de um presidente-operário-nordestino, que nasceu pobre, e, portanto, conheceu na pele a negritude social.
Mas a tarefa de inclusão do negro no sistema da sociedade brasileira é uma tarefa hercúlea, gigantesca, o verdadeiro projeto de construção da nação, que ainda não somos.E aí eu falo de prefeituras de capitais, prefeituras do interior, Ongs, igrejas,terreiros, sindicatos e lideranças comunitárias.
Proposta: vamos começar oferecendo uma oportunidade a esses jovens negros exatamente na linha divisória entre o sonho e a desistência? Vamos criar “ vietnãs educacionais” nos bairros populares, que os preparem para ingressar no Cefet( os que estão na oitava série) ,e na universidade(os que concluíram o ensino médio)?
Prefeitura, empresas, entidades civis e ONGs: a educação de qualidade pode ser o primeiro passo para que evitemos o último tiro.

Jorge Portugal
Um negro em movimento
E-mail: secretaria@jorgeportugal.com.br
Postado em 18/11/2009 ás 02:01

fev 5

 

Quando a célula rítmica do samba-reggae invadiu o coração de Paul Simon, a pélvis pop de Michael Jackson também foi tomada por um frisson alucinante.
Muito antes, bem antes de tudo isso, os negros de Salvador já viviam a utopia, através do som, de juntar Jamaica e Bahia em um sonho só.
Caetano Veloso costuma dizer que o Brasil ainda não merece a Bossa-Nova.Seria o caso de se perguntar: e a Bahia merece o samba-reggae?
Sim, porque a sublime invenção do Mestre Neguinho do Samba permanece como o que há de mais avançado, musicalmente sofisticado e inspirador de tudo que se fez em nossa música depois da Bossa e da Tropicália.Ouvir e ver o Olodum arrastando multidões pelo mundo é confirmar esse destino nosso de conjugar inteligência e alegria para produzir felicidade.Isso é coisa da Bahia.Coisa de negro, gostem ou não.
Aí, Zulu Araújo me liga de Brasília ( e eu em Sergipe) e me comunica, num tom triste de voz, que Neguinho do Samba havia morrido e que precisávamos nos articular para o velório e enterro, vez que sua família não estava exatamente nadando em facilidades financeiras.
O filme voltou de vez. O primeiro engenho, a primeira catedral católica, as suntuosas casas de fazenda, os palacetes erguidos nas primeiras cidades, os filhos dos barões estudando em Coimbra ou Paris.E os negros cortando cana, quebrando pedra e cantando chula.
O Samba-Reggae, a batida do Ylê, do Malê e do Muzenza, a chula de João do Boi e Alumínio de São Brás, serão sempre matrizes fundamentais da nossa criação.Os seus criadores são anjos negros que fazem tudo isso para celebrar o prazer e a vida.Dificilmente pensam em dinheiro.Aliás, não sabem sequer o que realmente significa dinheiro.Mas os “donos da festa” sabem, e sabem muito bem.
Por isso, Neguinho do Samba, Mestres Bimba e Pastinha, Besouro, Nelson Maleiro e Batatinha serão eternamente reverenciados e adorados pelo povo, de onde vinha sua inspiração e para onde voltava sua produção de alegria.
Morreram pobres todos eles.Pobres? E o que dizer dos que só podem fazer sucesso a partir do que eles criaram?
Neguinho: você é e será sempre fonte.Gênio da raça, meu rei.

Jorge Portugal
Educador e compositor
E-mail: secretaria@jorgeportugal.com.br
Postado em 06/11/2009 ás 10:58

fev 5

 

Relata-me Geraldo Salles, à época servindo ao Tiro de Guerra 138 e testemunha ocular do fato:
“ Era um fim de tarde de 1964, primeiros dias após o golpe militar.O tenente Garcia, homem do Exército na cidade, compelido pelos seus superiores a prender o grande líder comunista do lugar, via-se num beco sem saída: era amigo pessoal do acusado, conhecia-lhe o caráter e a integridade embora discordasse de sua ideologia.Usou, então, o expediente de mandar um recado em código por um amigo comum, orientando-lhe a negar seu credo político no momento do interrogatório, já agora impostergável.Nada lhe aconteceria se dissesse NÃO.
- Então, senhor Maurino, o senhor é comunista?
- Nasci comunista, sou comunista e vou morrer comunista.E após a resposta, colocou o distintivo do Partido na lapela, e marchou solene e serenamente para a cadeia municipal, escoltado pela tropa”.
Naquele momento, o Camarada Maru ficou maior do que o Partido, maior do que a cidade, maior do que a ditadura, maior do que todos nós.Na sua “ tenda de barbeiro” , na sua limitação material de homem pobre, na sua responsabilidade gigantesca de pai de enorme prole, permaneceu íntegro e fiel aos seus ideais, mesmo que isso lhe custasse a “ tenda”, a família e a vida.
Comunista que tinha em sua casa dois grandes retratos de Marx e Jesus Cristo, já em idade avançada, via-o, em tempos de campanha eleitoral, na ponte das moringas,hierático e impassível, sob um forte sol de verão, carregando uma placa feita de papelão, propagando a candidatura de Fernando Santana, do PCB, seu amigo e camarada de toda uma vida.
Tornou-se o meu herói, meu mestre e meu paradigma, embora, se cem anos me fossem dados, eu jamais chegaria a um terço do seu incomparável valor.
Influenciou e humanizou muita gente: Trigueiros, Antônio Rocha, Valter Bacalhau,Prof. Carlos Augusto, None, e o próprio Caetano, um dia, confessou sua enorme admiração por aquele homem de “ idéias firmes e elegância ímpar” .
Na última semana, enterraram seu corpo no Campo da Caridade.Minha cidade ficou mais pobre.E eu, do outro lado do Atlântico, não pude estar presente para cantar baixinho no seu ouvido de um corpo inerte que parecia dormir feliz: “ Camarada Maru, ainda guardo aquele sonho que você sonhou pra mim”.

*Jorge Portugal
Educador, poeta e membro do Conselho Nacional de Política Cultural.
Postado em 06/10/2009 ás 21:

fev 5

 

Mulheres extraordinárias deveriam ocupar, na mídia, espaço igual ou maior ao dedicado a mulheres enfiadas, não acham? Até porque o trabalho das mulheres extraordinárias é contínuo, persistente, muitas vezes heroico e, não raro, silencioso.As mulheres enfiadas aparecem do nada para os “quinze minutos de fama” e depois desaparecem para sempre, após terem saciado a fome voraz da mídia-urubu.
Mas, como não é por aí que passa a lógica dos nossos comunicadores sociais(?), valho-me deste humílimo espaço para ovacionar três mulheres que, pela história, pensamento e ação, tornaram-se – sem o serem oficialmente – professoras de verdade.
A primeira é Maria da Penha Fernandes que, passando por Salvador na semana passada, lotou o teatro do ISBA para nos contar sua trajetória de luta e a disposição incansável em afirmar os princípios da lei que leva o seu nome e representa hoje uma carta de alforria para todas as mulheres oprimidas e vítimas constantes da violência dos seus maridos e companheiros.Da sua cadeira de rodas, nos fez enxergar uma alma em movimento, e a determinação tenaz de defender a vida em um país dominado pela paralisia ética.
A segunda, Mãe Stella de Oxóssi, já tem a sua história contada pela cor da pele.Com a responsabilidade, muito cedo, de dirigir sua comunidade religiosa, impôs-se pela autoridade do olhar e a ternura dos gestos.Graduou-se em enfermagem, construiu escola dentro do terreiro, vem escrevendo livros de deliciosa literatura e palestrado a outras gentes sobre a essência de sua religião e a grandeza de um povo que transforma dor em beleza.
Mãe Stella é, hoje, o oráculo vivo da Bahia; o colo carinhoso e a voz que lidera; a expressão pessoal de até onde pode chegar o povo negro, pelos caminhos da educação e da fé.
Mãe Stella é, agora, Doutoura Honoris Causa pela Universidade do Estado da Bahia. Ou melhor: a Uneb torna-se ,agora, muito mais “Universidade da Bahia” ao conferir esse título a Mãe Stella.
E, por último, Dona Canô Velloso, que neste mês completou 102 anos de vida, lucidez e sabedoria.Mas essa já ocupa o supremo patamar das “entidades” e só me cabe dizer: a bênção, Dona Canô, a bênção, minha comadre!

Jorge Portugal
Tiete de Penha, “filho”de Stella e compadre de Canô.
E-mail> secretaria@jorgeportugal.com.br

jul 7

 

Na semana de morte do ídolo pop, assisti o filme sobre a vida e obra de Wilson Simonal. O aniversário de sua morte - 25 de junho - coincidiu tristemente com a morte de Michel Jackson e fez-me lembrar do aniversario de nascimento de João Cândido - 24 de junho. Um resgate necessário sobre as dúvidas em relação ao seu talento e sua vida pessoal. Simonal não era informante do DOPS, nem delator de colegas artistas. Era sim um bólido no mundo artístico que, como disse Mário Prata, acusado injustamente, não foi anistiado nem pela esquerda nem pela direita. Simonal recebeu uma espécie de anistia pelo governo Collor em 1991, 17 anos depois de ter sido acusado de envolvimento com órgãos de inteligência e de repressão.

Michael Jackson também morreu condenado e ridicularizado por muitos. Uma trajetória de brilho e queda. Sucesso de mídia, palco e venda; conseguiu chegar a extraordinária cifra de 750 milhões de discos vendidos;  insuperável. Sua vida tornou-se símbolo de desejo, renúncia e podridão. Foi acusado de pedofilia em 1993. Doze anos depois foi inocentado. Outros tantos admitiram que pudesse ser tudo verdade e a sua miséria veio rápida. Morreu com a pecha de que poderia ter feito tudo diferente.

O Almirante Negro, João Cândido, líder da Revolta da Chibata em 1910, foi internado em um hospital psiquiátrico como louco. Sua anistia só lhe foi concedida 97 anos após sua morte. Isso tudo após uma intensa luta para que os direitos pudessem ser reparados. O projeto de lei de autoria da Senadora Marina Silva é de 2002 e foi sancionado pelo Presidente Lula em 2008. Os anistiados da ditadura militar e seus familiares já recebem suas indenizações. Já os familiares de João não puderam receber tal recurso. O artigo que o garantia foi vetado.

Todos eles ícones em suas áreas e também pretos. Elaboraram textos e mensagens sobre sua condição de negros num período que muitos líderes ficaram calados. Michael reclamou em julho de 2002 contra as gravadoras que exploravam afro-americanos nos Estados Unidos, Simonal ensinou para o filho através da música Tributo a Martin Lhuter King: cada negro que for, mais um negro virá - Para lutar com sangue ou não - Com uma canção também se luta irmão, João Cândido manifestou-se junto a outros amotinados Nós, marinheiros, cidadãos brasileiros e republicanos, não podemos mais suportar a escravidão na Marinha brasileira“.

Não gosto dos textos que os tratam como coitados. São apenas símbolos paradoxais de seu tempo. Os três não se livraram da condição de serem olhados, desejados e repelidos como negros. Apesar de eles terem pensado em algum modo de não ser negros. Muitos choram arrependidos a covardia de nada terem feito quando deveriam fazê-lo. A inveja mórbida da alegria exorbitante do negro paira em nós como um simulacro de um mundo que condena o destino do outro pela cor de sua pele e origem. Mataram João, mataram Simonal, mataram Michael e o estigma continua com os nossos deuses e deusas morrendo para serem reconhecidos depois do tempo.

 

Sérgio São Bernardo

sergiosaobernardo.blogspot.com