jan 18

 

Fiz uma viagem de alguns dias ao pequeno país do Curuzu, Liberdade, apenas para que a vida me dissesse que ainda tenho muito a aprender.Lá, mergulhei em um mundo que nem supomos existir mais ou que continuamos a conhecer nos sonhos das teorias mais generosas.

No coração do Curuzu, fui  acolhido pela comunidade VodunZo, com todas as pompas de um Vaticano negro, pelo coração do Doté Amilton Costa, líder sócioespiritual do lugar.Confesso a vocês: não houve um só minuto, de todos em que estive lá, em que não me lembrasse – vivenciando – a frase magistral de Jorge Amado, ecoada em música por Caetano: “Quem é ateu e viu milagres como eu…”

No entra e sai de pessoas que visitam diariamente o VodunZo, e  ante a vista de alguém trabalhando, a frase mais ouvida é: “quéajudaaê? Quer ajuda aí?, em boníssimo baianês. Difícil pensar numa frase dessa, com tanta constância, em nosso mundo de individualismo e pressa.

Lá conheci também a fina flor de uma juventude negra e negro-mestiça, na faixa etária entre 18 e 24 anos ( a faixa do extermínio pela polícia e pelas drogas), que atravessa a vida confiante e garbosamente, apesar de tanto “não”, que têm que ouvir e viver.São jovens mestres de capoeira, mestres de percussão, ogãs orgulhosos dos seus Voduns, mas atentos ao mundo da informação e da tecnologia.A escola não foi boa;as condições de moradia não foram e nem são das melhores; os empregos, longe do ideal.Mas discutem com ardor cenas do filme “O Jardim das Folhas Sagradas, de Pola Ribeiro” e quase todos – raras exceções – ainda têm o sonho do ensino superior no horizonte.Muitos já conhecem vários países do mundo, como Bugalu, um “negro-fashion” de 1,87m e 120Kg, dono de um sorriso capaz de iluminar a Liberdade inteira. Esses garotos e garotas são as novas majestades de um lugar já celebrado pelo Ylê Aiê, mas representam hoje, no Curuzu, um novo caminho, um novo sentido e uma nova voz.

 Foram marcados para perder, mas deram a volta e estão fazendo valer o sonho e a vida.Eis o milagre: milagre do povo.

Jorge Portugal, educador e poeta.E-mail> secretaria@jorgeportugal.com.br

jan 3

 

Eu já tinha até escolhido outro tema sobre o qual escreveria nesta terça-feira.Entretanto, ao ler o excelente artigo de Nelson Pretto, no domingo, mudei inteiramente de ideia.Decidi por um texto-manifesto, uma espécie de convocação à cidadania, inspirado no movimento “Ocupe Wal Street” , de todos os de 2011, o que vai no âmago, no coração da coisa.

Portanto, eu lhes peço: Ocupem 2012 em apoio à luta – muitas vezes desigual – da ministra Eliana Calmon em prol da “correção de rumos” do judiciário brasileiro.Dos três poderes, o Judiciário é o único que ainda se mantém como um castelo medieval, e muitos dos seus membros se julgam portadores de um título de nobreza de um império que acabou em 1889.Não se pode questionar qualquer ato suspeito de certos magistrados, sob pena de o céu desabar sobre a cabeça de quem ousou fazê-lo.E o CNJ, coordenado pela ministra baiana, somos nós fiscalizando esse poder aristocrático.A ação da ministra Eliana Calmon – e os seus resultados – é um teste fundamental aos limites da democracia brasileira.Portanto, leiam, acompanhem, escrevam no Facebook, Twitter, comentem na  sala de aula, mesa de bar, mas não deixem a ministra sozinha nessa luta .

Ocupem 2012, também, em apoio aos 10% do PIB para a Educação.Agora que somos a sexta economia do planeta, vamos precisar mais radicalmente ainda de gente informada, instruída,qualificada para sustentar essa posição e outras acima.Mas a nossa escola não está dando conta.O nosso ensino básico é uma “bomba social”, e o professor brasileiro ganha sempre 40% menos que qualquer outro profissional  com o mesmo nível de formação.É hora do ensino público de qualidade.Sem ele, a sexta posição pode ir para a cesta em poucos anos.Sobre isso, leiam o meu texto “Carta a uma senhora que descansa em Inema”, no Terra Magazine ou no www.jorgeportugal.com.br  e entre nessa luta também.

Por fim –e  por hoje – ocupem 2012 por uma Salvador reabilitada, e vamos escolher mãos que não a maltratem, de alguém que esteja à altura de sua cultura, beleza e história.

Jorge Portugal- Educador e poeta. E-mail> secretaria@jorgeportugal.com.br

dez 30

 

Presidenta  querida, aqui lhe escreve um admirador de primeiríssima fila ( lembra-se da expressão na Pousada do Carmo por ocasião do Afro 21? A senhora me disse que adorou e até gostaria de usá-la) e que tem a remota esperança de que estas mal traçadas cheguem ao seu conhecimento.Mas o faço como os náufragos que jogavam garrafas ao mar.

Longe de mim perturbar seu sossego, afinal se existe paraíso de verdade, o Criador deve ter-se inspirado em Inema para fazer a praia de lá.Contudo, o assunto que me traz aqui é um desses impulsos insuportáveis que ficam perturbando nossa indignação até que a gente desabafe.

Li, hoje num desses jornalões sudestinos, que a irreprovável FGV, em pesquisa recente, chegou à conclusão de que um professor no Brasil ganha sempre 40% a menos que qualquer outro profissional com o mesmo nível de graduação.Ou seja, o profissional que é ponto de partida para todos os demais profissionais tem o seu salário quase sempre reduzido à metade do que ganham os outros.Escárnio? Ironia?Requinte de crueldade? Será que não está aí a chave de todos os nossos gargalos no campo do desenvolvimento social já que educação de qualidade é a única arquiteta e provedora do futuro?Não sou educateca (obrigado, Gaspari), não escrevo e nem falo pedagogês complicado, sou apenas um educador a cujo trabalho a Bahia( e parte do Brasil) assiste todos os dias e, ao que eu saiba, aprova.

Sei da sua paixão pela educação – aliás, a única presidente da nação que utilizou cadeia nacional de rádio e TV para saudar o início do ano letivo.Estou eufórico com o Pronatec, com a ampliação dos campi federais de ensino superior, adoro-a revelando seus livros prediletos e acompanhei – discreto mas extasiado – a senhora cantando todo o repertório de Gilberto Gil, conhecendo as letras de cor, naquela mesma Pousada do Carmo no Afro 21. “Essa é do ramo”, pensei comigo!

Por isso, retorno ao assunto: que recém-formado(a)  terá estímulo para abraçar uma profissão que, de cara, já o deixará economicamente inferiorizado ante as demais profissões? Num mundo cada vez mais regido pelo dinheiro, que estudante genial ( de Química, Matemática, Física, Inglês) , mas sem o ideal de nossa geração, sairá aos pulos da universidade para reger classe no ensino médio?

Vem aí um novo PNE e eu lhe peço encarecidamente: ponha a mão nisso.Chegue junto com autoridade e paixão e não deixe que a área econômica trate com descaso os 10% do PIB para educação.China e Índia não estão brincando.Não aceite brincadeiras também.Lembre-se de mestre Anísio Teixeira: “ O ensino público de qualidade é a única máquina de fazer democracia”.Com professores ganhando dignamente, essa máquina pode até voar.

Abraço baiano cordial

Jorge Portugal

dez 20

 

Voltando à “Capital Negra das Américas”. No último artigo, ao mencionar que os negros/afrodescendentes de Salvador só conseguem emplacar o “vice-prefeito da capital”, recebi e-mails entre indignados e irados.Os indignados dando-se conta de que “ é verdade, a gente nunca atenta para esse pequeno-grande detalhe”; os irados, assim ficaram justamente por eu ter lembrar esse fato e  “ por que Salvador teria a obrigação de ter um prefeito negro?”.

Aos segundos, respondo com um exemplo: depois de 500 anos de história , tendo no seu comando apenas representantes das elites nacionais, o Brasil resolveu eleger um presidente nordestino, ex-pau-de-arara, sem diploma de nível superior, monoglota, oriundo da classe operária.Esperava-se o desastre. Pois bem, foi esse homem quem , através de políticas públicas substantivas, retirou da linha da fome 40 milhões de brasileiros, mais 30 milhões da linha da pobreza, incluiu 800.000 estudantes pobres( negros e mestiços) no ensino superior e promoveu real valorização do salário mínimo.Sabe por quê? Pelo simples motivo de que ele não estudou “necessidades sociais” apenas nos livros, mas viveu todas elas na própria pele.

Assim também pode acontecer com uma cidade que tem 95% de sua população formada por negros e negro-mestiços.Se ela tiver um(a) pessoa com sua cara como seu(sua) prefeito(a), que já tenha vivido a barra do preconceito e da exclusão social, mas tenha dado a volta por cima pelos caminhos da superação e hoje se encontre em condições de dirigi-la, conhecendo profundamente o sentimento e as dores desse povo, claro que seria a perfeição dos encontros.

As peças da sucessão, no entanto, começam a ocupar o tabuleiro e são os partidos que fazem o jogo.Mas queremos entrar nele e, dessa vez, não a lateri.Exigimos lugar na centralidade do processo, porque qualquer política pública que se promova ou não incidirá sempre sobre a vida de 95% da população desta cidade, que somos nós.Afinal, na “Capital Negra das Américas”, o futuro tem quer ser negro também.Ou afrodescendente, vá lá.

 

dez 4

 

O menino Clementino adorava brigar.Saía de uma briga e já entrava em outra e parecia não querer descanso.Um dia, um velho sábio , vendo sua disposição para tanta briga, perguntou-lhe em puro baianês: Meu filho, você por acaso é algum riachão, que ninguém consegue atravessar?”

E assim Clementino virou Riachão, que atravessou nove décadas da vida, até aqui, sem deixar de brigar um só dia.Brigou com a inspiração, quando esta demorava a chegar, para compor mais um samba; brigou pela afirmação e sucesso de suas composições, brigou contra as adversidades da vida, que não foram poucas, mas sempre brigou com um sorriso nos lábios e a providencial prontidão dos sábios guerreiros.

Brigou muitas vezes sozinho, e muitas vezes ao lado dos seus irmãos de samba Batatinha, Edil Pacheco, Ederaldo Gentil, Walmir Lima, Panela e tantos outros nomes que fizeram da boa música baiana profissão de fé e terminaram escanteados ou esquecidos pelo jogo pesado de uma mídia movida pelo jabá e pelo mau-gosto.

Cronista de sua cidade e do seu tempo, a cada fato marcante que acontecia, Riachão nos dava a notícia em forma de um novo samba.Assim foi com “O umbigão da Baleia”, “A morte do Alfaiate” “Pitada de Tabaco”e tantos mais.

Foi também o seu talento poético que pintou com tintas musicais e precisão o cenário mítico desta cidade: “ Quem chega na Praça Cairu/Olha pra cima o que é que vê?/O Elevador Lacerda sempre a subir e a descer…/ É o retrato fiel da Bahia/baiana vendendo com alegria/coisinhas gostosas de dendê – acarajé!”

Quando Caetano e Gil voltaram do exílio imposto pela ditadura militar e decidiram fazer o primeiro show para um público brasileiro cheio de saudade, decidiram lançar um manifesto daquela nova fase de suas carreiras e vidas.Foram buscar em Riachão as palavras precisas para expressar o que eles queriam comunicar em alto e bom som: “Cada macaco no seu galho/xô, xuá/eu não me canso de falar, xô, xuá/meu galho é na Bahia, xô, xuá/ o seu é em outro lugar…”

Até o pop contemporâneo veio beber nas águas desse Riachão.O último grande sucesso de Cássia Eller é crônica de um Riachão em estado puro:” Ai, meu Deus/ai meu Deus o que é que há?/A nega lá em casa não quer trabalhar…/ Ela quer me ver bem mal/ vá morar com o diabo que é imortal…”

Imortal é você, Clementino.Malandro dos bons, capoeirista dos sons e das letras, expressão da Bahia na cor, na alegria e no canto.Valente, que atravessou todos aqueles que queriam atravessar o seu caminho, e chega aos 90 anos de absoluto sucesso, sem nunca ter deixado de ser o menino Clementino.

Hoje, 2 de Dezembro, dia do Samba, mais do que nunca e mais do que todos , parabéns, Malandro!

nov 21

 

Nesta semana tomei uma magnífica “overdose” da Ministra Eliana Calmon, Corregedora Nacional da Justiça.Primeiro, em palestra no Centro Harmonia, aqui em Salvador, e na segunda-feira, no programa Roda-Viva da TV Cultura.

Estar diante da Ministra e suas ideias ardorosamente defendidas é se ver diante de um processo de realização de velhas utopias.É ver coisas das quais já tínhamos perdido de vez as esperanças. Explico aos distraídos: dos três poderes constituídos – executivo, legislativo e judiciário – apenas o último permaneceu por séculos como uma fortaleza inatingível, um castelo monumental  inacessí vel ao comum dos mortais, ao qual nem era bom fazer referências prosaicas, que dirá questionadoras.O magistrado era ( e ainda é) no Brasil uma espécie de “aristocrata sem monarquia” , representante de um poder acima de qualquer suspeita e seus membros, não raro, colhidos na seara dos sobrenomes incomuns, como numa transmissão de herança divina.Inabordáveis.Intocáveis.Inacessíveis.

Os nossos intervalos democráticos nos permitiram toda sorte de questionamento e até alguma descompostura dirigida a membros do legislativo e executivo.Marchinhas carnavalescas foram feitas como caricaturas de Getúlio Vargas, Juscelino e outros poderosos da época; humoristas sempre deitaram e rolaram a partir de deslizes de autoridades e representantes do parlamento; recentemente, até o presidente Lula foi alvo de promessa de uma surra que seria dada por um senador e um deputado.Os programas de TV, estilo CQC, fazem grande bagaceira com a imagem pública dos congressistas que “pisam na bola”.Mas… um juiz, um desembargador, um membro do STF, quem era “louco”  de criticar publicamente ou tentar ridicularizar, mesmo se provada a culpa em “algum cartório”?É que esse poder sempre varreu o lixo para dentro, num espetáculo estarrecedor de corporativismo, e ainda dirigindo ao membro criminoso punições com a leveza de um algodão doce.

Até que a Ministra Eliana Calmon chegou à Corregedoria do Conselho Nacional de Justiça! Filha legítima de Iansã com Xangô ( isso vale para os iniciados em afro-baianidades), não só não se calou diante de um mar de falcatruas que encontrou, como deu celeridade aos processos de investigação e ainda cunhou a expressão “bandidos de toga” para definir magistrados que adentram por caminhos que deveriam condenar.Foi a senha que um Brasil amedrontado, injustiçado, apequenado ante um poder descomunal estava esperando.

Apoio de todos os lados do país, aplausos patrióticos da cidadania, agradecimentos de todos os brasileiros que se sentiram vocalizados por ela.Naturalmente que houve restrições – veladas ou desabridas – dos que dormiam ( e até roncavam) no berço esplêndido dos seculares privilégios – apelidados de “prerrogativas”.

A luta da Ministra Eliana Calmon começa a abrir uma caixa-preta inaceitável em tempos de verdadeira democracia.E aí está um dos seus méritos principais: testar os limites dessa democracia e nos revelar se ela, a democracia, é mesmo verdadeira.Ou não.

nov 5

 

Há dias, caiu o ministro Orlando Silva, dos Esportes e do PC do B. Antes, cinco ministros outros haviam caído, sob a mesma alegação.E outros mais ainda cairão, se a mídia investigativa quiser e a presidente Dilma aceitar a dança.Não importa o partido, a trajetória, a legitimidade popular, nada.E se a imprensa desejar, com fôlego redobrado, e “atitude cívica” contumaz, caem todos do congresso, cassados, e grande parte do judiciário também.

Muito simples: o sistema eleitoral brasileiro é a origem de toda a corrupção e contamina, com seu dedo podre, todos aqueles que se aventurem por essa atividade da vida nacional.

A Constituição de 1988, criando esse nosso presidencialismo mitigado, em que o presidente não tem força definidora e o parlamento manda muito, praticamente “forçou a barra” de um novo caminho para as eleições, a obrigação irrecusável de constituírem-se maiorias que garantam a “governabilidade” do esquema política da vez.E isso passou a custar dinheiro. Muito dinheiro!

Não que antes uma graninha não rolasse no processo. Para imprimir os “santinhos”, colocar o combustível nas Kombis que iam “caçar” eleitor no dia da votação, pagar uns caraminguás ao cabo eleitoral que garantiu os votos da família e dos amigos, enfim o varejo das campanhas dentro de um sistema capitalista que nada faz sem dinheiro.

De uns 25 anos pra cá, no entanto, a coisa mudou de tom e de valor.Numa eleição para deputado federal, o candidato precisa de fazer várias “dobradinhas” com candidatos às assembléias legislativas que, por sua vez, não raro, se apoiam em prefeitos, que mantêm conexões básicas com vereadores, que precisam sempre “agradar” seus eleitores.Estes, por acharem que “político é ladrão” e tendo aí a oportunidade de “tirar algum” do larápio graúdo, vende seu voto  de acordo com sua importância: liderança de bairro, cabo eleitoral da cidade, chefe de família grande, etc.É muito dinheiro girando.E é assim para todos os cargos.

E aí entram os financiadores, com destaque para as grandes empreiteiras.De olho nos grandes negócios a serem feitos com o governo federal, aproximam-se dos candidatos e/ou partidos e abrem, generosamente, os cofres para “ajudar” as campanhas, pedindo em troca, apenas, a alma e o voto.Partidos ou candidatos menos contemplados pelo grande dinheiro dessas empresas, uma vez com a mão num naco de poder, inventam ONGs amigas pelas quais drenar a grana alimentadora da próxima campanha.Um dia, os “varões de Plutarco” da Veja ou da Folha descobrem um esquema e a casa do pobre coitado cai.Escândalo nacional!Políticos corruptos!Indignação nas ruas e na tela da TV.Passado o clamor, chega o momento do judiciário e os tais “bandidos de toga”, segundo a corregedora Eliana Calmon, levarem o seu.Proscrastinar e até anular o processo de um corrupto endinheirado custa caríssimo!

O Brasil virou refém desse esquema e poucos têm interesse em mudá-lo.Quem aí que me lê toparia lutar por um sistema eleitoral que banisse o dinheiro privado das eleições? Se não começar por aí, é cinismo e hipocrisia de quem nada quer mudar.

out 25

 

Prometi a mim mesmo que sublimaria o assunto UFRB em Santo Amaro.Depois da perda do campus para Amargosa, aos 45 minutos do segundo tempo, e seguidas reuniões inócuas, encontros infrutíferos, sinais emitidos e posteriormente frustrados, recolhi as armas e sentei-me no banco de reservas.

Lendo recentemente o artigo do Prof. E Poeta Nelson Elias, no relançado jornal A Defesa, e em conversas com o Dr. Itagildo Mesquita, não pude conter o ímpeto de voltar ao tema, com indignação redobrada.

Aos desmemoriados: entrei nessa luta no primeiríssimo minuto, ao lado do então Reitor Naomar Almeida, da UFBa, e do Prof. Paulo Gabriel Nacif, principal líder da campanha.Firmei com eles um pacto não escrito de incluir Santo Amaro no primeiro bloco de cidades que seriam sedes da nova universidade federal, e dei um bom motivo: na Ata de Vereação de 1822, considerada o “primeiro grito de independência do Brasil”, Santo Amaro já pedia a instalação de uma universidade em território nacional.Tínhamos, portanto, direito histórico.Além disso, ainda no comando do Aprovado!,coloquei o nosso programa na linha de frente das mobilizações e eu próprio estive em várias cidades, em defesa da causa baiana. Ouvi do hoje reitor Paulo Gabriel agradecimentos entusiasmados pela força e impulso que nossa participação tinha dado às audiências públicas.Resultado: a UFRB não foi pra Santo Amaro.Na undécima hora, a Amargosa do ex-governador Waldir Pires desbancou nossa cidade.

Recentemente, recebemos a notícia da instalação de um campus da Universidade do Recôncavo em Feira de Santana, cujo epíteto é, justamente, “Princesa do …Sertão!”.Pensei: deram um “cavalo-de-pau” na geografia!Nada contra a força política dos representantes de Feira –Dep. Zé Neto à frente – mas a “Leal e Benemérita”  do Recôncavo aguarda nessa fila há 189 anos.

Pelo artigo de Nelson Elias, prometem-nos um campus de Tecnologias Aplicadas à Produção Cultural.Ajudantes de palco, fiscais de camarim, etc.Isso na terra de Caetano Veloso, Maria Bethânia, Assis Valente, Roberto Mendes…

Jorge Portugal – Educador e Poeta – E-mail> secretaria@jorgeportugal.com.br

set 27

 

Sem conversa fiada.Os números gritam aos olhos: um estudante do terceiro ano do ensino médio da rede pública custa ao Brasil cerca de R$ 2.300,00 reais por ano; um aluno do terceiro ano do Colégio São Bento, do RJ, mais uma vez campeão do ENEM, paga mensalidade no valor de R$ 2.140,00 reais.Das vinte escolas que mais pontuaram na prova de 2010, só duas são públicas, ainda assim uma Escola Técnica e o Colégio de Aplicação da Universidade de Viçosa.De resto, mais de 70% das escolas estaduais mal conseguiram atingir a média de pontos.

Você pode pensar: “mas é um grande abismo escolar!”.E eu complemento:um grande abismo social.A educação que é, por excelência, o claro caminho da inclusão, dessa forma se torna poderosa arma de excluir.E o pior é que os resultados positivos dessa área só costumam aparecer uma geração depois.Certo, certo, já temos, desde Lula, um incrementado Prouni, as políticas de cotas, um número considerável de novas universidades federais e escolas profissionalizantes, mas ainda continuamos a perder metade dos jovens na passagem do fundamental para o médio.Conta de milhões.Acrescente a isso os que ficam “barrados no baile” do ensino superior e apenas engordam as estatísticas negativas do Enem e de outros vestibulares de ponta.

Os números lá de cima querem nos dizer uma coisa muito simples: havendo dinheiro e boa gestão( regra no colégio particular), o professor ganha bem e não falta às aulas, as salas são equipadas com a mais avançada tecnologia, não raro a permanência em sala é bem maior que as quatro horas – e olhe lá! – da rede pública e, mesmo com esse currículo estúpido e inflacionado do segundo grau, quase todo ele é cumprido e bem explicado.

Sem papo furado: a meninada começou a botar o bloco na rua – ainda timidamente – pela mais justa causa da sociedade brasileira: 10% do PIB para educação e 50% do lucro do pré-sal também.E enquanto as ruas não forem  tomadas por essa paixão, estamos proibidos de mudar de assunto.E de falarmos também em democracia.

Jorge Portugal – educador e comunicador. E-mail> secretaria@jorgeportugal.com.br

set 13

 

Estreou, há alguns dias na TV Educativa, um novo formato de programa educativo que experimento na tela da TV.Denominado “É BOM SABER”, patrocinado pela SEC,  tem o objetivo concentrado de levar informações atualizadas a estudantes – sobretudo da rede pública – que farão a prova do ENEM e demais vestibulares da Bahia.É uma ação complementar à sala de aula tradicional, mas trazendo a informação em velocidade tal que a escola clássica ainda não demonstrou condições de o fazer.Chamo a isso “articulação do bem”, em que televisão e internet expandem o conhecimento e encontram o aluno onde quer que ele esteja, à hora em que lhe for mais conveniente.Formato simples: trinta minutos de programa, com os dois principais quadros baseados em claras e ótimas explicações dadas por um professor “craque” em explicar.O “prato de resistência” é a INTERAULA que traz sempre um assunto de relevância da nossa contemporaneidade, abordado por dois ou três professores – ao mesmo tempo na tela – a partir da compreensão de sua área de estudos.Ex: se o tema é Aquecimento Global, teremos um professor de Geografia, outro de Física e ainda outro de Biologia debatendo e enriquecendo o assunto.Essa é a “pegada” da prova do ENEM e vestibulares avançados, e é isso que estamos dando a esses alunos.Isso e muito mais.

Além do mais, agregamos ao programa de TV, um portal de estudos,o WWW.tosabendomais.com.b , que abriga todos os conteúdos veiculados na TV e é fonte permanente de informação para quem quiser aprofundar o que viu na telinha.Esse site foi lançado há dois anos como complemento do programa Tô Sabendo, da TV Brasil e, mesmo tendo por âncora uma TV pública – e não uma comercial com audiência nas alturas – já chegou, até o momento a 1milhão de visitas, com tempo médio de 8 minutos, marca altíssima para permanência em um site de educação.

Estão vendo que dá certo? Os meios de comunicação devem muito à cidadania.Quem entope nossas cabeças com um volume descomunal de lixo do entretenimento tem a obrigação de nos abrir boas janelas ao conhecimento, criando uma forma sedutora e dinâmica de estudar.

Jorge Portugal- educador e apresentador de TV. E-mail>secretaria@jorgeportugal.com.br

 

set 9

 

Demorou! A melhor notícia que recebi na semana passada foi a manifestação de estudantes brasileiros em defesa da qualidade do ensino nacional.Já estava achando esquisito a moçada do Chile “mandando ver” nas ruas há várias semanas, e o pessoal daqui… nada!E olhe que no comparativo dos dois sistemas de educação, sempre nos chegaram notícias de que o Chile era praticamente um paraíso nessa área.E eu daqui pensando: “puxa, se o Chile é um paraíso e se movimenta, o Brasil, que está pra lá de inferno, nem pia”.

Os estudantes que foram às ruas em Brasília pedem basicamente duas coisas: que se aumente o percentual do PIB, em 10%, para a educação e que se destinem 50% da renda do Pré-Sal para promover e incrementar políticas públicas que melhorem nosso ensino.Boa e justa pauta! Mas se eu tivesse voz amplificada sugeriria a eles que aproveitassem o embalo  e incluíssem algumas “velhas reivindicações” que temos martelado aqui do nosso espaço, muitas propostas pelo grande educador Cristóvam Buarque: 1)que fosse criada e aplicada responsabilidade penal aos gestores que ainda se negam a pagar o piso nacional aos professores;2)excluída essa possibilidade, que fosse então federalizado o ensino público brasileiro, passando os trabalhadores em educação a serem tratados da mesma forma que funcionários do Banco do Brasil, da Caixa Econômica e da Petrobras;3)que fosse aprovada , pelo congresso, a “bomba do bem”, que determinaria a qualquer detentor de cargo público – do vereador ao presidente – a matricular seus filhos na rede pública de ensino.

Quem sabe se, pedindo tudo isso, os estudantes não consigam levar, pelo menos, os 10% do PIB e os 50% do Pré-Sal? A situação é clássica: todo partido de esquerda que chaga ao poder pelo voto, tende a  fazer um leve(ou acentuado) movimento à direita.Sobretudo quando precisa aliar-se a um elenco de partidos que até ontem apoiavam a ditadura.A possibilidade de vender um quarto da alma em nome da governabilidade é altíssima.Daí então, os movimentos sociais(que sabem onde o calo dói) não podem relaxar um minuto.Se não se movem nas ruas, o governo não se move no poder.Por isso, precisamos voltar a gritar –e bem alto – nos ouvidos do Congresso e da Presidente Dilma .A UNE não pode ser uma secção do Planalto.Nem os sindicatos.Nem o MST.Movimento social é pra fazer governo avançar!

Já que voltaram às ruas, espero que os estudantes “tomem gosto” e continuem por lá.E a sociedade venha atrás.Afinal, ensino público de qualidade é a única bandeira que ainda tem cheiro de revolução, nessa quadra histórica sem utopias.Como a juventude está fazendo no Chile, temos muito mais motivos para não voltarmos a casa tão cedo.

ago 30

 

Luz, câmera, atenção!Em breve estreia nos cinemas do Brasil o filme “O Jardim das Folhas Sagradas”, do cineasta baiano Pola Ribeiro.Não se trata de acontecimento trivial e explico:há muito tempo que as grandes produções do cinema nacional se apoiam em duas fórmulas de sucesso: o “favela movie”( Cidade de Deus,Carandiru, etc) e as comédias românticas da Globo Filmes que, pela máquina de promoção de que dispõem, “entopem” com facilidade as salas do país.De vez em quando, pula daqui ou dali um “Estômago”.E o resto, o grande resto fica por conta dos blockbusters norte-americanos , que servem de pretexto para o consumo de sacões de pipoca e espetáculos de deseducação de plateias boçais nas salas escuras.

Assim como Glauber Rocha(que falta esse agitador cultural  faz!)nos apresentou , em 1964, um Brasil que vivia  escanteado, com todos os ingredientes do nosso inconsciente cultural, escancarando uma realidade latente com poesia cinematográfica incomum, Pola Ribeiro, em 2011, nos conta o universo da cultura afro-baiana na expressão do Candomblé e sua tensão dialética entre a tradição e a modernidade.É obra de ficção com enredo, personagens, cenários, uma história apaixonante que prende nosso olhar da primeira à última cena.

Como assinalei em artigo para o Terra Magazine, se Pola tivesse apenas aberto a câmera na direção dos rituais e sua plasticidade estonteante, já estaria fazendo “cinema transcendental”.Mas optou pela narrativa e pelo desempenho de um elenco fabuloso que tem em Gody, Arildo Deda,João Miguel, Ray Alves, Mariene de Castro, boa parte do Bando de Teatro Olodum “cavalos” de uma interpretação magistral.

Um aviso e um grande pedido: se você acha que o “Jardim” faz mero proselitismo religioso, pode desarmar seu preconceito. Seja qual for seu credo,  tenha certeza de que você estará diante de uma obra de arte da maior relevância e beleza.Algo que nos engrandece e nos permite uma emoção estética de alto teor.Filme que você vai ver e não esquecer jamais.

Jorge Portugal – educador e comunicador .   E-mail> secretaria@jorgeportugal.com.br

ago 27

 

Vem da deputada Luiza Maia, do PT-BA uma proposta que vai acender polêmica sem fim: sugere ao governo da Bahia que não contrate grupos de pagode cujas músicas desrespeitem a figura feminina, que atentem contra a dignidade da mulher.Para os que não conhecem bem a história, aqui na Bahia há um sub-produto da Axé Music – grupos de pagode – que invariavelmente trazem nos refrões de suas músicas(?) “carinhosos elogios” à figura feminina como “ cachorra”, “periguete”, “problemática”….

Alguns “arautos da livre expressão” já colocam a boca no trombone de vara alegando a instituição da censura, que as bandas de pagode têm todo o direito de cantarem o que quiserem, que vivemos numa democracia, etc, .

Feministas  apoiam o projeto argumentando que tais músicas ferem direitos humanos, entre os quais o respeito ao semelhante, e essa desconstrução da imagem da mulher - prática contínua dessas bandas baianas - é violência verbal que pode muito bem levar à violência física.

Convido vocês a uma análise de fundo: qual é o perfil daqueles que formam um grupo de pagode? Jovens negro-mestiços, entre 18 e 30 anos, nascidos e criados em alguma periferia de Salvador, onde o braço do estado pouco ou quase nunca chegou, sem acesso, portanto, a qualquer repertório cultural  de melhor nível, e que “monta” sua composição geralmente a partir de um refrão que condensa todo tipo de preconceito em relação ao “outro” que ele considera mais frágil e menos poderoso: a mulher, o travesti, o gay.

Do outro lado, um grande público em tudo semelhante aos “artistas”, imerso na mesmíssima indigência intelectual, quer apenas balançar o esqueleto com um ritmo eletrizante que inspira coreografias sexuais excitantes.No meio dos “artistas” e do público, o empresário esperto e um programador de rádio mais esperto ainda, que vai executar 15 vezes por dia esse “trabalho”, transformando-o em retumbante sucesso e faturando imensa fatia do Carnaval-São João-Carnaval em que se tornou o calendário baiano.Em suma, a falta de informação, educação, ética humana e inteligência musical tornaram-se a principal mercadoria da “cultura baiana” atual.Grosseria que gera muito dinheiro!

Acho que o projeto da deputada Luiza Maia vai encontrar resistência até dos seus pares na Assembleia Legislativa.Brandindo o argumento da “livre expressão”, jamais confessarão o medo que têm de perder os votos da pagoderia.Por outro lado, grande contingente de mulheres que se sentem agredidas por essas bandas, não demonstraram,ainda, a mínima vontade de ocupar as redes sociais e as ruas, em protesto, contra essas aberrações musicais.

Uma proposta à proposta: por que não sugerir ao Governo do Estado, prefeituras municipais e estatais que não contratem tais bandas simplesmente…porque elas não precisam do dinheiro público?Já estão muito bem colocadas no mercado, faturando horrores com sua grande massa de consumidores.Que se virem com o patrocínio privado.E aí, mulheres, hora da ação: denunciar e boicotar produtos de empresas que se associam a essa baixaria musical.

ago 19

 

Nesta primeira quadra do século 21, marcada por fanatismos e medo, onde estão fincadas bandeiras de correntes deploráveis como Liga Norte italiana,Tea Party norte-americano, fundamentalismos religiosos e étnicos, corrupção desenfreada , usuras sem fim, protagonismo irracional do mercado e do consumo, só mesmo a Arte pode dar conta de um pedaço de sossego para as angústias humanas.

No meu caso, tenho tomado, ultimamente, doses cavalares de Arte da melhor fonte, pois quanto maior o veneno, maior também o remédio.Tenho sobrevivido às custas do novo cd de Chico Buarque, que sempre sabe o endereço das belas melodias para casá-las com as metáforas que arrebatam sentidos e imaginação.O velho e bom Chico, que não precisa fazer concessões a vagas modernosas, nem ao fel do pior que infesta a programação da maioria das rádios brasileiras.Ouvir novas canções como” Nina”, “Querido Diário”, “Se eu soubesse”, “Sou eu” e a já antológica “Sinhá” anestesia a gente contra a aridez do momento.

Tenho também tomado overdoses de Zé Miguel Wisnik.Chegado pelo genial” Indivisível” – duplo cd ligado por um ímã – o mestre da Literatura e multiartista da MPB dá conta precisa de me livrar do tédio musical em que a burrice cotidiana insiste em nos sufocar.Uma obra que premia a beleza da canção e a excelência da poesia.Nenhum truque, nenhuma peripécia.Wisnik cantando “ Serenata” , “Cacilda!”, “Tenho dó das estrelas” é momento sublime demais que nos leva pra bem longe das pautas dos jornais e das portas do inferno.

Protegido pelo repertório desses santos artistas, ousei atravessar a cidade num sábado à noite,enfrentando a direção temerária dos volantes da classe média e fui ver a montagem de “Sargento Getúlio”,no CineCenaUniJorge, já carinhosamente chamado “Cine Ricardo”.Recebi uma mega-dose de direção magistral de Gil Vicente Tavares e uma atuação de Carlos Betão simplesmente de tirar o fôlego.Arte maior, com a assinatura da Bahia e o poder de neutralizar pagodes, sertanejos e outros torturadores da alma.

O Jardim das Folhas Sagradas fica para outro artigo.

 

                        Jorge Portugal>Educador e Poeta.E-mail>secretaria@jorgeportugal.com.br

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