ago 31

 

Quando o tema é educação e o défict educacional do país, principalmente no tocante ao ensino médio, não tenha dúvida: os meios de comunicação ainda não fizeram um terço do tanto que podem nessa área.   A  sub-utilização de TV, rádio e Internet é algo tão absurdo que chega à condição de crime de lesa-juventude.

 

O que nos fazem crer é que os pensadores e fazedores da educação tristemente ignoram que o mundo chega hoje à moçada através da tela da TV e do computador. Que a sala de aula é importante, fundamental, porém deve estar cada vez mais conectada a esses “mass-mídia”, por sua vez  elevados à condição de salas de aula complementares.

 

Dou dois exemplos aqui da Bahia e sem precisar sair de casa.

 

Há nove anos propusemos à grade de programação da Rede Bahia, o Aprovado! Seria um programa de TV,  uma espécie de revista de educação e cultura, com linguagem clara e ritmo ágil,  que costurasse assuntos de interesse do pré-vestibulando, informações sobre profissões e mercado de trabalho, dicas de matérias dadas pelos melhores professores dos cursinhos baianos e, de quebra, um convidado musical que pontuasse com suas canções toda essa conversa informativa e agradável.  Não deu outra: os pessimistas que vaticinaram o fracasso imediato do projeto tiveram que engolir a longa vida do programa e sua impressionante pontuação no Ibope.  Estamos falando de uma “sala de aula complementar” com quase dois milhões de alunos-espectadores espalhados por todo o território baiano.  Pois bem, mesmo tendo como convidados expoentes do pensamento e da pesquisa baianos, figuras de renome nacional no campo da cultura, temas de alta relevância do saber contemporâneo, o Aprovado! jamais foi citado como fonte de alguma questão de vestibular, ou utilizado com alguma regularidade como conteúdo de reforço para estudantes do ensino médio.  Um verdadeiro desperdício!

 

Um dia, ministrando aula em um colégio da  elite baiana, uma estudante me interrompeu e fez-me uma pergunta entre a indignação e a esperança:

 

- “Portuga, por que as nossas aulas daqui não são iguais às do Aprovado? Aqui a gente fica olhando toda hora para o relógio e lá a gente nem sente quando o tempo passa”. É sinal de que algo “ali” está dizendo alguma coisa a eles.

 

Recentemente lancei um site de educação na internet:www.redeeduca.com.br.  Em apenas duas semanas já temos cerca de 50.000 visitas de todo o Brasil e boa parte do mundo, e contamos com 18.000(dezoito mil) estudantes que regularmente entram nesse portal e ficam pesquisando em um tempo médio de duas horas, todos os dias.  Mas lá temos aulas em vídeo postadas na web TV, conteúdo escrito sobre as atualidades de todas as áreas,  aulas em áudio, o Quiz Educa( teste de avaliação instantâneo) e outros atrativos para essa turma que já nasceu “olhando um computador”.

 

 

Como se vê, pode custar muito pouco ligar o mundo das pessoas ao mundo do saber. Basta fazer com engenho e arte.  Volto ao tema em breve.

 

ago 31

 

Maria da Penha, Maria  que  empenha  sua  vida  para  libertar  e  libertar-se.

Maria  que  carrega  em  si  o  sangue  e  a  história  de  outras  Marias, mesmo  que  Maria  não  se  chamem.

Maria Quitéria, Maria Felipa, Luiza Mahin, Olga Benário, Ana Montenegro, Joana Angélica, Mãe Menininha, todas  que  tiveram  força  para dizer  NÃO  quando  o mundo  as  obrigava  a  dizer  sim.

Maria da Penha, a que fez seu sofrimento virar lei.  Pela coragem, pela persistência, pela crença na luta sem tréguas,  pela  força  da  condição  feminina  elevada  ao  altar  da  condição  humana.

Marias pagavam caro no mundo dos Josés, dos Joões, dos Joaquins.  O sexo frágil, a dor calada, a espera resignada.

O pai,  o irmão,  o marido:  a máscula  sucessão  da  força  que  manda,  que  provê, que  impõe.

Maria da Penha  sentiu no corpo essa força, mas buscou mais força dentro de si e tornou-se  forte frente a tudo isso.

Maria da Penha, pessoa e símbolo. Referência  que se faz  farol em um momento de turbulências e  sombras.

No dia 09 de Setembro, Maria da Penha estará conosco, aqui em Salvador, e falará com a voz de todas as mulheres.

Vamos  aplaudi-la.   De  pé.  Como  se  devem  aplaudir  os  que  dão  a  vida  para  a vida  não  perder.

 

 

 

 

ago 7

 

Era de se esperar o chilique de certa elite brasileira quando do lançamento do Vale-Cultura. Através de editoriais raivosos, bem no estilo udenista, os dois “jornalões” de São Paulo desancaram o projeto com expressões exaltadas que beiravam o xingamento: “projeto eleitoreiro”, “vale-tudo”, “bolsa-circo” e por aí foram.

 

Como conhecemos muito bem o sub-texto desses parágrafos solertes – a não-aceitação do sucesso de um operário nordestino, sem diploma universitário na presidência – entendemos perfeitamente o papel dessa turma e o roteiro a ser seguido. É apenas uma variação de outros textos que vociferam contra o “Bolsa-família”, o Prouni, e as políticas de ações afirmativas.


Dessa vez os argumentos, combinados, apontavam para o fato de que o valor do Vale-Cultura poderá ser usado para o consumo de espetáculos de “baixo teor educativo”, ou para comprar livro de autoajuda, ou ainda cd’s e dvd’s de artistas populares. Temem que os nossos operários se recusem a freqüentar apresentações de orquestras sinfônicas ou não gastem os cinqüenta mangos comprando um livro de James Joice.

 

Eu também, como educador idealista incorrigível, adoraria que os milhões de trabalhadores brasileiros já saíssem com o vale na mão, correndo para assistir a uma peça de Vianinha ou a um filme de Gláuber. Mas, é bom lembrar, que essa porcariada toda que abastece o repertório do povão é alimentada por essa mesma mídia que dedica páginas e horários nobres ao culto das celebridades e à comunicação do grotesco.

 

Agora pergunto: qual é a tragédia que há no fato de que uma pessoa que jamais leu livro algum compre um título de autoajuda para iniciar seu caminho de leitor? Se a leitura de o “Alquimista” levá-lo, mais tarde, às paginas do “Alienista”, já está valendo o Vale-Cultura.

 

Depois, esses argumentos se parecem muito com aqueles que há cinco anos condenavam a política de cotas, alegando que a entrada de alunos pobres (e negros) por esse sistema iria rebaixar o nível da universidade. Revelou-se justamente o contrário!

 

Óbvio que articular o novo currículo do ensino médio, que já reclama um bom repertório cultural por parte da moçada, com esse “adicional” para o consumo de cultura no bolso dos pais, pode, sim, criar o melhor dos mundos. Mas esse é um processo que começa a começar exatamente aqui, neste Brasil de Lula, Juca e Hadad.

 

Agora, a esses “torcedores do pior” e demófobos em tempo integral, deixo a resposta lúcida do paulista Vítor Maximo, enviada ao “painel do leitor” da Folha de São Paulo:

“Não sei se essa iniciativa do governo irá funcionar, mas é bom lembrar que milhões de brasileiros nunca foram a um cinema, que dirá ao teatro. Quanto às possíveis escolhas do público contemplado com o vale por “espetáculos comerciais”, devo dizer que só fui conhecer Fellini depois de Mazzaropi e Jerry Lewis.

Podiam dormir sem essa, não é?

jul 21

 

Na década de setenta, com o mundo inteiramente em preto-e-branco, tínhamos que escolher um lado. Os que queríamos mudar o mundo, fazer a revolução socialista e implantar uma sociedade mais justa e igualitária não deveríamos, de preferência, dar bom-dia à turma conservadora ou reformista ou até mesmo aos suspeitos que preferiam o silêncio cauteloso à comprometedora e perigosa exposição de suas opiniões. ”Prepare o seu coração pras coisas que eu vou contar…”; “podem me prender, podem me bater que eu não mudo de opinião”; ou, culminância das culminâncias, “vem vamos embora que esperar não é saber”. No coração da esquerda enfezada não havia lugar para “eu te darei o céu, meu bem e o meu amor também”.

 

Por isso, passei boa parte de minha juventude execrando Roberto Carlos. Para mim (para nós), se ele não era propriamente um agente da ditadura, a ela servia com suas baladas românticas, cantigas de ninar um povo alienado, entorpecido ante o clamor da revolução. Lembro-me muito bem dos meus bate-bocas com um colega de ginásio em Santo Amaro, Heron Magalhães, que amava “as canções que você fez pra mim”, ao que eu contrapunha “o quintal de minha casa não se varre com vassoura…”.

 

Não preciso dizer da crise de identidade que vivi quando, em 1971, ele “estourou” “Debaixo dos caracóis dos seus cabelos” dedicada a Caetano Veloso. Não podia! Caetano era um dos nossos, da vanguarda musical revolucionária e não ficava bem ser alvo de homenagens do rei da juventude alienada.

 

Anos (e homens) duros. Duríssimos anos (e homens).

Todo esse filme me veio à mente, sem cortes, enquanto eu assistia ao show comemorativo de 50 anos de carreira do Rei, no último 11 de Julho.

 

Em meio ao reencontro com aquele garoto enrijecido que parecia rir de mim lá do túnel do tempo, me surpreendi cantando, sem vacilar ou esquecer, todas as canções que Roberto desfolhava do seu repertório clássico. Então me dei conta de que, hoje, aos 50 e poucos, certamente já não me lembro da metade do repertório de Vandré, Caetano ou Edu, mas me recordo inteiramente de tudo, tudo mesmo que Roberto cantou.

 

Acho que não só eu. Posso garantir que o mesmo sentimento vibrava em milhões de brasileiros.

Os outros, da chamada “ala emepebista”, compuseram o repertório da nossa fé racionalista, da nossa leitura intelectual do mundo e muito nos ajudaram em um momento de longo silêncio e ranger de dentes.

 

Mas Roberto falava à nossa emoção, sem sofisticação ou filtros. Acariciou, o tempo todo, nossas alegrias e dores de amores. Foi o mestre maior de nossa educação sentimental. Foi fundo. Foi no mais fundo de cada um de nós. E por isso ficou.

 

Creio que daqui a dez mil anos, quando um ET de outro planeta qualquer vier visitar este planeta extinto pela estupidez humana, e se pousar em algum lugar onde existiu um país chamado Brasil, poderá surpreender-se ao ouvir uma belíssima melodia soprada pela voz do vento: “eu tenho tanto pra lhe falar, mas com palavras não sei dizer como é grande o meu amor por você”. Obrigado, Roberto.

 

 

 

 

 

 

jul 9

 

No dia 20 de Junho estava eu em Milão, na Itália, para receber o prêmio Ágape, em reconhecimento, pelos italianos, dos projetos sócio-educativos que desenvolvo ou estimulo aqui na Bahia. Foi uma bonita cerimônia, transmitida para o mundo inteiro pela RAI, ocorrida no Castelo San Gaudenzio, uma fortaleza medieval que nos faz entrar no túnel do tempo e voltar aos idos de 1340, ano de sua fundação.

No dia 22, após o evento de premiação, fiz o indispensável roteiro de conhecer Veneza – cidade-sonho ou sonho de cidade? – e seguir para Roma. Em  Roma deu-se um encontro esperado a vida inteira. Ou melhor: um reencontro.

A verdade é que, os que amamos estudar história, temos por toda a existência, o imaginário povoado por fatos, personagens, idéias e lugares da cidade eterna. As aulas sobre a “era clássica”, de Édio Souza e Hélio Rocha, voltam como um filme a que a gente estivesse assistindo na condição de participante. O esplendor da Capela Sistina, com o gênio de Michelangelo obrigando a 500 pessoas de mundos diferentes a olharem para o teto em êxtase coletivo, a monumentalidade do Vaticano e sua Basílica de São Pedro (que deixaria Francisco de Assis estarrecido!), as ruínas do Senado, do Fórum, a Coluna Trajana, o Panteão, enfim, uma cidade-museu a céu aberto para o encanto dos olhos e da memória.

Além dessa Roma histórica, dos etruscos, do império e do renascimento, ainda nos brinda a Roma de Fellini, com a Fontana de Trevi num inesquecível azul a nos estimular a visão dos deuses de uma Anita Egberg- poesia e mulher- alucinando desejos e inspirações de uma “dolce vita”.

Durante todo o tempo na Itália não deixava de me perseguir a frase-chave de Eduardo Galeano na abertura do indispensável “As veias abertas de América Latina” para equacionar as indecentes desigualdades entre povos e nações: “na divisão internacional do trabalho, alguns países se especializaram em ganhar e outros, em perder”. Bem que eu queria estar com a cabeça livre, em férias, tendo os olhos apenas para o deslumbramento e o espírito crítico deixado na gaveta. Mas a frase me martelava o tempo todo, me fazendo voltar sempre ao Brasil, à Bahia, naquela encruzilhada de contrastes que eu percebia e vivenciava.

Óbvio que Roma foi a capital do maior império da história, concentrou no seu território mais riquezas culturais que qualquer outro lugar do mundo e, por isso, tornou-se uma cidade-livro-filme pela qual as pessoas pagam caro para ler-ver-viver. Os italianos são enlouquecidamente apaixonados pela sua história e cultura e já se põem em armas à mais leve insinuação de que exista algum lugar mais importante no planeta.

Voltei para a Bahia com a convicção mais arraigada ainda de que lutar para que as pessoas conheçam a sua história, a sua cultura e façam disso armas da cidadania é o que pode justificar minha passagem por esse planeta e dar certo sentido a minha vida. Por isso eu fui à Itália.
 

 

 

 

jul 7

 

Na semana de morte do ídolo pop, assisti o filme sobre a vida e obra de Wilson Simonal. O aniversário de sua morte - 25 de junho - coincidiu tristemente com a morte de Michel Jackson e fez-me lembrar do aniversario de nascimento de João Cândido - 24 de junho. Um resgate necessário sobre as dúvidas em relação ao seu talento e sua vida pessoal. Simonal não era informante do DOPS, nem delator de colegas artistas. Era sim um bólido no mundo artístico que, como disse Mário Prata, acusado injustamente, não foi anistiado nem pela esquerda nem pela direita. Simonal recebeu uma espécie de anistia pelo governo Collor em 1991, 17 anos depois de ter sido acusado de envolvimento com órgãos de inteligência e de repressão.

Michael Jackson também morreu condenado e ridicularizado por muitos. Uma trajetória de brilho e queda. Sucesso de mídia, palco e venda; conseguiu chegar a extraordinária cifra de 750 milhões de discos vendidos;  insuperável. Sua vida tornou-se símbolo de desejo, renúncia e podridão. Foi acusado de pedofilia em 1993. Doze anos depois foi inocentado. Outros tantos admitiram que pudesse ser tudo verdade e a sua miséria veio rápida. Morreu com a pecha de que poderia ter feito tudo diferente.

O Almirante Negro, João Cândido, líder da Revolta da Chibata em 1910, foi internado em um hospital psiquiátrico como louco. Sua anistia só lhe foi concedida 97 anos após sua morte. Isso tudo após uma intensa luta para que os direitos pudessem ser reparados. O projeto de lei de autoria da Senadora Marina Silva é de 2002 e foi sancionado pelo Presidente Lula em 2008. Os anistiados da ditadura militar e seus familiares já recebem suas indenizações. Já os familiares de João não puderam receber tal recurso. O artigo que o garantia foi vetado.

Todos eles ícones em suas áreas e também pretos. Elaboraram textos e mensagens sobre sua condição de negros num período que muitos líderes ficaram calados. Michael reclamou em julho de 2002 contra as gravadoras que exploravam afro-americanos nos Estados Unidos, Simonal ensinou para o filho através da música Tributo a Martin Lhuter King: cada negro que for, mais um negro virá - Para lutar com sangue ou não - Com uma canção também se luta irmão, João Cândido manifestou-se junto a outros amotinados Nós, marinheiros, cidadãos brasileiros e republicanos, não podemos mais suportar a escravidão na Marinha brasileira“.

Não gosto dos textos que os tratam como coitados. São apenas símbolos paradoxais de seu tempo. Os três não se livraram da condição de serem olhados, desejados e repelidos como negros. Apesar de eles terem pensado em algum modo de não ser negros. Muitos choram arrependidos a covardia de nada terem feito quando deveriam fazê-lo. A inveja mórbida da alegria exorbitante do negro paira em nós como um simulacro de um mundo que condena o destino do outro pela cor de sua pele e origem. Mataram João, mataram Simonal, mataram Michael e o estigma continua com os nossos deuses e deusas morrendo para serem reconhecidos depois do tempo.

 

Sérgio São Bernardo

sergiosaobernardo.blogspot.com

 

jun 16

 

No auge da recente onda musical baiana, que começa com Luís Caldas e vem até os nossos dias, costumava-se dizer que tínhamos três “divas”, duas morenas e uma negra. A última, Margareth Menezes, era a que, de longe, possuía menos presença na mídia e tinha as suas canções menos executadas nas FMs nacionais.

 

Embora a primeira a lançar, com estrondoso sucesso, a fórmula musical “samba-reggae”, esse, sim, o mais escancarado atestado da genialidade baiana contemporânea, Margareth não veio a vender milhões de CDs, nem a povoar os horários nobres da TV brasileira.

 

Sei que temos muitas respostas para isso, inclusive a mais recorrente e mais óbvia e é exatamente a que está na sua mente agora querido (a) leitor (a). Aliás, foi a mesma Margareth quem gravou, com razoável sucesso aqui na Bahia, uma música minha e de Lazzo Matumbi que diz: “minha pele é linguagem e a leitura é toda sua!”.

 

Pois bem, com inegável contribuição à nossa cultura e largo reconhecimento nos quatro cantos do mundo, vai Margareth declarar em uma mesa de debates, dentro de contexto específico, que “não gosta desse pagode baiano, sobretudo porque suas letras induzem ao preconceito contra a mulher e ofendem valores muito caros à maioria da população”. Foi o bastante para que boa parte dos pagodófilos e até pagodólatras de última hora caíssem feito feras em cima de nossa diva negra chegando ao extremo gesto de ameaça física.

 

Que é isso? Não se pode ter mais opinião diversa da corrente principal?A pena agora é o paredão para quem “desafina o coro dos contentes”? Só os “condestáveis incontestáveis” podem gritar o seu gosto na mídia, contra o silêncio de todos?

 

Margareth Menezes lidera hoje, na Bahia, o movimento “Afro-Pop Brasileiro”, que reúne os blocos afros – matrizes da música baiana que realmente interessa ao mundo – numa grande celebração de sua diversidade rítmica, mas buscando uma unidade necessária que lhes assegure presença mínima e digna na cena do entretenimento e da cultura nacionais. Esses mesmos blocos que, durante a festa maior, são jogados na invisibilidade das madrugadas, no final do circuito, quando as “lentes do Fantástico” e do Jornal Nacional já foram guardadas na sacola da desinformação e insensibilidade dos que apostam na equação carnaval + celebridades = mercado.


Gosto muito do ritmo do pagode baiano. O samba-chula com viola, tambores e palmas, redescoberto, na década de 80, por Roberto Mendes e Raimundo Sodré e tornado sucesso nacional, através da música A Massa, em um festival da Rede Globo, pariu muitos filhos vinte e tantos anos depois. Agora, como educador, tenho todo o direito de me opor às grosserias e preconceitos disseminados pelas letras dessas músicas pelo simples fato de que, em termos de texto de canção, fui aluno de Chico, Caetano e Gil.

 

É isso. A minha utopia é que, um dia, o povo ainda venha a aprender com os professores que eu tive. Ou, então, “cole na corda”. Viva Margareth!

 

mai 29

 

Certa vez, num debate de lançamento do Compromisso Todos pela Educação, em São Paulo, Viviane Sena disse-me uma coisa que aqueceu intensamente minha reflexão: “se tratássemos a educação como tratamos o futebol, há muito tempo estaríamos jogando no time do primeiro mundo”. A frase de Viviane voltou a ecoar na minha mente, quando vi o mundo de pessoas que, há alguns meses, pôs-se na rua, em passeata, pedindo “a devolução dos dias de glória do Esporte Clube Bahia”, hoje relegado à segunda divisão do campeonato nacional. Bela campanha, belo espetáculo.

 

 Presentemente, ainda é possível vermos milhares de adesivos orgulhosamente colados aos vidros dos automóveis, com a palavra de ordem da campanha: DEVOLVAM O MEU BAHIA!

Nada contra o movimento; aliás, se representatividade tivesse, gostaria muito de liderar uma mobilização em favor da revitalização do meu querido Ypiranga.

 

Lastima-me, de verdade, é saber que nenhum segmento social, nenhuma torcida de professores e alunos, nenhuma confederação de ONGs demonstram emulação suficiente para ostentar a bandeira do ensino público de qualidade e fazer disso uma luta permanente, barulhenta, aguerrida, sem dar trégua às autoridades e às ruas. Ressalva se faça ao heróico “Movimento Educacionista” de Cristóvam Buarque, que ganha, pouco a pouco dimensão nacional.

 

 

Notícia comunicada, nenhum clamor nacional, além de um artigo ali, outro acolá, em alguns jornais de prestígio, escritos por um ou outro educador preocupado. Traduzindo: estamos amargando uma terrível desclassificação social e pouquíssimos se comovem com o fato; estamos caminhando para a quarta ou quinta divisão do campeonato educacional, mas não existem torcedores que se levantem brandindo indignação por tamanho descalabro.

Recentemente foram anunciadas duas tragédias: os resultados do Saeb e do Enem. Nossas escolas públicas, em larga maioria, não conseguiram atingir a metade dos pontos totais em ambos os exames. O melhor aluno do terceiro ano da rede estadual tem grau de informação equivalente ao mediano aluno da oitava série da rede particular! Das 20 escolas mais bem classificadas no Enem/2008, 15 são da rede privada e cinco públicas e, ainda assim, colégios federais.

Nas brilhantes palavras do mestre Edivaldo Boaventura, “outrora tivemos uma escola pública pedagogicamente boa e socialmente ruim; hoje temos uma escola socialmente boa, mas pedagogicamente ruim”. Cumpre-nos, portanto, pela participação, pela ação cidadã cotidiana, atar as duas pontas da escola pública que queremos: socialmente boa e pedagogicamente ótima. Mas isso envolve compromisso e paixão. Compromisso dos que sabem que democracia de verdade tem, no ensino público de qualidade, o seu verdadeiro e único berço possível; paixão dos que fazem de uma causa maior o grande vetor de suas vidas.

Sonho, portanto, (mas luto também!) em ver um dia estampada nas faixas das passeatas e nos adesivos dos carros da classe média, como o grito de uma apaixonada torcida nacional, a frase-estopim da construção de uma sociedade menos violenta e mais justa: DEVOLVAM MINHA ESCOLA PÚBLICA!

mai 14

 

Os números do ENEM perpetuam o apartheid: dos 20 melhores colégios, 15 são particulares; o Colégio São Bento, do Rio,  primeiro lugar pelo terceiro ano, cobra mensalidade de R$ 1.700,00 reais; 73% das escolas avaliadas ( maioria das redes estaduais) tiveram nota abaixo da média.


Parece que é nossa sina reproduzirmos nas diversas áreas da nossa história social o binômio “Casa Grande& Senzala”, consagrado por Gilberto Freire. Outrora, na distinção dos espaços ocupados por senhores e escravos; hoje, para assinalar as inaceitáveis desigualdades que se cristalizaram através dos séculos, mesmo que escravidão oficialmente não haja.


O que vemos, com os números acima expostos, é que a educação, instrumento por excelência de inclusão social, vem sendo, em nossa história perversa, exatamente o seu contrário: meio de exclusão, nicho de privilégios, campo sagrado de reprodução de um desequilíbrio absurdo de dois brasis que se afastam e se conhecem cada vez menos.    

 

Na rede particular, escolas com estrutura invejável, turno integral de ensino, professores que dificilmente faltam às aulas, e, de resto, uma família com pais bem informados que investem incessantemente na formação dos filhos, com ensino complementar e, não raro, viagens ao exterior.

Na rede pública estadual, escolas em condições físicas precárias, professores que fazem da ausência uma regra, e muitas, muitas matérias que sequer têm professor para ensiná-las. Ademais, os pais, com formação inferior à dos filhos pouco podem fazer para ajudá-los e se recolhem ao lugar das sombras de sua pouca instrução, resignados e ainda agradecidos pelo fato de os filhos terem uma escola aonde ir.

 

O ensino brasileiro é a grande bomba social do país, disse muito bem Gilberto Dimenstein. Esse talvez seja o maior desafio de qualquer governo que ouse desenhar futuros. No segundo grau, pessoas em formação de 15, 17, 20 anos sonham com universidade, trabalho, vida melhor para os seus e possibilidade de fazer deste mundo um lugar melhor para todos.

E, todo ano, milhões desses jovens acordam no meio da “noite veloz” alarmados pelo despertador do real que lhes diz de modo insensível e seco: não existe futuro para você!.
É isso que nos dizem os números do Enem.

 

Não desconheço o supremo esforço que este governo têm feito no sentido da inclusão de milhares de jovens: Prouni, ações afirmativas, cotas para alunos da rede pública, cursos profissionalizantes inaugurados em grande escala. Mas o abismo é grande e a velocidade, nossa maior inimiga.

 

Se é pela educação - e somente por ela - que poderemos ostentar a medalha de “país de primeiro mundo”, então “cesse tudo que a musa antiga canta” e faça-se do ensino público de qualidade a prioridade “zero” deste país.

Do contrário, é entregar a um povo potencialmente capaz um caderno em branco, onde ele não saberá sequer registrar a história do seu próprio fracasso.

mai 6

 

ministro7Naquele 22 de abril de 2009, nenhum nobre navegante português ousaria nos “descobrir”. Descobertos fomos pelos olhos e pela voz do primeiro negro que, com altivez e coragem, no topo da nau capitânia do judiciário, admoestou o pretenso comandante.

 

Naquele 22 de Abril de 2009, não caberia um 7 de setembro em que o filho do rei, futuro imperador do país, daria gritos de independência às margens de um riacho qualquer; ali, ouvimos o brado da liberdade e da insubmissão da voz abafada do povo, silenciada por séculos pelos donos do poder, através de sucessivos crimes de lesa-cidadania: “respeite, ministro! Vossa Excelência não tem condições de dar lição de moral em ninguém!”.

 

Naquele 22 de Abril de 2009, nenhuma princesa “bondosa”, assinaria uma vaga lei que nos concedia liberdade, mas nos cassava a condição de cidadãos, proibindo-nos o voto, a escola de qualidade e o trabalho digno; presenciamos sim, a abolição proclamada em nossas almas, 121 anos depois, pela voz corajosa de um Luís Gama redivivo, encarnando todos os quilombos massacrados e abrindo os portões de todas as senzalas:” Vossa Excelência não está nas ruas; está na mídia destruindo a credibilidade de nossa justiça!”.

 

Naquele 22 de Abril de 2009, nenhum marechal, de pijama, ousaria proclamar república nenhuma; o pacto de poder que condenou a maioria de nossa gente a ser um povo de segunda classe, viu-se desmascarado pela indignação patriótica de um João Cândido reeditado, que fez a chibata girar em movimento contrário, açoitando o lombo dos que se acostumaram a bater, por séculos a fio:”respeite, ministro! Vossa Excelência não está falando com seus capangas do Mato Grosso!”.

 

Naquele dia, Ogum, Xangô e Oxóssi desceram os três num corpo só, e reafirmaram a presença arquetípica da África dentro de nós. Todos os movimentos aparentemente derrotados dos nossos heróis anônimos puseram-se de pé, vitoriosos, mesmo que não tivessem vencido uma só batalha. A Revolta dos Búzios, a Revolução dos Malês, o Quilombo dos Palmares, todos, reencenaram seus teatros de operação e puderam, séculos depois, derrotar simbolicamente o inimigo.

 

Naquele dia, saíram às ruas todas as escolas de samba, de jongo, todos os blocos-afros; bateram os candomblés e as giras de umbanda, a procissão da Boa Morte, o Bembé do Mercado de Santo Amaro; brilharam os pequenos olhos da criança negra recém-nascida ao descortinar a luz azul de um futuro melhor.

 

Naquele dia, materializando todos os nossos sonhos e desejos secularmente negados, Vossa Excelência deixou de ser apenas um ministro do supremo tribunal federal para tornar-se o Supremo Ministro de todos os brasileiros.

 

mai 6

 

mulher1Se me entregassem o mundo de presente, eu o repassaria imediatamente às mãos de uma mulher. Qualquer uma: branca, negra, amarela, pele vermelha. Assim fazendo, estaria libertando o planeta de milhares de anos de domínio do macho, desde quando a predisposição à caça o aparelhou também para oprimir, subjugar, perseguir tudo aquilo que estivesse na mira de sua arma ou à margem do seu coração.

O macho, desde cedo, projetou um mundo dividido, com territórios demarcados, elevando à máxima altura o valor gramatical dos pronomes possessivos de primeira pessoa: meu, minha, meus, minhas. Com isso, dedicou-se, pelo resto da história, a usurpar o que estivesse na órbita das outras pessoas. Deu no que deu. Este mundo que nós temos, e no qual somos obrigados a viver, é o mundo dos homens, da imposição fálica e do medo geral.

Não repassaria este mundo a uma mulher, apoiado simplesmente nos estereótipos e mitos que se criaram à sua imagem: sexo frágil, alma delicada, sensibilidade rara e outras artimanhas que os próprios homens inventaram para mantê-las longe do poder. Não entregaria o mundo à “Amélia”, nem às “mulheres de Atenas”.

 Entregá-lo-ia, sim, às donas-de-casa de família pobre, economistas e administradoras supremas de uma universidade que faz prova todo dia; matemáticas perspicazes que projetam o quase nada no desdobramento de um mês que parece nunca acabar.

 

Entregá-lo-ia a todas as mães, de cujas mãos a violência arrancou um filho, tingindo-lhe repentinamente os cabelos de indignação e dor. Estas saberiam aplainar o caminho da paz, porque o sofrimento é o grande arado da sabedoria.

 

Entregaria este mundo às mães solteiras, abandonadas pela covardia do macho, e que, mesmo assim, cumpriram à risca o compromisso com a vida, assumindo seu filho de um sobrenome só. Estas saberiam transferir dignidade e ética para as mínimas esferas do poder, como ações cotidianas de sua governança.

 

Entregaria este mundo a quem nasceu com o dom da criação, da resignação altiva, da decisão pensada; a quem levou os últimos milênios anotando erros e ordenando o caos.

Entregaria sem pensar duas vezes, e me recolheria à incompetência de homem, sabendo, no meu coração, que, a partir de então, iria viver em um mundo muito mais feliz do que aquele que comandei por todos esses anos.