jan 18

 

Fiz uma viagem de alguns dias ao pequeno país do Curuzu, Liberdade, apenas para que a vida me dissesse que ainda tenho muito a aprender.Lá, mergulhei em um mundo que nem supomos existir mais ou que continuamos a conhecer nos sonhos das teorias mais generosas.

No coração do Curuzu, fui  acolhido pela comunidade VodunZo, com todas as pompas de um Vaticano negro, pelo coração do Doté Amilton Costa, líder sócioespiritual do lugar.Confesso a vocês: não houve um só minuto, de todos em que estive lá, em que não me lembrasse – vivenciando – a frase magistral de Jorge Amado, ecoada em música por Caetano: “Quem é ateu e viu milagres como eu…”

No entra e sai de pessoas que visitam diariamente o VodunZo, e  ante a vista de alguém trabalhando, a frase mais ouvida é: “quéajudaaê? Quer ajuda aí?, em boníssimo baianês. Difícil pensar numa frase dessa, com tanta constância, em nosso mundo de individualismo e pressa.

Lá conheci também a fina flor de uma juventude negra e negro-mestiça, na faixa etária entre 18 e 24 anos ( a faixa do extermínio pela polícia e pelas drogas), que atravessa a vida confiante e garbosamente, apesar de tanto “não”, que têm que ouvir e viver.São jovens mestres de capoeira, mestres de percussão, ogãs orgulhosos dos seus Voduns, mas atentos ao mundo da informação e da tecnologia.A escola não foi boa;as condições de moradia não foram e nem são das melhores; os empregos, longe do ideal.Mas discutem com ardor cenas do filme “O Jardim das Folhas Sagradas, de Pola Ribeiro” e quase todos – raras exceções – ainda têm o sonho do ensino superior no horizonte.Muitos já conhecem vários países do mundo, como Bugalu, um “negro-fashion” de 1,87m e 120Kg, dono de um sorriso capaz de iluminar a Liberdade inteira. Esses garotos e garotas são as novas majestades de um lugar já celebrado pelo Ylê Aiê, mas representam hoje, no Curuzu, um novo caminho, um novo sentido e uma nova voz.

 Foram marcados para perder, mas deram a volta e estão fazendo valer o sonho e a vida.Eis o milagre: milagre do povo.

Jorge Portugal, educador e poeta.E-mail> secretaria@jorgeportugal.com.br

jan 3

 

Eu já tinha até escolhido outro tema sobre o qual escreveria nesta terça-feira.Entretanto, ao ler o excelente artigo de Nelson Pretto, no domingo, mudei inteiramente de ideia.Decidi por um texto-manifesto, uma espécie de convocação à cidadania, inspirado no movimento “Ocupe Wal Street” , de todos os de 2011, o que vai no âmago, no coração da coisa.

Portanto, eu lhes peço: Ocupem 2012 em apoio à luta – muitas vezes desigual – da ministra Eliana Calmon em prol da “correção de rumos” do judiciário brasileiro.Dos três poderes, o Judiciário é o único que ainda se mantém como um castelo medieval, e muitos dos seus membros se julgam portadores de um título de nobreza de um império que acabou em 1889.Não se pode questionar qualquer ato suspeito de certos magistrados, sob pena de o céu desabar sobre a cabeça de quem ousou fazê-lo.E o CNJ, coordenado pela ministra baiana, somos nós fiscalizando esse poder aristocrático.A ação da ministra Eliana Calmon – e os seus resultados – é um teste fundamental aos limites da democracia brasileira.Portanto, leiam, acompanhem, escrevam no Facebook, Twitter, comentem na  sala de aula, mesa de bar, mas não deixem a ministra sozinha nessa luta .

Ocupem 2012, também, em apoio aos 10% do PIB para a Educação.Agora que somos a sexta economia do planeta, vamos precisar mais radicalmente ainda de gente informada, instruída,qualificada para sustentar essa posição e outras acima.Mas a nossa escola não está dando conta.O nosso ensino básico é uma “bomba social”, e o professor brasileiro ganha sempre 40% menos que qualquer outro profissional  com o mesmo nível de formação.É hora do ensino público de qualidade.Sem ele, a sexta posição pode ir para a cesta em poucos anos.Sobre isso, leiam o meu texto “Carta a uma senhora que descansa em Inema”, no Terra Magazine ou no www.jorgeportugal.com.br  e entre nessa luta também.

Por fim –e  por hoje – ocupem 2012 por uma Salvador reabilitada, e vamos escolher mãos que não a maltratem, de alguém que esteja à altura de sua cultura, beleza e história.

Jorge Portugal- Educador e poeta. E-mail> secretaria@jorgeportugal.com.br