dez 30

 

Presidenta  querida, aqui lhe escreve um admirador de primeiríssima fila ( lembra-se da expressão na Pousada do Carmo por ocasião do Afro 21? A senhora me disse que adorou e até gostaria de usá-la) e que tem a remota esperança de que estas mal traçadas cheguem ao seu conhecimento.Mas o faço como os náufragos que jogavam garrafas ao mar.

Longe de mim perturbar seu sossego, afinal se existe paraíso de verdade, o Criador deve ter-se inspirado em Inema para fazer a praia de lá.Contudo, o assunto que me traz aqui é um desses impulsos insuportáveis que ficam perturbando nossa indignação até que a gente desabafe.

Li, hoje num desses jornalões sudestinos, que a irreprovável FGV, em pesquisa recente, chegou à conclusão de que um professor no Brasil ganha sempre 40% a menos que qualquer outro profissional com o mesmo nível de graduação.Ou seja, o profissional que é ponto de partida para todos os demais profissionais tem o seu salário quase sempre reduzido à metade do que ganham os outros.Escárnio? Ironia?Requinte de crueldade? Será que não está aí a chave de todos os nossos gargalos no campo do desenvolvimento social já que educação de qualidade é a única arquiteta e provedora do futuro?Não sou educateca (obrigado, Gaspari), não escrevo e nem falo pedagogês complicado, sou apenas um educador a cujo trabalho a Bahia( e parte do Brasil) assiste todos os dias e, ao que eu saiba, aprova.

Sei da sua paixão pela educação – aliás, a única presidente da nação que utilizou cadeia nacional de rádio e TV para saudar o início do ano letivo.Estou eufórico com o Pronatec, com a ampliação dos campi federais de ensino superior, adoro-a revelando seus livros prediletos e acompanhei – discreto mas extasiado – a senhora cantando todo o repertório de Gilberto Gil, conhecendo as letras de cor, naquela mesma Pousada do Carmo no Afro 21. “Essa é do ramo”, pensei comigo!

Por isso, retorno ao assunto: que recém-formado(a)  terá estímulo para abraçar uma profissão que, de cara, já o deixará economicamente inferiorizado ante as demais profissões? Num mundo cada vez mais regido pelo dinheiro, que estudante genial ( de Química, Matemática, Física, Inglês) , mas sem o ideal de nossa geração, sairá aos pulos da universidade para reger classe no ensino médio?

Vem aí um novo PNE e eu lhe peço encarecidamente: ponha a mão nisso.Chegue junto com autoridade e paixão e não deixe que a área econômica trate com descaso os 10% do PIB para educação.China e Índia não estão brincando.Não aceite brincadeiras também.Lembre-se de mestre Anísio Teixeira: “ O ensino público de qualidade é a única máquina de fazer democracia”.Com professores ganhando dignamente, essa máquina pode até voar.

Abraço baiano cordial

Jorge Portugal

dez 20

 

Voltando à “Capital Negra das Américas”. No último artigo, ao mencionar que os negros/afrodescendentes de Salvador só conseguem emplacar o “vice-prefeito da capital”, recebi e-mails entre indignados e irados.Os indignados dando-se conta de que “ é verdade, a gente nunca atenta para esse pequeno-grande detalhe”; os irados, assim ficaram justamente por eu ter lembrar esse fato e  “ por que Salvador teria a obrigação de ter um prefeito negro?”.

Aos segundos, respondo com um exemplo: depois de 500 anos de história , tendo no seu comando apenas representantes das elites nacionais, o Brasil resolveu eleger um presidente nordestino, ex-pau-de-arara, sem diploma de nível superior, monoglota, oriundo da classe operária.Esperava-se o desastre. Pois bem, foi esse homem quem , através de políticas públicas substantivas, retirou da linha da fome 40 milhões de brasileiros, mais 30 milhões da linha da pobreza, incluiu 800.000 estudantes pobres( negros e mestiços) no ensino superior e promoveu real valorização do salário mínimo.Sabe por quê? Pelo simples motivo de que ele não estudou “necessidades sociais” apenas nos livros, mas viveu todas elas na própria pele.

Assim também pode acontecer com uma cidade que tem 95% de sua população formada por negros e negro-mestiços.Se ela tiver um(a) pessoa com sua cara como seu(sua) prefeito(a), que já tenha vivido a barra do preconceito e da exclusão social, mas tenha dado a volta por cima pelos caminhos da superação e hoje se encontre em condições de dirigi-la, conhecendo profundamente o sentimento e as dores desse povo, claro que seria a perfeição dos encontros.

As peças da sucessão, no entanto, começam a ocupar o tabuleiro e são os partidos que fazem o jogo.Mas queremos entrar nele e, dessa vez, não a lateri.Exigimos lugar na centralidade do processo, porque qualquer política pública que se promova ou não incidirá sempre sobre a vida de 95% da população desta cidade, que somos nós.Afinal, na “Capital Negra das Américas”, o futuro tem quer ser negro também.Ou afrodescendente, vá lá.

 

dez 4

 

O menino Clementino adorava brigar.Saía de uma briga e já entrava em outra e parecia não querer descanso.Um dia, um velho sábio , vendo sua disposição para tanta briga, perguntou-lhe em puro baianês: Meu filho, você por acaso é algum riachão, que ninguém consegue atravessar?”

E assim Clementino virou Riachão, que atravessou nove décadas da vida, até aqui, sem deixar de brigar um só dia.Brigou com a inspiração, quando esta demorava a chegar, para compor mais um samba; brigou pela afirmação e sucesso de suas composições, brigou contra as adversidades da vida, que não foram poucas, mas sempre brigou com um sorriso nos lábios e a providencial prontidão dos sábios guerreiros.

Brigou muitas vezes sozinho, e muitas vezes ao lado dos seus irmãos de samba Batatinha, Edil Pacheco, Ederaldo Gentil, Walmir Lima, Panela e tantos outros nomes que fizeram da boa música baiana profissão de fé e terminaram escanteados ou esquecidos pelo jogo pesado de uma mídia movida pelo jabá e pelo mau-gosto.

Cronista de sua cidade e do seu tempo, a cada fato marcante que acontecia, Riachão nos dava a notícia em forma de um novo samba.Assim foi com “O umbigão da Baleia”, “A morte do Alfaiate” “Pitada de Tabaco”e tantos mais.

Foi também o seu talento poético que pintou com tintas musicais e precisão o cenário mítico desta cidade: “ Quem chega na Praça Cairu/Olha pra cima o que é que vê?/O Elevador Lacerda sempre a subir e a descer…/ É o retrato fiel da Bahia/baiana vendendo com alegria/coisinhas gostosas de dendê – acarajé!”

Quando Caetano e Gil voltaram do exílio imposto pela ditadura militar e decidiram fazer o primeiro show para um público brasileiro cheio de saudade, decidiram lançar um manifesto daquela nova fase de suas carreiras e vidas.Foram buscar em Riachão as palavras precisas para expressar o que eles queriam comunicar em alto e bom som: “Cada macaco no seu galho/xô, xuá/eu não me canso de falar, xô, xuá/meu galho é na Bahia, xô, xuá/ o seu é em outro lugar…”

Até o pop contemporâneo veio beber nas águas desse Riachão.O último grande sucesso de Cássia Eller é crônica de um Riachão em estado puro:” Ai, meu Deus/ai meu Deus o que é que há?/A nega lá em casa não quer trabalhar…/ Ela quer me ver bem mal/ vá morar com o diabo que é imortal…”

Imortal é você, Clementino.Malandro dos bons, capoeirista dos sons e das letras, expressão da Bahia na cor, na alegria e no canto.Valente, que atravessou todos aqueles que queriam atravessar o seu caminho, e chega aos 90 anos de absoluto sucesso, sem nunca ter deixado de ser o menino Clementino.

Hoje, 2 de Dezembro, dia do Samba, mais do que nunca e mais do que todos , parabéns, Malandro!