ago 30

 

Luz, câmera, atenção!Em breve estreia nos cinemas do Brasil o filme “O Jardim das Folhas Sagradas”, do cineasta baiano Pola Ribeiro.Não se trata de acontecimento trivial e explico:há muito tempo que as grandes produções do cinema nacional se apoiam em duas fórmulas de sucesso: o “favela movie”( Cidade de Deus,Carandiru, etc) e as comédias românticas da Globo Filmes que, pela máquina de promoção de que dispõem, “entopem” com facilidade as salas do país.De vez em quando, pula daqui ou dali um “Estômago”.E o resto, o grande resto fica por conta dos blockbusters norte-americanos , que servem de pretexto para o consumo de sacões de pipoca e espetáculos de deseducação de plateias boçais nas salas escuras.

Assim como Glauber Rocha(que falta esse agitador cultural  faz!)nos apresentou , em 1964, um Brasil que vivia  escanteado, com todos os ingredientes do nosso inconsciente cultural, escancarando uma realidade latente com poesia cinematográfica incomum, Pola Ribeiro, em 2011, nos conta o universo da cultura afro-baiana na expressão do Candomblé e sua tensão dialética entre a tradição e a modernidade.É obra de ficção com enredo, personagens, cenários, uma história apaixonante que prende nosso olhar da primeira à última cena.

Como assinalei em artigo para o Terra Magazine, se Pola tivesse apenas aberto a câmera na direção dos rituais e sua plasticidade estonteante, já estaria fazendo “cinema transcendental”.Mas optou pela narrativa e pelo desempenho de um elenco fabuloso que tem em Gody, Arildo Deda,João Miguel, Ray Alves, Mariene de Castro, boa parte do Bando de Teatro Olodum “cavalos” de uma interpretação magistral.

Um aviso e um grande pedido: se você acha que o “Jardim” faz mero proselitismo religioso, pode desarmar seu preconceito. Seja qual for seu credo,  tenha certeza de que você estará diante de uma obra de arte da maior relevância e beleza.Algo que nos engrandece e nos permite uma emoção estética de alto teor.Filme que você vai ver e não esquecer jamais.

Jorge Portugal – educador e comunicador .   E-mail> secretaria@jorgeportugal.com.br

ago 27

 

Vem da deputada Luiza Maia, do PT-BA uma proposta que vai acender polêmica sem fim: sugere ao governo da Bahia que não contrate grupos de pagode cujas músicas desrespeitem a figura feminina, que atentem contra a dignidade da mulher.Para os que não conhecem bem a história, aqui na Bahia há um sub-produto da Axé Music – grupos de pagode – que invariavelmente trazem nos refrões de suas músicas(?) “carinhosos elogios” à figura feminina como “ cachorra”, “periguete”, “problemática”….

Alguns “arautos da livre expressão” já colocam a boca no trombone de vara alegando a instituição da censura, que as bandas de pagode têm todo o direito de cantarem o que quiserem, que vivemos numa democracia, etc, .

Feministas  apoiam o projeto argumentando que tais músicas ferem direitos humanos, entre os quais o respeito ao semelhante, e essa desconstrução da imagem da mulher - prática contínua dessas bandas baianas - é violência verbal que pode muito bem levar à violência física.

Convido vocês a uma análise de fundo: qual é o perfil daqueles que formam um grupo de pagode? Jovens negro-mestiços, entre 18 e 30 anos, nascidos e criados em alguma periferia de Salvador, onde o braço do estado pouco ou quase nunca chegou, sem acesso, portanto, a qualquer repertório cultural  de melhor nível, e que “monta” sua composição geralmente a partir de um refrão que condensa todo tipo de preconceito em relação ao “outro” que ele considera mais frágil e menos poderoso: a mulher, o travesti, o gay.

Do outro lado, um grande público em tudo semelhante aos “artistas”, imerso na mesmíssima indigência intelectual, quer apenas balançar o esqueleto com um ritmo eletrizante que inspira coreografias sexuais excitantes.No meio dos “artistas” e do público, o empresário esperto e um programador de rádio mais esperto ainda, que vai executar 15 vezes por dia esse “trabalho”, transformando-o em retumbante sucesso e faturando imensa fatia do Carnaval-São João-Carnaval em que se tornou o calendário baiano.Em suma, a falta de informação, educação, ética humana e inteligência musical tornaram-se a principal mercadoria da “cultura baiana” atual.Grosseria que gera muito dinheiro!

Acho que o projeto da deputada Luiza Maia vai encontrar resistência até dos seus pares na Assembleia Legislativa.Brandindo o argumento da “livre expressão”, jamais confessarão o medo que têm de perder os votos da pagoderia.Por outro lado, grande contingente de mulheres que se sentem agredidas por essas bandas, não demonstraram,ainda, a mínima vontade de ocupar as redes sociais e as ruas, em protesto, contra essas aberrações musicais.

Uma proposta à proposta: por que não sugerir ao Governo do Estado, prefeituras municipais e estatais que não contratem tais bandas simplesmente…porque elas não precisam do dinheiro público?Já estão muito bem colocadas no mercado, faturando horrores com sua grande massa de consumidores.Que se virem com o patrocínio privado.E aí, mulheres, hora da ação: denunciar e boicotar produtos de empresas que se associam a essa baixaria musical.

ago 19

 

Nesta primeira quadra do século 21, marcada por fanatismos e medo, onde estão fincadas bandeiras de correntes deploráveis como Liga Norte italiana,Tea Party norte-americano, fundamentalismos religiosos e étnicos, corrupção desenfreada , usuras sem fim, protagonismo irracional do mercado e do consumo, só mesmo a Arte pode dar conta de um pedaço de sossego para as angústias humanas.

No meu caso, tenho tomado, ultimamente, doses cavalares de Arte da melhor fonte, pois quanto maior o veneno, maior também o remédio.Tenho sobrevivido às custas do novo cd de Chico Buarque, que sempre sabe o endereço das belas melodias para casá-las com as metáforas que arrebatam sentidos e imaginação.O velho e bom Chico, que não precisa fazer concessões a vagas modernosas, nem ao fel do pior que infesta a programação da maioria das rádios brasileiras.Ouvir novas canções como” Nina”, “Querido Diário”, “Se eu soubesse”, “Sou eu” e a já antológica “Sinhá” anestesia a gente contra a aridez do momento.

Tenho também tomado overdoses de Zé Miguel Wisnik.Chegado pelo genial” Indivisível” – duplo cd ligado por um ímã – o mestre da Literatura e multiartista da MPB dá conta precisa de me livrar do tédio musical em que a burrice cotidiana insiste em nos sufocar.Uma obra que premia a beleza da canção e a excelência da poesia.Nenhum truque, nenhuma peripécia.Wisnik cantando “ Serenata” , “Cacilda!”, “Tenho dó das estrelas” é momento sublime demais que nos leva pra bem longe das pautas dos jornais e das portas do inferno.

Protegido pelo repertório desses santos artistas, ousei atravessar a cidade num sábado à noite,enfrentando a direção temerária dos volantes da classe média e fui ver a montagem de “Sargento Getúlio”,no CineCenaUniJorge, já carinhosamente chamado “Cine Ricardo”.Recebi uma mega-dose de direção magistral de Gil Vicente Tavares e uma atuação de Carlos Betão simplesmente de tirar o fôlego.Arte maior, com a assinatura da Bahia e o poder de neutralizar pagodes, sertanejos e outros torturadores da alma.

O Jardim das Folhas Sagradas fica para outro artigo.

 

                        Jorge Portugal>Educador e Poeta.E-mail>secretaria@jorgeportugal.com.br

ago 12

 

Deve estrear em breve o filme “Jardim das Folhas Sagradas”, do cineasta baiano Pola Ribeiro.Em sessão especial para a imprensa local, pude vê-lo e saí vivamente encantado por muitos aspectos que não encontro no cinema que se faz atualmente no país.

Para os olhares mais apressados, o “Jardim” pode parecer apenas um filme feito sobre o Candomblé, seus rituais, mistérios e até polaridades internas.Mas eu lhe peço, desde já, que se desarme de qualquer preconceito( se é outro o seu credo) e dirija ao filme o olhar humano e inteligente que merece toda grande obra de arte.Não há dúvida de

 que o povo negro da Bahia e sua cultura religiosa ocupam a centralidade da trama que, no entanto, traz outros temas que pontilham nosso debate contemporâneo e dizem respeito ao tipo de organização social que queremos e à sustentabilidade do planeta em que moramos: a intolerância religiosa, o racismo e a relação profunda entre religião e natureza permeiam a história, disfarçados de tramas secundárias, mas, apenas, “disfarçados”.

O “Jardim das Folhas Sagradas” é filme para encher os olhos.Se Pola Ribeiro apenas fixasse a câmera na direção de todos os desdobramentos de um ritual de matriz africana, já teria “cinema transcendental” para oferecer ao nosso olhar.As danças, o colorido de pessoas e roupas,a beleza natural dos cenários e cenas, uma cultura viva no seu momento sagrado, por si sós já fariam a grandeza de um documentário imperdível.Mas Pola conta-nos muitas histórias, dentro de uma história maior, que informa e encanta.

Saí  da sessão com a sensação de que, guardadas as proporções,O Jardim das Folhas Sagradas revela uma “coragem de autor” semelhante à “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, de Gláuber Rocha.Ambos desvelam um Brasil, se não desconhecido da maioria, com certeza olvidado pelos que se escusam a reconhecer e assumir sua profunda identidade cultural.

E em tempos de “Tea Party”, “Frente Nacional Francesa”, “Liga Norte”, “Islamofobia”, prática explícita de intolerância religiosa e racial no Brasil, nada melhor do que afirmarmos a pluralidade de nossas origens e, dentre elas, aquela que ficou escanteada por séculos, na tela da TV,na universidade, no cinema e na consciência nacional.A matriz-mãe de nossa diversidade.

O Jardim das Folhas Sagradas é narrativa que prende o olhar do primeiro ao último minuto; é cine-poesia da mais alta beleza  e dignidade.Longe do superficialismo dos blockbusters estrangeiros e das comédias-Globo Filmes, comunica-nos um Brasil negro e profundo que, no final das contas, somos nós mesmos.

 

ago 2

 

Santo Amaro é uma cidade cheia de “senados”.Explico: não é que lá pontifiquem, em câmaras altas, Pinheiros, Lídices, Suplicys ou Saneys.Senado, na minha terra, é o nome dado aos encontros regulares(sublinho o “regulares”) de pessoas, em lugar igualmente fixo, para falar da vida(em muitos casos, alheia), debater a vida, celebrar a vida.Já houve senados famosos na cidade, como o de Doutor Ranulpho, na praça do Rosário,e o de Dona Da Paz,  na rua do Amparo. Atualmente, com grande peso sócio-existencial-político, temos o de Geraldo Salles, que chegou a fundar uma praça na sala de visitas de sua casa, o de Sapateirinho, regado a uma “erva-doce” que só ele sabe fazer, e o senado do adro da Igreja da Purificação, o principal de todos eles, sem recesso há cerca de 150 anos!

Como bem disse, no senado, a conversa é aberta, sem censura, temas livres que vão da conjuntura internacional à última fofoca da cidade.Naturalmente que o assunto galvanizador de corações e mentes é a política municipal, com defensores e adversários fervorosos do prefeito da ocasião quase indo ao confronto físico na calorosa defesa de posições.Disse “quase”,  notaram?E é esse “quase” que nos dá a certeza das mínimas chances da bela caminhada humana.Na composição do “senado do adro”, pessoas de todas as cores,  credos,  convicções políticas e  classes sociais discutem com ardor questões que, em outros lugares, causariam a morte de milhões. O discurso inflamado de Miguel de Né, a polêmica sempre acesa por Itagildo Mesquita, a adesão democrática de Gabi,Lelinho,Agostinho,Virgílio Sena,Zé Roberto a uma ou outra posição nunca levam a estremecimentos pessoais ou inimizades frontais.Antes, quase toda sessão do senado – e são diárias – acaba em risadas e congraçamento com pamonhas de Sílvio e copos de coca-cola servidos pelas mãos atenciosas de Capenga, e sob a sábia presidência de João Rodrigues.

Engraçado,minha intenção, hoje, era redigir um artigo sobre o massacre na Noruega; e terminei escrevendo sobre o “senado” de minha cidade.

 

                                      Jorge Portugal

    Educador e poeta.E-mail>secretaria@jorgeportugal.com.br