jul 29

 

Choro e ranger de dentes.Corações despedaçados.Torcedores à beira de um ataque de nervos.Quase não se podia sair à noite, depois do jogo, em Itapuã pois os carros pareciam desgovernados, buzinaço de raiva e protesto contra os quatro pênaltis perdidos pela seleção no jogo com o Paraguai. “Não pode!”, gritavam uns;”Traidores!” urravam outros.E o Brasil inteiro parece não ter conseguido dormir diante de tamanho fracasso e derrota.

Entretanto, muito além daquele jogo e há muito tempo, ainda contamos 18 milhões de analfabetos “clássicos” e porcentuais piores de analfabetos funcionais, pessoas que, até com “anel no dedo” não sabem interpretar uma parágrafo, nem entender a simples mensagem de um gráfico. O nosso ensino médio, em particular, tornou-se “a bomba social brasileira”, nas palavras de Gilberto Dimenstein, e apenas 50% dos que ingressam no segundo grau, conseguem chegar ao fim do terceiro ano.Silêncio total.Ninguém diz nada.A voz coletiva não se levanta.Ninguém ameaça ir às ruas e escancarar sua indignação.Desse quadro, ninguém parece ter vergonha.

“Esses jogadores são uns pernas –de-pau, uns avarentos que só pensam em grana; não têm amor à camisa, nem sentimento pelo país”. Essa era a avaliação comum na boca de cada brasileiro, nos bares, nas esquinas e nas ruas.Nos escritórios também.E quiçá nos palácios.Humilhação maior não poderia haver: perder para o Paraguai, com quatro pênaltis desperdiçados! De que maneira chegaremos à copa?

Todavia, muito além do estádio e daquela desclassificação, há muitíssimo tempo, estamos tomando goleada da corrupção, que surrupia bilhões dos cofres públicos para bolsos privados e, quando a grande mídia anuncia espalhafatosamente o fato, quase nunca denuncia o corruptor, facilitando a eterna substituição dos corruptos nos próximos crimes das novas manchetes.Nas construções dos estádios para a copa, nas estradas, pontes, viadutos, no desvio da merenda escolar, no “mensalinho” das feiras livres, onde quer que haja dinheiro do povo, a “mão-de-gato” age rápida e livremente.Apatia geral.Alguns resmungos aqui e ali, mas nenhuma proposta de tomar as ruas e nelas permanecer até a restauração da ética e da moralidade públicas.Passeatas por uma reforma política à prova de corrupção, nem pensar!

“Esse mano Menezes não sabe nada de tática!”, gritavam muitos naquela noite.E, nos guetos e periferias, muitos “manos” pensavam desesperadamente em alguma tática que lhes trouxesse a primeira refeição de todo o dia, que já terminava.”Neymar e Ganso não jogaram nada!”, esbravejavam os que ainda não aceitavam o resultado.No resto do país, milhões de “patos” continuam chutando “pra fora” a chance de existir, porque são ,apenas, cidadãos de segunda categoria, sub-empregados, sem informação e, provavelmente, sem futuro.Por eles,quase ninguém se importa.Por eles, ninguém jamais soltará um grito de gol.

jul 20

 

Depois de uma semana inteira de FLIP, em Paraty, cheguei a Salvador com a sensação de quem “despongava” do céu.Cinco dias inteiros respirando o melhor  da cultura brasileira – e internacional – de alto repertório deixam qualquer um com a experiência de imersão no paraíso.A mesa de abertura, com Mestre Antônio Cândido e Zé Miguel Wisnik, “devorando” o pensamento e a poética de Oswald de Andrade, o homenageado da festa, já pagaria a entrada da festa inteira.Entretanto, ainda teríamos Miguel Nicolélis e Luiz Felipe Pondé, num inesquecível debate entre o novo humanismo científico e o ceticismo filosófico contemporâneo;Inácio de Loiola Brandão e Contardo Caligaris, em tarde de gargalhadas e lágrimas e o encerramento monumental com João Ubaldo Ribeiro, freneticamente aplaudido cada vez que abria a boca.Tudo isso em uma cidade indescritível pela beleza, um lugar onde, na tirada de Mira Silva, diretora do Aprovado,” qualquer recanto é cenário”.

Do aeroporto para casa, já em Salvador, fui  notando a onipresença de out-doors que anunciavam o “Salvador Fest”, megaevento musical que reúne, por dois dias, a nata do sub-pagode baiano com os clássicos da axé music.De volta ao mundo real, acusei.

Mas, não é que na segunda-feira, ainda desarrumando as malas da Flip, recebo telefonema de Andréa “Google”, intrépida produtora do Aprovado, convocando-me para missão especial:entrevistar Nelson Mota, com tema específico: João Gilberto.

Corri para o endereço anotado e voltou-me a sensação de retorno ao céu: Na Varanda de Lícia Fábio, senhora e dona dos mais sofisticados eventos da cidade,o jornalista-poeta deu-nos uma aula inesquecível sobre o maior gênio de nossa MPB.Aula-show sobre Cultura Brasileira, para deixar qualquer universidade babando de inveja.Êxtase absoluto, com a Baía de Todos os Santos por cenário.

Lícia me contou que sonha uma programação mensal com presenças luminosas do Jornalismo, da Música, da Literatura e da Filosofia.O melhor de tudo é que o que Lícia sonha Lícia faz.

Varanda Delícia: seja bem-vinda!

jul 15

 

Passei cinco dias na FLIP gravando matérias e entrevistas para o  programa Aprovado! aqui da Bahia.Mais do que isso, também curti a FLIP, suas mesas, as palestras, os debates, aquela overdose de cultura de alto repertório.Vi, com olhos marejados, o depoimento do Mestre Antônio Cândido, na abertura do evento e, na sequência, a prosa poético-solar de Zé Miguel Wisnik, sempre brilhante, talento que nunca tira férias.O duelo de titãs entre o ceticismo filosófico de Luiz Felipe Pondé e o humanismo científico de Miguel Nicolélis nos deu a certeza de que o Brasil nada deve ao pensamento avançado do mundo.Vi também Inácio de Loiola Brandão e Contardo Caligaris transformarem um fim de tarde em Paraty num belo thriller de narrativas memoráveis e assisti, por fim, a João Ubaldo Ribeiro, pop star absoluto da grande literatura da Ilha Brasil.Só para ficar nos nacionais.Trinta mil pessoas aplaudiam ,com entusiasmo, intervenções, leituras, citações , tudo que fosse palavra boa de quem sabe fazer a mais fina arte com as palavras.Cheguei a fazer uma boutade com João Ubaldo, sugerindo uma letra de lei em nossa constituição que determinasse o direito( e o dever) a todas as cidades brasileiras realizarem uma  FLIP.Naqueles dias, Paraty foi a capital da inteligência brasileira, uma espécie de centro irradiador de poesia, beleza e grandes ideias.

Mas aí, “aquele demônio inquieto” que mora no coração do educador começa a se coçar e a sonhar com coisas não recomendáveis a quem deseja paz de espírito.Por exemplo: Por que essa maravilha SÓ  para 30.000 pessoas? Tudo bem, a internet transmitiu em tempo real, mas o contato direto, a fricção, o encontro com as super figuras que lá estiveram foram privilégio de poucos.Paraty é cidade cara, e fica mais cara ainda nessas ocasiões.De novo, o “demônio”: e por que não “espalhar” Paraty por mais dias do ano? Trazer um pouco do “conteúdo Paraty” e colocá-lo no currículo das escolas – públicas e particulares -, baratear o custo dos livros, criar uma “Faixa Flip” na programação das tevês comerciais, começar a fazer tudo isso tornar-se familiar ao brasileiro médio, quem sabe despertar um gosto escondido que nunca veio à luz por falta de estímulo e conhecimento.Utopia?

Pois asseguro-lhes que, guardadas as proporções, eu tive minha Paraty ainda no Ginásio Teodoro Sampaio, em Santo Amaro, quando vivia entre os 12 e 15 anos.Era a SELIBA/SA – semana do livro baiano, organizada pelo educador Hermano Gouveia, que promovia um contato direto entre os grandes escritores do estado com os estudantes, em uma semana inteira de música, teatro, literatura e poesia.E dali saiu tanta gente boa para as letras e para a vida.

Paratys escolares, que tal? Para que o resto do Brasil também possa “comer do biscoito fino” da literatura e das ideias, como queria Oswald de Andrade, o homenageado da FLIP deste ano.

Com a palavra o MEC e as secretarias de educação.E cultura.

jul 5

 

Salvo engano foi Darcy Ribeiro(ou Cristovam?) quem sentenciou: “ a universidade que não serve à sociedade não serve”.Ao que sei, esse axioma não é bem o metro para medir a UNEB.Nascida com estrutura multicampi, a UNEB constitui pequenas cidades-universitárias em muitas regiões e municípios baianos, auscultando, estudando e interpretando as vocações e carências de cada lugar,  tudo( ou quase) conduzido a seu estágio de pesquisa como caminho para transformar-se em conhecimento.Ainda sem a pujança financeira que toca uma UNICAMP ou USP, mas com o talento e garra que sobram aos baianos: seu reitorado, seu corpo docente, seus funcionários.

Trabalho destacado da UNEB é o seu estudo e ação voltados para o semi-árido baiano.Como sabemos, essa região, onde está a maior parte do território estadual, é uma vergonha histórica, que já mereceu livros, artigos, ensaios, letras de música, mas, de verdade, poucas políticas públicas que removessem de vez as causas da penúria do lugar.Miséria e analfabetismo, como sempre, boas fontes de votos e, por isso, entidades intocáveis!

Mas a UNEB, capitaneada pelo seu Pró-Reitor de Planejamento,Luiz Paulo Neiva, colocou o pé na estrada e está desenvolvendo um belíssimo trabalho na região, especialmente na sua cidade-símbolo.Através do” Projeto Canudos”, vem desenvolvendo com a população local(notem bem: com)ações nos campos da cultura( Memorial Antonio Conselheiro), agricultura, ecologia(Bioma Caatinga) e turismo.

Integrando turismo, arte e história, o sonho dos sonhos: a cidade cenográfica de Canudos.A exemplo de Nova Jerusalém, em Pernambuco, essa cidade, em caráter permanente, será palco de encenações sobre a Guerra de Canudos, atraindo milhares de turistas-culturais do Brasil e do mundo , empregando cerca de cinco mil pessoas do lugar.

Luiz Paulo não para. Espécie de “médium” de Antônio Conselheiro e mestre José Calazans vem batendo em todas as portas possíveis para a manutenção e realização desses projetos.A Bahia necessita tomar ciência de tudo isso.Porque Luiz Paulo tem que chegar mais longe ainda…

 

                                                Jorge Portugal

Educador e Comunicador. E-mail>secretaria@jorgeportugal.com.br

 

 

 

 

jul 3

 

Se alguém ainda tinha dúvidas sobre o poder e a força das classes emergentes, C e D, esse último São João derrubou todas, uma a uma.

Relembrando: outrora, as festas juninas eram vistas pela mídia sudestina como um evento folclórico, uma espécie de “arraial de pobres” que ocorria no Nordeste, mas digna de pouca atenção.Daí a presença tímida ou quase nula nos noticiários escritos e televisivos.Já li artigo de socialite/cronista execrando as festas juninas que Luís Inácio promovia no palácio, à época da presidência.Este ano, surpresa!Overdose junina nas telas de TV, especialmente “a dona de boa parte das cabeças do Brasil”, a Rede Globo de Televisão.

No “Esquenta” de Regina Casé, só deu São João; um especial comandado por Chico Pinheiro, “São João no Nordeste”, um Som Brasil dedicado a Jackson do Pandeiro e um Globo Repórter inteirinho mostrando a força e a fé dos santos juninos.Além de fartas matérias nos jornais da casa.Milagre? Simpatia repentina por uma festa que eles mesmos se esquivavam de mostrar em sua grandeza? O que teria provocado tamanha mudança?

“A  economia, estúpido!” como bem diria Carville.Estamos falando de cerca de 40 milhões de pobres que viraram classe média, com dinheiro no bolso e vontade de gastar.Origem deles?Em boníssima parte, nordestinos do Brasil que se despencaram há 20, 30 anos para o sul maravilha, e agora,alguns degraus acima das condições anteriores, são capazes de influenciar muita coisa, até programação de TV.

Na “sociologia-instântanea” disfarçada de reportagem que fez José Raimundo para o Globo Repórter, ele nos mostra uma família de nordestinos em Sampa preparando-se para passar o São João no interior da Paraíba.O chefe da família há 25 anos não retornava à terra natal.E agora, com mulher e mais três filhos resolveu matar saudades dos parentes e de seu lugar de origem.Viajaram de quê? De avião! Todos, que não puderam fazer essa viagem  antes, de ônibus da carreira, fazem-na agora de avião.

E é essa força capaz de mudar e movimentar supermercados, agências de turismo, shoppings centers, todo um mercado incipiente e amplo que começa a modelar um novo Brasil.Mas um novo Brasil que ainda vai precisar de outros ingredientes que dê sustentação a essa nova cidadania: ensino público de qualidade, educação em seu amplo sentido para que essa pessoas não se limitem apenas à condição de “máquinas de consumo” irrefreado,  detonando de vez o precário equilíbrio do planeta.

Distribuir renda não é difícil.É até rápido.Distribuir informação de qualidade é que são elas!E o pior é que são fenômenos com ritmos diferentes.E não estou falando de baião, xaxado e xote.Apenas não quero que toda essa conquista, no futuro,não passe de “espumas ao vento”, como grifou Aciolly Neto, numa bela canção nordestina.Viva São João!

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