jun 21

 

No último dia 10, João completou 80; no dia 18, Maria fez 65.Quem os vê como grandes artistas, que são, estão absolutamente certos; afinal é dessa maneira que eles chegam ao nosso conhecimento, melhor ainda, à nossa sensibilidade.

Eu – além da visão clássica – vejo-os como escolas, universidades vivas cujas vidas, trajetória e talento deveriam ser objetos de estudo, com cátedra própria em instituições superiores do Brasil.Ou mais e melhor: matérias do fundamental e médio, ao lado de matemática, história,Português e outras mais.Por João, aprenderíamos a seriedade da pesquisa, a ouriversaria da forma, os caminhos precisos da harmonia com dissonâncias, a economia dos sons e a epifania do belo.Tantos valores que a corrida do cotidiano e a leviandade das relações ordinárias vão apagando, deixando para trás como nota esmaecida, submetida ao consumo imbecil e ao individualismo tosco.João é uma aula de humanismo musical que se contrapõe a tudo isso!

Não à toa( e eu já fiz a mesma pergunta a muitos) todos os que foram marcados por João lembram-se nitidamente da hora, dia, lugar, cor do céu, intensidade do vento, do milionésimo segundo do momento em que ouviram “Chega de Saudade”, para que suas vidas não fossem mais as mesmas.Que aula!Que inesquecível aula!

Maria, por determinados aspectos, é a anti-João.A voz potente,gestos arrebatados de quem interpreta, intensa presença em tudo que faz.A única cantora que eu já vi/ouvi fazer pausa de ponto-e-vírgula e dois pontos ao cantar uma canção(em “O Ciúme”, de Caetano e “Vila do Adeus”, minha e de Roberto Mendes).Maria é uma lição de dignidade, fidelidade à Arte, entrega ritual ao seu ofício, senso ético a qualquer prova.

De vez em quando “ a canalha infernal” brasileira tenta respingar o veneno de sua sordidez sobre João e Maria.Eles, impávidos, olvidam.Pensando bem, que som de animal rastejante poderia alcançar a altura das estrelas?

João e Maria representam o Brasil dos meus sonhos.Como vocês podem ver, é belissimamente ambicioso o meu sonho de Brasil.Parabéns aos dois.

 

                      Jorge Portugal é educador e compositor

                      E-mail> secretaria@jorgeportugal.com.br

jun 17

 

“COPA “ ENEM: 6 MILHÕES JOGANDO O FUTURO.

Se você prestar atenção, é muito semelhante a um campeonato nacional de futebol: há Série A e Série B, times de ponta e elencos de enorme pobreza, craques revelados pelo grande esforço e talento, jogadores que se recusam a “suar” a camisa, pondo-se sempre na linha de impedimento, e os técnicos, bons e ruins, curiosamente chamados por ambos os grupos de…professor!

Pois bem, longe muito longe da atenção que a mídia tupiniquim dá às estrelas do futebol brasileiro, enchendo suas páginas e telas com notícias e fotos fartas , semana passada fecharam-se as inscrições do ENEM, hoje o grande vestibular nacional, e o número de candidatos surpreendeu até a mais otimista das previsões: 6 milhões e duzentas mil pessoas deixaram clara sua vontade de estudar e tentar uma vaga no nível superior de ensino.

Como num campeonato, os estudantes dos colégios particulares do sul-sudeste, à semelhança dos clubes de elite(São Paulo,Flamengo,Santos etc) saem na frente com uma grande vantagem: por lá, no mínimo, os professores compareceram a todas as aulas e, ganhando salários compatíveis com sua importância, deram o melhor de si nas aulas ordinárias e ainda extrapolaram em revisões, aulas extras e paciente atendimento personalizado aos alunos com acentuada dificuldade.Desses times, ou melhor, colégios, muitos estudantes prestam o ENEM de olho nas muitas Universidades Federais de ponta espalhadas pelo país.E são, sem dúvida, os primeiros a preencher as melhores vagas.

Na outra ponta, os colégios públicos do centro-oeste, norte-nordeste parecem entrar em campo para tentar um empate honroso ou assumir a “lanterninha” da competição.Por lá, há meses, não aparece professor de Química, Física, o de Redação foi uma vez e não mais voltou, inúmeras greves paralisaram o ano letivo, e dinheiro para aulas de reforço, nem pensar!São os times de várzea, ou escolas da pobreza cujos alunos ainda veem o ENEM como passaporte para o PROUNI, chance de ingressar em uma faculdade privada( nos dois sentidos, em alguns casos), com o governo pagando suas mensalidades. Em outros casos, é o ENEM ,agora, a possibilidade de conseguir o certificado de conclusão do ensino médio, para os que já tinham ancorado no meio do caminho.

E assim esse exame nacional – para o qual bato palmas, sim! – ainda é um claro indicador das nossas desigualdades sociais, aprofundadas pela má-distribuição da informação e do saber.O que precisamos- e já – é de providências públicas velozes, em parceria ou não com a sociedade civil, para qualificar nosso estudante do ensino médio, em qualquer ponta do país, a fim de que o seu time ( o seu colégio) não se veja eternamente condenado a disputar a “segundona” da nossa educação.E da vida, é claro.

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jun 3

 

Notícia pra valer para mídia tupiniquim é escândalo com celebridade, muito sangue nas tragédias cotidianas ou o espetáculo sem fim da corrupção nacional.Pronto, aí está o tripé com que os “formadores de opinião” tentam entupir nossas cabeças e nos manter paralisados diante da vida.

Por isso, quase ninguém notou numa pequena nota que alguns poucos jornais veicularam há uns quinze dias: “Desigualdade no Brasil cai a seu nível mais baixo em 50 anos”. E mais e melhor: “educação é o fator responsável por  tal acontecimento” Aí o leitor apressado pode pensar: “ mas não dizem que nossa educação, sobretudo a básica, é um horror?”.Continua sendo, caro(a) leitor(a).Ocorre que é “ lá na ponta” que está se dando o milagre.Seguinte: com a política de cotas, o Prouni,os cursinhos sociais e a construção de mais universidades públicas, um número jamais visto de jovens negros e pobres vem tendo acesso ao diploma de nível superior, disputando e ganhando vagas prestigiadas no mercado de trabalho, recebendo bons salários e, com isso, diminuindo a desigualdade social no país. Não é uma bela notícia? Melhor, para nós, do que o casamento do príncipe inglês ou a última peripécia sexual de Lady Gaga, concorda? Não é uma sociedade menos desigual que tanto queremos? Com mais pessoas satisfeitas, menos violência e mais segurança para todos? Pois bem, a educação, com as políticas compensatórias, está conseguindo isso.E é só o começo! O que não dispensa, de jeito nenhum, luta sem trégua por um ensino básico de qualidade, para que, no futuro, nem dessas políticas de reparação precisemos.

Outra notícia maravilhosa que “passou batida”, na semana passada: “Governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, institui cotas para negros e índios em concursos públicos”. Sim, sim, sei que demétrios e demóstenes vão bradar a morrer, invocando a existência de uma só raça humana(argumentinho mais conveniente e calhorda!), cobrando meritocracia, como se um grupo étnico que teve contra si políticas perversas e excludentes de estado por cerca de 400 anos, tivesse a chance de construir mérito pelo conhecimento! Parabéns, governador Cabral, Vossa Excelência demonstra conhecer profundamente o país em que vive, o estado e o povo que governa.Menos desigualdade vindo por aí.

  espero – e sei que não vou esperar em vão – que o governador do meu estado, Jaques Wagner, homem público de sensibilidade social invulgar,tome a mesma iniciativa aqui na Bahia, a unidade da federação mais negra do Brasil , situada no Nordeste, periferia histórica de todos os benefícios da nação.

Gostaria muito que essas notícias estivessem na primeira página dos nossos jornais, portais e TVs.Não estiveram, assim como não esteve a notícia da morte de Abdias Nascimento. Mais do que nunca ficam valendo as palavras do poeta: “ A felicidade do negro é uma felicidade guerreira”. A bênção, mestre Hélio Santos!

 

                                    Jorge Portugal – Educador e Comunicador

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