mai 24

 

 

Não, gente, podem ter certeza de que não errei a data.Sei muito bem que hoje são 24 de maio, véspera do 25, dia da África, efeméride talvez desconhecida por muitos.Mas eu quero falar mesmo é do dia 14 de Maio de 1888, o dia seguinte ao 13, da Abolição.Devo dizer, de saída, que não me alio ao repúdio puro e simples à data da Lei Áurea.Na boa reflexão do poeta Capinan só os que se viram livres das algemas, que não mais submeteriam o corpo ao tronco e às torturas é que souberam o tamanho da alegria de viverem em liberdade.Não à toa, os negros de Santo Amaro, desafiando a poderosa Igreja Católica, a sociedade aristocrática branca de então e a polícia, levaram todos os candomblés a bater em praça pública, no 13 de Maio de 1889, para comemorarem o fim da escravidão.E não pararam de o fazer até hoje.

Mas, voltando ao 14 de Maio. O dia anterior foi só alegria.No dia seguinte, entretanto, os ex-escravos já começavam a sentir o peso de uma liberdade sem cidadania,sem inclusão social e pior: com o próprio estado brasileiro estabelecendo medidas legais e institucionais para negar quaisquer benefícios ao negros, jogando-os na vala da marginalidade, tornando-os “gente diferenciada”.No excelente livro “ Cor da Pele”, que deveria ser leitura obrigatória de todos, o Dr. Almiro Sena, hoje secretário da Justiça e Direitos Humanos da Bahia, lista uma série dessas medidas, que tranformaram o dia 14 de Maio numa longa noite de tormentos e negações para a nossa etnia.A promoção da imigração da mão de obra europeia, tirando dos negros a remuneração por um trabalho que eles fizeram por 350 na condição de escravizados; o Código Penal de 1890, tipificando como crime a capoeiragem, a mendicância, a vadiagem e o curandeirismo; a inacessibilidade, aos negros, à educação de qualidade e à posse de terras.123 anos depois ainda sofremos os efeitos desse crime perfeito.

Se o estado brasileiro “inventou a tristeza”, ele mesmo “ tenha a fineza de desinventar”.Por isso, pense quatrocentas vezes antes de condenar as cotas e as políticas públicas de reparação, viu?

 

                                                   Jorge Portugal

          Educador e Comunicador.E-mail: secretaria@jorgeportugal.com.br

mai 23

 

 Faça um sincero exame de consciência, agora, e me responda:

- Você acredita que se tivéssemos uma rede pública de ensino de qualidade, o jogo da competição entre os nossos jovens estaria empatado, e a partir daí valeria apenas o talento?

-Acredita, também, que com essa rede pública acima referida, não haveria mais necessidade de cotas para a juventude negra e pobre dos colégios estaduais?

-Por fim, você crê , com a lucidez dos que pensam profundo, que, cumpridos todos os itens acima pelo estado brasileiro, aí, sim,teríamos completado nosso processo de abolição e instaurado, definitivamente, a república entre nós?

Pois, se você acredita sinceramente em tudo isso, pode ter certeza: você é um(a) educacionista.Só não sabia.

O Educacionismo, expressão-conceito criada pelo educador  Cristovam Buarque, é , principalmente, um movimento da cidadania brasileira que tem por bandeira principal a “educação como única revolução necessária e possível”.Entendemos que, na sociedade do conhecimento, cada minuto que perdemos pode representar décadas de atraso, frente à inaceitável taxa de analfabetismo que temos e o desqualificado ensino médio que oferecemos aos nossos jovens.Tornamo-nos ,há séculos, verdadeiros exterminadores de gênios que sequer tiveram a chance de se revelarem; estudantes que completam o segundo grau e não têm mais como progredir na sua marcha rumo à universidade ou a uma inserção digna no mercado.Uma juventude diariamente cooptada pelo crime organizado, porque a transformamos num exército de reserva do mal.

O Educacionismo, além de suas bandeiras já conhecidas, possui também um conjunto de ações bem delineadas: a lei do piso nacional do salário do professor, da autoria do senador Cristovam, pelo qual precisamos lutar decididamente, pois que existem governadores e prefeitos arranjando desculpas inaceitáveis para não pagar; a lei 11.700, pela qual crianças a partir de quatro anos de idade têm direito a uma vaga na rede pública, em escola próxima à sua casa; e o projeto de lei, do mesmíssimo Cristóvam, que propõe a federalização do ensino básico, ficando este sob a responsabilidade da União,com professores, diretores e demais funcionários ,com o seu plano de carreira assegurado e recebendo salários compatíveis com os de funcionários do Banco do Brasil, Caixa Econômica e outras estatais.

Gostou? Então junte-se a nós.Vamos fazer do Educacionismo um movimento da magnitude das “Diretas Já” , ou do  “Impeachment de Collor”.Acima de partidos, ideologias, crenças religiosas ou idiossincrasias quaisquer.Lembre-se: não existe país de “primeiro mundo”; há, sim, povo “de primeiro mundo”. E isso só se faz com ensino público de qualidade.Entre nessa!

 

                                                                               Jorge Portugal

 

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mai 11

 

Em semanas de Bin Laden, casamento de príncipe e beatificação de Papa, educação não entra.Por isso, fui descobrir na sétima página de um poderoso jornal paulista, a melhor das notícias que poderia receber:”Desigualdade é a menor em 50 anos, e educação é o principal motivo da distribuição mais igualitária”.Políticas de ações afirmativas, Prouni e a explosão dos cursinhos sociais certamente respondem por isso.Mais pobres no ensino superior,melhor renda, melhor vida.Sinceramente, leitor(a), você não acha que essa notícia deveria vir até num canto qualquer da primeira página?

Na Bahia,Pacto pela Educação; Pronatec no Brasil.O primeiro apresenta dez metas ambiciosas, calçadas na parceria entre o estado e municípios,e dispõe-se a: extinguir o analfabetismo escolar,ampliar o acesso à educação integral, combater a repetência, valorizar o profissional da educação e promover sua formação, estimular as inovações e o uso das tecnologias como instrumentos pedagógicos e outros itens que, com a ajuda e participação da cidadania, ou seja, todos nós, poderá transformar-se em uma bela revolução.Já o Pronatec, lançado pela presidente(a) Dilma Roussef mira o fortalecimento e a ampliação do ensino profissionalizante médio, em um país que cresce  5% ao ano, mas já começa a vislumbrar um apagão de mão-de-obra qualificada segurando o pique da economia.

São três notícias pra deixar a alma de qualquer educador em festa.Mas, gente, meu coração bateu ainda mais forte e apaixonado há cerca de dez dias quando entrei no Colégio Djalma Pessoa, do Sesi, na Av. Orlando Gomes.O velho professor viu ali a escola dos sonhos.Mantido pela FIEB,tem instalações impecáveis, laboratórios de ciências de primeiríssima linha, teatro, programação cultural intensa, professores capacitados e motivados e 1.600 alunos  com os olhos brilhando de inteligência e contentamento.Ali, sem que ninguém me ouvisse, cantei baixinho para aquela maravilha: “ se todos fossem iguais a você…”

 

                                            Jorge Portugal

       Educador e comunicador.E-mail> secretaria@jorgeportugal.com.br

mai 7

 

Você, que está lendo este artigo agora, deve ser pessoa pertencente à classe média ou média-alta, não?Pois bem, devo-lhe dizer que até hoje não entendo sua compulsão por pagar duas vezes pelo mesmo serviço.Há anos parece que você firmou um indissolúvel casamento com a bitributação.Senão vejamos: você paga impostos para ter segurança e tranqüilidade no seu dia a dia; entretanto, paga mais ainda para morar num condomínio fechado ou em algum prédio cercado de câmeras por todos os lados.Você também paga impostos para ter direito a hospitais de ponta e assistência médica decente, não é? No entanto, “morre” numa quantia considerável mensal para garantir um bom plano de saúde.E, por fim, só para ficarmos em três exemplos, no imposto que você paga vai um percentual considerável para que seus filhos tenham boas escolas públicas e um padrão de ensino, no mínimo, satisfatório.E o que ocorre?Haja dinheiro para colégio particular e, a depender do número de filhos, isso vira uma pequena fortuna. Faça as contas direitinho e veja o quanto voltaria para o seu bolso se nós, da classe média,abraçássemos uma luta sem trégua por serviços públicos de qualidade!

Fico, por enquanto, com a luta por uma escola pública decente que é, para mim, a mãe de todas as outras lutas.Pelo simples fato de que uma pessoa bem informada, com boa visão de mundo e consciência cidadã saberá muito bem afastar o que de ruim ou inconveniente tente se aproximar de sua vida.Saberá lutar por um ótimo sistema de saúde, por boas estradas, pelos zelo necessário com o meio ambiente, pela sustentabilidade da vida no planeta.Assim como você faz, assim como eu faço.Dê escolarização e educação de qualidade a um povo, que do resto ele cuidará.

Além do mais, na escola pública, teremos a primeira aula de democracia e respeito às diferenças.Numa sala de aula sem apartheid, estudam o filho do deputado e o filho do gari; o filho do gerente do banco e o filho do contínuo; o filho do empresário e o filho do camelô.Uma sala com todas as classes e de todas as cores.E pela qual já pagamos altos impostos! Só pra lembrar: se já foi assim um dia, por que não pode voltar a sê-lo?

Por isso estou em campanha desde o artigo passado.Precisamos provocar uma audiência pública no senado para que seja discutido o projeto 480/2007, de Cristóvam Buarque, que prevê para” daqui a sete anos,que todo detentor de mandato público, de vereador a presidente, seja obrigado a matricular seus filhos na rede pública de ensino do Brasil”. É o que chamo de “bomba do bem”.Falta apenas o senador Antônio Carlos Valadares, o relator do projeto, retirá-lo da gaveta, onde dorme há quatro anos.Use o twitter, o facebook, mande e-mail para o relator. Isso é infocidadania.E-mail  dele:antoniocarlosvaladares@senador.gov.br

A luta continua, classe média!

JORGE PORTUGAL  > E-mail: jorgeportugal@terra.com.br

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