Cenas de um carnaval sem carnaval
Cena número um: no estúdio da TVE, no Campo Grande , quinta-feira à noite,nove horas, eu e o Prof. Jaime Sodré já nos queixávamos dos não-acontecimentos da primeira noite de carnaval, quando à nossa esquerda, não mais que de repente, irrompeu aquele caminhão de luz, trazendo a dinastia Macedo, Armandinho à frente, e daí em diante foi contada a história do carnaval, através de todas as músicas que fizeram seu sucesso e glória. Pensei: “ meu carnaval já está pago”.
Cena número dois: sábado, circuito Barra-Ondina. Os olhos já cansados de verem os mesmos blocos de trio – mudando apenas o cantor – já lá pras duas da manhã, se arregalaram em desmedida alegria quando despontou Luiz Caldas – o verdadeiro inventor dessa nova etapa do nosso carnaval. Vinha comandando o trio Tapajós, como se um filme tivesse voltado trinta anos na minha memória. De repente, de novo, vejo um senhor de boné levantar-se com alguma dificuldade do andar superior do trio e acenar para mim: Orlando Campos, o homem que modernizou o “caminhão da alegria” e assegurou a festa do povo baiano, quando a festa ainda era de graça. Pensei: “agora já estou devendo ao carnaval”.
Cena número três: já pelas três da manhã, quando tudo parecia encerrado, um mar de gente negra, pobre, misturada – uma massa compacta em bloco que eu ainda não tinha visto até ali, invadiu o circuito da Barra vigiada fortemente pela Polícia e comandada pelo novo “Zumbi do carnaval”, Léo Santana. Parecia um quilombo de alegria vivendo sua apoteose no pedaço da classe média baiana. O “Rebolation” tomou conta de tudo e arrastou turistas, malandros, patricinhas, periguetes e avulsos, misturando arrocha e pagode numa música só.
Claro que vi também Ivete, Bell Marques, Timbalada, Daniela, e até recebi uma declaração de amor pública de minha ex-aluna Claudinha Leitte.
No dia seguinte soube de uma proposta que deseja privatizar o carnaval, em lugar fechado, com acesso apenas para a classe média alta e os turistas endinheirados. Mais parece uma volta aos bailes de salão, retomando a época do Baiano de Tênis e do Yatch.
Pensei: “vai ser uma festa sem Armandinho, Luiz, Orlando, Ylê, sem rebolation… e sem carnaval!
Jorge Portugal
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