Relata-me Geraldo Salles, à época servindo ao Tiro de Guerra 138 e testemunha ocular do fato:
“ Era um fim de tarde de 1964, primeiros dias após o golpe militar.O tenente Garcia, homem do Exército na cidade, compelido pelos seus superiores a prender o grande líder comunista do lugar, via-se num beco sem saída: era amigo pessoal do acusado, conhecia-lhe o caráter e a integridade embora discordasse de sua ideologia.Usou, então, o expediente de mandar um recado em código por um amigo comum, orientando-lhe a negar seu credo político no momento do interrogatório, já agora impostergável.Nada lhe aconteceria se dissesse NÃO.
- Então, senhor Maurino, o senhor é comunista?
- Nasci comunista, sou comunista e vou morrer comunista.E após a resposta, colocou o distintivo do Partido na lapela, e marchou solene e serenamente para a cadeia municipal, escoltado pela tropa”.
Naquele momento, o Camarada Maru ficou maior do que o Partido, maior do que a cidade, maior do que a ditadura, maior do que todos nós.Na sua “ tenda de barbeiro” , na sua limitação material de homem pobre, na sua responsabilidade gigantesca de pai de enorme prole, permaneceu íntegro e fiel aos seus ideais, mesmo que isso lhe custasse a “ tenda”, a família e a vida.
Comunista que tinha em sua casa dois grandes retratos de Marx e Jesus Cristo, já em idade avançada, via-o, em tempos de campanha eleitoral, na ponte das moringas,hierático e impassível, sob um forte sol de verão, carregando uma placa feita de papelão, propagando a candidatura de Fernando Santana, do PCB, seu amigo e camarada de toda uma vida.
Tornou-se o meu herói, meu mestre e meu paradigma, embora, se cem anos me fossem dados, eu jamais chegaria a um terço do seu incomparável valor.
Influenciou e humanizou muita gente: Trigueiros, Antônio Rocha, Valter Bacalhau,Prof. Carlos Augusto, None, e o próprio Caetano, um dia, confessou sua enorme admiração por aquele homem de “ idéias firmes e elegância ímpar” .
Na última semana, enterraram seu corpo no Campo da Caridade.Minha cidade ficou mais pobre.E eu, do outro lado do Atlântico, não pude estar presente para cantar baixinho no seu ouvido de um corpo inerte que parecia dormir feliz: “ Camarada Maru, ainda guardo aquele sonho que você sonhou pra mim”.
*Jorge Portugal
Educador, poeta e membro do Conselho Nacional de Política Cultural.
Postado em 06/10/2009 ás 21:







