Era de se esperar o chilique de certa elite brasileira quando do lançamento do Vale-Cultura. Através de editoriais raivosos, bem no estilo udenista, os dois “jornalões” de São Paulo desancaram o projeto com expressões exaltadas que beiravam o xingamento: “projeto eleitoreiro”, “vale-tudo”, “bolsa-circo” e por aí foram.
Como conhecemos muito bem o sub-texto desses parágrafos solertes – a não-aceitação do sucesso de um operário nordestino, sem diploma universitário na presidência – entendemos perfeitamente o papel dessa turma e o roteiro a ser seguido. É apenas uma variação de outros textos que vociferam contra o “Bolsa-família”, o Prouni, e as políticas de ações afirmativas.
Dessa vez os argumentos, combinados, apontavam para o fato de que o valor do Vale-Cultura poderá ser usado para o consumo de espetáculos de “baixo teor educativo”, ou para comprar livro de autoajuda, ou ainda cd’s e dvd’s de artistas populares. Temem que os nossos operários se recusem a freqüentar apresentações de orquestras sinfônicas ou não gastem os cinqüenta mangos comprando um livro de James Joice.
Eu também, como educador idealista incorrigível, adoraria que os milhões de trabalhadores brasileiros já saíssem com o vale na mão, correndo para assistir a uma peça de Vianinha ou a um filme de Gláuber. Mas, é bom lembrar, que essa porcariada toda que abastece o repertório do povão é alimentada por essa mesma mídia que dedica páginas e horários nobres ao culto das celebridades e à comunicação do grotesco.
Agora pergunto: qual é a tragédia que há no fato de que uma pessoa que jamais leu livro algum compre um título de autoajuda para iniciar seu caminho de leitor? Se a leitura de o “Alquimista” levá-lo, mais tarde, às paginas do “Alienista”, já está valendo o Vale-Cultura.
Depois, esses argumentos se parecem muito com aqueles que há cinco anos condenavam a política de cotas, alegando que a entrada de alunos pobres (e negros) por esse sistema iria rebaixar o nível da universidade. Revelou-se justamente o contrário!
Óbvio que articular o novo currículo do ensino médio, que já reclama um bom repertório cultural por parte da moçada, com esse “adicional” para o consumo de cultura no bolso dos pais, pode, sim, criar o melhor dos mundos. Mas esse é um processo que começa a começar exatamente aqui, neste Brasil de Lula, Juca e Hadad.
Agora, a esses “torcedores do pior” e demófobos em tempo integral, deixo a resposta lúcida do paulista Vítor Maximo, enviada ao “painel do leitor” da Folha de São Paulo:
“Não sei se essa iniciativa do governo irá funcionar, mas é bom lembrar que milhões de brasileiros nunca foram a um cinema, que dirá ao teatro. Quanto às possíveis escolhas do público contemplado com o vale por “espetáculos comerciais”, devo dizer que só fui conhecer Fellini depois de Mazzaropi e Jerry Lewis.
Podiam dormir sem essa, não é?







