ago 31

 

Quando o tema é educação e o défict educacional do país, principalmente no tocante ao ensino médio, não tenha dúvida: os meios de comunicação ainda não fizeram um terço do tanto que podem nessa área.   A  sub-utilização de TV, rádio e Internet é algo tão absurdo que chega à condição de crime de lesa-juventude.

 

O que nos fazem crer é que os pensadores e fazedores da educação tristemente ignoram que o mundo chega hoje à moçada através da tela da TV e do computador. Que a sala de aula é importante, fundamental, porém deve estar cada vez mais conectada a esses “mass-mídia”, por sua vez  elevados à condição de salas de aula complementares.

 

Dou dois exemplos aqui da Bahia e sem precisar sair de casa.

 

Há nove anos propusemos à grade de programação da Rede Bahia, o Aprovado! Seria um programa de TV,  uma espécie de revista de educação e cultura, com linguagem clara e ritmo ágil,  que costurasse assuntos de interesse do pré-vestibulando, informações sobre profissões e mercado de trabalho, dicas de matérias dadas pelos melhores professores dos cursinhos baianos e, de quebra, um convidado musical que pontuasse com suas canções toda essa conversa informativa e agradável.  Não deu outra: os pessimistas que vaticinaram o fracasso imediato do projeto tiveram que engolir a longa vida do programa e sua impressionante pontuação no Ibope.  Estamos falando de uma “sala de aula complementar” com quase dois milhões de alunos-espectadores espalhados por todo o território baiano.  Pois bem, mesmo tendo como convidados expoentes do pensamento e da pesquisa baianos, figuras de renome nacional no campo da cultura, temas de alta relevância do saber contemporâneo, o Aprovado! jamais foi citado como fonte de alguma questão de vestibular, ou utilizado com alguma regularidade como conteúdo de reforço para estudantes do ensino médio.  Um verdadeiro desperdício!

 

Um dia, ministrando aula em um colégio da  elite baiana, uma estudante me interrompeu e fez-me uma pergunta entre a indignação e a esperança:

 

- “Portuga, por que as nossas aulas daqui não são iguais às do Aprovado? Aqui a gente fica olhando toda hora para o relógio e lá a gente nem sente quando o tempo passa”. É sinal de que algo “ali” está dizendo alguma coisa a eles.

 

Recentemente lancei um site de educação na internet:www.redeeduca.com.br.  Em apenas duas semanas já temos cerca de 50.000 visitas de todo o Brasil e boa parte do mundo, e contamos com 18.000(dezoito mil) estudantes que regularmente entram nesse portal e ficam pesquisando em um tempo médio de duas horas, todos os dias.  Mas lá temos aulas em vídeo postadas na web TV, conteúdo escrito sobre as atualidades de todas as áreas,  aulas em áudio, o Quiz Educa( teste de avaliação instantâneo) e outros atrativos para essa turma que já nasceu “olhando um computador”.

 

 

Como se vê, pode custar muito pouco ligar o mundo das pessoas ao mundo do saber. Basta fazer com engenho e arte.  Volto ao tema em breve.

 

ago 31

 

Maria da Penha, Maria  que  empenha  sua  vida  para  libertar  e  libertar-se.

Maria  que  carrega  em  si  o  sangue  e  a  história  de  outras  Marias, mesmo  que  Maria  não  se  chamem.

Maria Quitéria, Maria Felipa, Luiza Mahin, Olga Benário, Ana Montenegro, Joana Angélica, Mãe Menininha, todas  que  tiveram  força  para dizer  NÃO  quando  o mundo  as  obrigava  a  dizer  sim.

Maria da Penha, a que fez seu sofrimento virar lei.  Pela coragem, pela persistência, pela crença na luta sem tréguas,  pela  força  da  condição  feminina  elevada  ao  altar  da  condição  humana.

Marias pagavam caro no mundo dos Josés, dos Joões, dos Joaquins.  O sexo frágil, a dor calada, a espera resignada.

O pai,  o irmão,  o marido:  a máscula  sucessão  da  força  que  manda,  que  provê, que  impõe.

Maria da Penha  sentiu no corpo essa força, mas buscou mais força dentro de si e tornou-se  forte frente a tudo isso.

Maria da Penha, pessoa e símbolo. Referência  que se faz  farol em um momento de turbulências e  sombras.

No dia 09 de Setembro, Maria da Penha estará conosco, aqui em Salvador, e falará com a voz de todas as mulheres.

Vamos  aplaudi-la.   De  pé.  Como  se  devem  aplaudir  os  que  dão  a  vida  para  a vida  não  perder.

 

 

 

 

ago 7

 

Era de se esperar o chilique de certa elite brasileira quando do lançamento do Vale-Cultura. Através de editoriais raivosos, bem no estilo udenista, os dois “jornalões” de São Paulo desancaram o projeto com expressões exaltadas que beiravam o xingamento: “projeto eleitoreiro”, “vale-tudo”, “bolsa-circo” e por aí foram.

 

Como conhecemos muito bem o sub-texto desses parágrafos solertes – a não-aceitação do sucesso de um operário nordestino, sem diploma universitário na presidência – entendemos perfeitamente o papel dessa turma e o roteiro a ser seguido. É apenas uma variação de outros textos que vociferam contra o “Bolsa-família”, o Prouni, e as políticas de ações afirmativas.


Dessa vez os argumentos, combinados, apontavam para o fato de que o valor do Vale-Cultura poderá ser usado para o consumo de espetáculos de “baixo teor educativo”, ou para comprar livro de autoajuda, ou ainda cd’s e dvd’s de artistas populares. Temem que os nossos operários se recusem a freqüentar apresentações de orquestras sinfônicas ou não gastem os cinqüenta mangos comprando um livro de James Joice.

 

Eu também, como educador idealista incorrigível, adoraria que os milhões de trabalhadores brasileiros já saíssem com o vale na mão, correndo para assistir a uma peça de Vianinha ou a um filme de Gláuber. Mas, é bom lembrar, que essa porcariada toda que abastece o repertório do povão é alimentada por essa mesma mídia que dedica páginas e horários nobres ao culto das celebridades e à comunicação do grotesco.

 

Agora pergunto: qual é a tragédia que há no fato de que uma pessoa que jamais leu livro algum compre um título de autoajuda para iniciar seu caminho de leitor? Se a leitura de o “Alquimista” levá-lo, mais tarde, às paginas do “Alienista”, já está valendo o Vale-Cultura.

 

Depois, esses argumentos se parecem muito com aqueles que há cinco anos condenavam a política de cotas, alegando que a entrada de alunos pobres (e negros) por esse sistema iria rebaixar o nível da universidade. Revelou-se justamente o contrário!

 

Óbvio que articular o novo currículo do ensino médio, que já reclama um bom repertório cultural por parte da moçada, com esse “adicional” para o consumo de cultura no bolso dos pais, pode, sim, criar o melhor dos mundos. Mas esse é um processo que começa a começar exatamente aqui, neste Brasil de Lula, Juca e Hadad.

 

Agora, a esses “torcedores do pior” e demófobos em tempo integral, deixo a resposta lúcida do paulista Vítor Maximo, enviada ao “painel do leitor” da Folha de São Paulo:

“Não sei se essa iniciativa do governo irá funcionar, mas é bom lembrar que milhões de brasileiros nunca foram a um cinema, que dirá ao teatro. Quanto às possíveis escolhas do público contemplado com o vale por “espetáculos comerciais”, devo dizer que só fui conhecer Fellini depois de Mazzaropi e Jerry Lewis.

Podiam dormir sem essa, não é?