jul 21

 

Na década de setenta, com o mundo inteiramente em preto-e-branco, tínhamos que escolher um lado. Os que queríamos mudar o mundo, fazer a revolução socialista e implantar uma sociedade mais justa e igualitária não deveríamos, de preferência, dar bom-dia à turma conservadora ou reformista ou até mesmo aos suspeitos que preferiam o silêncio cauteloso à comprometedora e perigosa exposição de suas opiniões. ”Prepare o seu coração pras coisas que eu vou contar…”; “podem me prender, podem me bater que eu não mudo de opinião”; ou, culminância das culminâncias, “vem vamos embora que esperar não é saber”. No coração da esquerda enfezada não havia lugar para “eu te darei o céu, meu bem e o meu amor também”.

 

Por isso, passei boa parte de minha juventude execrando Roberto Carlos. Para mim (para nós), se ele não era propriamente um agente da ditadura, a ela servia com suas baladas românticas, cantigas de ninar um povo alienado, entorpecido ante o clamor da revolução. Lembro-me muito bem dos meus bate-bocas com um colega de ginásio em Santo Amaro, Heron Magalhães, que amava “as canções que você fez pra mim”, ao que eu contrapunha “o quintal de minha casa não se varre com vassoura…”.

 

Não preciso dizer da crise de identidade que vivi quando, em 1971, ele “estourou” “Debaixo dos caracóis dos seus cabelos” dedicada a Caetano Veloso. Não podia! Caetano era um dos nossos, da vanguarda musical revolucionária e não ficava bem ser alvo de homenagens do rei da juventude alienada.

 

Anos (e homens) duros. Duríssimos anos (e homens).

Todo esse filme me veio à mente, sem cortes, enquanto eu assistia ao show comemorativo de 50 anos de carreira do Rei, no último 11 de Julho.

 

Em meio ao reencontro com aquele garoto enrijecido que parecia rir de mim lá do túnel do tempo, me surpreendi cantando, sem vacilar ou esquecer, todas as canções que Roberto desfolhava do seu repertório clássico. Então me dei conta de que, hoje, aos 50 e poucos, certamente já não me lembro da metade do repertório de Vandré, Caetano ou Edu, mas me recordo inteiramente de tudo, tudo mesmo que Roberto cantou.

 

Acho que não só eu. Posso garantir que o mesmo sentimento vibrava em milhões de brasileiros.

Os outros, da chamada “ala emepebista”, compuseram o repertório da nossa fé racionalista, da nossa leitura intelectual do mundo e muito nos ajudaram em um momento de longo silêncio e ranger de dentes.

 

Mas Roberto falava à nossa emoção, sem sofisticação ou filtros. Acariciou, o tempo todo, nossas alegrias e dores de amores. Foi o mestre maior de nossa educação sentimental. Foi fundo. Foi no mais fundo de cada um de nós. E por isso ficou.

 

Creio que daqui a dez mil anos, quando um ET de outro planeta qualquer vier visitar este planeta extinto pela estupidez humana, e se pousar em algum lugar onde existiu um país chamado Brasil, poderá surpreender-se ao ouvir uma belíssima melodia soprada pela voz do vento: “eu tenho tanto pra lhe falar, mas com palavras não sei dizer como é grande o meu amor por você”. Obrigado, Roberto.

 

 

 

 

 

 

jul 9

 

No dia 20 de Junho estava eu em Milão, na Itália, para receber o prêmio Ágape, em reconhecimento, pelos italianos, dos projetos sócio-educativos que desenvolvo ou estimulo aqui na Bahia. Foi uma bonita cerimônia, transmitida para o mundo inteiro pela RAI, ocorrida no Castelo San Gaudenzio, uma fortaleza medieval que nos faz entrar no túnel do tempo e voltar aos idos de 1340, ano de sua fundação.

No dia 22, após o evento de premiação, fiz o indispensável roteiro de conhecer Veneza – cidade-sonho ou sonho de cidade? – e seguir para Roma. Em  Roma deu-se um encontro esperado a vida inteira. Ou melhor: um reencontro.

A verdade é que, os que amamos estudar história, temos por toda a existência, o imaginário povoado por fatos, personagens, idéias e lugares da cidade eterna. As aulas sobre a “era clássica”, de Édio Souza e Hélio Rocha, voltam como um filme a que a gente estivesse assistindo na condição de participante. O esplendor da Capela Sistina, com o gênio de Michelangelo obrigando a 500 pessoas de mundos diferentes a olharem para o teto em êxtase coletivo, a monumentalidade do Vaticano e sua Basílica de São Pedro (que deixaria Francisco de Assis estarrecido!), as ruínas do Senado, do Fórum, a Coluna Trajana, o Panteão, enfim, uma cidade-museu a céu aberto para o encanto dos olhos e da memória.

Além dessa Roma histórica, dos etruscos, do império e do renascimento, ainda nos brinda a Roma de Fellini, com a Fontana de Trevi num inesquecível azul a nos estimular a visão dos deuses de uma Anita Egberg- poesia e mulher- alucinando desejos e inspirações de uma “dolce vita”.

Durante todo o tempo na Itália não deixava de me perseguir a frase-chave de Eduardo Galeano na abertura do indispensável “As veias abertas de América Latina” para equacionar as indecentes desigualdades entre povos e nações: “na divisão internacional do trabalho, alguns países se especializaram em ganhar e outros, em perder”. Bem que eu queria estar com a cabeça livre, em férias, tendo os olhos apenas para o deslumbramento e o espírito crítico deixado na gaveta. Mas a frase me martelava o tempo todo, me fazendo voltar sempre ao Brasil, à Bahia, naquela encruzilhada de contrastes que eu percebia e vivenciava.

Óbvio que Roma foi a capital do maior império da história, concentrou no seu território mais riquezas culturais que qualquer outro lugar do mundo e, por isso, tornou-se uma cidade-livro-filme pela qual as pessoas pagam caro para ler-ver-viver. Os italianos são enlouquecidamente apaixonados pela sua história e cultura e já se põem em armas à mais leve insinuação de que exista algum lugar mais importante no planeta.

Voltei para a Bahia com a convicção mais arraigada ainda de que lutar para que as pessoas conheçam a sua história, a sua cultura e façam disso armas da cidadania é o que pode justificar minha passagem por esse planeta e dar certo sentido a minha vida. Por isso eu fui à Itália.
 

 

 

 

jul 7

 

Na semana de morte do ídolo pop, assisti o filme sobre a vida e obra de Wilson Simonal. O aniversário de sua morte - 25 de junho - coincidiu tristemente com a morte de Michel Jackson e fez-me lembrar do aniversario de nascimento de João Cândido - 24 de junho. Um resgate necessário sobre as dúvidas em relação ao seu talento e sua vida pessoal. Simonal não era informante do DOPS, nem delator de colegas artistas. Era sim um bólido no mundo artístico que, como disse Mário Prata, acusado injustamente, não foi anistiado nem pela esquerda nem pela direita. Simonal recebeu uma espécie de anistia pelo governo Collor em 1991, 17 anos depois de ter sido acusado de envolvimento com órgãos de inteligência e de repressão.

Michael Jackson também morreu condenado e ridicularizado por muitos. Uma trajetória de brilho e queda. Sucesso de mídia, palco e venda; conseguiu chegar a extraordinária cifra de 750 milhões de discos vendidos;  insuperável. Sua vida tornou-se símbolo de desejo, renúncia e podridão. Foi acusado de pedofilia em 1993. Doze anos depois foi inocentado. Outros tantos admitiram que pudesse ser tudo verdade e a sua miséria veio rápida. Morreu com a pecha de que poderia ter feito tudo diferente.

O Almirante Negro, João Cândido, líder da Revolta da Chibata em 1910, foi internado em um hospital psiquiátrico como louco. Sua anistia só lhe foi concedida 97 anos após sua morte. Isso tudo após uma intensa luta para que os direitos pudessem ser reparados. O projeto de lei de autoria da Senadora Marina Silva é de 2002 e foi sancionado pelo Presidente Lula em 2008. Os anistiados da ditadura militar e seus familiares já recebem suas indenizações. Já os familiares de João não puderam receber tal recurso. O artigo que o garantia foi vetado.

Todos eles ícones em suas áreas e também pretos. Elaboraram textos e mensagens sobre sua condição de negros num período que muitos líderes ficaram calados. Michael reclamou em julho de 2002 contra as gravadoras que exploravam afro-americanos nos Estados Unidos, Simonal ensinou para o filho através da música Tributo a Martin Lhuter King: cada negro que for, mais um negro virá - Para lutar com sangue ou não - Com uma canção também se luta irmão, João Cândido manifestou-se junto a outros amotinados Nós, marinheiros, cidadãos brasileiros e republicanos, não podemos mais suportar a escravidão na Marinha brasileira“.

Não gosto dos textos que os tratam como coitados. São apenas símbolos paradoxais de seu tempo. Os três não se livraram da condição de serem olhados, desejados e repelidos como negros. Apesar de eles terem pensado em algum modo de não ser negros. Muitos choram arrependidos a covardia de nada terem feito quando deveriam fazê-lo. A inveja mórbida da alegria exorbitante do negro paira em nós como um simulacro de um mundo que condena o destino do outro pela cor de sua pele e origem. Mataram João, mataram Simonal, mataram Michael e o estigma continua com os nossos deuses e deusas morrendo para serem reconhecidos depois do tempo.

 

Sérgio São Bernardo

sergiosaobernardo.blogspot.com