jun 16

 

No auge da recente onda musical baiana, que começa com Luís Caldas e vem até os nossos dias, costumava-se dizer que tínhamos três “divas”, duas morenas e uma negra. A última, Margareth Menezes, era a que, de longe, possuía menos presença na mídia e tinha as suas canções menos executadas nas FMs nacionais.

 

Embora a primeira a lançar, com estrondoso sucesso, a fórmula musical “samba-reggae”, esse, sim, o mais escancarado atestado da genialidade baiana contemporânea, Margareth não veio a vender milhões de CDs, nem a povoar os horários nobres da TV brasileira.

 

Sei que temos muitas respostas para isso, inclusive a mais recorrente e mais óbvia e é exatamente a que está na sua mente agora querido (a) leitor (a). Aliás, foi a mesma Margareth quem gravou, com razoável sucesso aqui na Bahia, uma música minha e de Lazzo Matumbi que diz: “minha pele é linguagem e a leitura é toda sua!”.

 

Pois bem, com inegável contribuição à nossa cultura e largo reconhecimento nos quatro cantos do mundo, vai Margareth declarar em uma mesa de debates, dentro de contexto específico, que “não gosta desse pagode baiano, sobretudo porque suas letras induzem ao preconceito contra a mulher e ofendem valores muito caros à maioria da população”. Foi o bastante para que boa parte dos pagodófilos e até pagodólatras de última hora caíssem feito feras em cima de nossa diva negra chegando ao extremo gesto de ameaça física.

 

Que é isso? Não se pode ter mais opinião diversa da corrente principal?A pena agora é o paredão para quem “desafina o coro dos contentes”? Só os “condestáveis incontestáveis” podem gritar o seu gosto na mídia, contra o silêncio de todos?

 

Margareth Menezes lidera hoje, na Bahia, o movimento “Afro-Pop Brasileiro”, que reúne os blocos afros – matrizes da música baiana que realmente interessa ao mundo – numa grande celebração de sua diversidade rítmica, mas buscando uma unidade necessária que lhes assegure presença mínima e digna na cena do entretenimento e da cultura nacionais. Esses mesmos blocos que, durante a festa maior, são jogados na invisibilidade das madrugadas, no final do circuito, quando as “lentes do Fantástico” e do Jornal Nacional já foram guardadas na sacola da desinformação e insensibilidade dos que apostam na equação carnaval + celebridades = mercado.


Gosto muito do ritmo do pagode baiano. O samba-chula com viola, tambores e palmas, redescoberto, na década de 80, por Roberto Mendes e Raimundo Sodré e tornado sucesso nacional, através da música A Massa, em um festival da Rede Globo, pariu muitos filhos vinte e tantos anos depois. Agora, como educador, tenho todo o direito de me opor às grosserias e preconceitos disseminados pelas letras dessas músicas pelo simples fato de que, em termos de texto de canção, fui aluno de Chico, Caetano e Gil.

 

É isso. A minha utopia é que, um dia, o povo ainda venha a aprender com os professores que eu tive. Ou, então, “cole na corda”. Viva Margareth!

 

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4 comentários

  1. Tonho Matéria disse:

    poeta esse ficou melhor, poste este ok?

    MARGARETH MENEZES E SEU GRITO DE ALERTA

    Amado poeta, daqui da Europa estou também me reportando contra os falsos moralistas que nada sabem de música e nem tão pouco de cultura negra nesta cidade conhecida como a “Roma Negra” Salvador.
    Assim como nossa diva Margareth, eu e tantos outros artistas negros conscientes estamos de fora dos padrões estabelecidos pela mídia branca que não nos deixam ser entendidos como devemos ser. É por isso que a nossa cidade está se confrontando a cada dia com seus próprios deslizes causados por esta onda de desinformação sócio-cultura e educacional.
    É triste ver uma cidade conhecida como a do “Salvador” sendo tratada de forma brutal. A violência tomou conta de cada esquina e com isso não temos mais direito de ir e vir e nem de ter mais opiniões próprias do que sentimos e do que vimos. Há que ponto chegamos!!!
    Lembro que era através da música que as pessoas se rendiam ao amor, ao prazer de ir assistir ao show de Caetano Veloso e depois sair correndo pras lojas de discos pra comprar um LP. Ali estavam as informações onde essas pessoas poderiam sentar numa mesa de bar e beber o amor confuso, ou de sentar num banco da praça para contemplar a vida e recuperar o tempo perdido.
    Isso mudou. As pessoas vivem aprisionadas dentro de si mesmo e não tem mais coragem de ir à padaria com medo de receber uma bala perdida. Nem a polícia confia na polícia, e o confronto rodeia as comunidades onde os veículos estão executando melodias que por hora avisam aos chefes do trafico como se livrar dos perigos onde os perigosos meninos são os nossos filhos. Meninos que vimos nascer, crescer e se entregar ao sistema da marginalidade cruel. Meninos que quando estão devendo nas chamadas “bocas de fumo” tem as suas vidas interrompidas para desespero das famílias. E neste fato concreto só me resta dizer que depois de Jesus Cristo só a capoeira salva.
    Essa mesma mídia que negou e continua negando a música do Ilê Aiyê, Mangangá, Cortejo Afro, Filhos de Gandhy, Malê de Balê, Muzenza, Olodum, etc. é a mesma mídia que populariza melodias que fazem desconstruções sociais nas nossas comunidades criando pseudo-s “artistas” que malmente sabem falar o significado dos seus nomes e nem conhecem a história da sua cidade natal. Esta mídia é a mesma que critica os pseudo-s “artistas” quando eles não conseguem ficar na história, virar referência e fazer parte do catálogo das empresas capitalistas emergentes e efêmeras. É essa mesma mídia que promove eventos para multidões se esbofetearem sem ter segurança nenhuma porque esse público formador de opinião é um publico favelado. E como diz a peça cabaré da raça é um publico negro “fudido”.
    Percebendo estes efeitos, podemos acreditar que esse público se entrega aos acordes dos cavaquinhos e ao delírio da voz do negro cantor embriagado pela quimera do sucesso que se entrega de vez ao refrão “Favela ê favela, respeite o povo que vem dela”. Mais não há respeito. Continuamos favelados, desacreditados, sem moradia digna e sem empregos e quando se consegue ter um trabalho, parte do salário serve de dízimo para o pagamento da camisa para a nova festa onde serão esbofeteados e depois mostrados na TV como parte do próximo espetáculo pra mais uma vez ressoar a voz do cantor em off dizendo “se assuma, ser negão é massa”. Mais com um tamanho sensacionalismo aplicado como pena, outra voz surge como se estivesse adocicando o ego. “Carrego no peito uma grande bandeira mais por este povo eu Desço a Madeira Desço a Madeira, Desço a Madeira”. E aos olhos dos telespectadores isso é normal, é uma simples matéria que no dia seguinte entrará outra no lugar e assim a vida segue.
    Nossa diva Margareth não criticou ninguém, ela só se reportou ao que está acontecendo e isso é real e não adianta quererem tapar o sol com a peneira. Estamos entregues a um novo formato de linguagem coloquial. Chico Buarque de Holanda, Djavan, Belchior, Gilberto Gil, Gonzaguinha, Jorge Bem Jor, Vinícius de Moraes, Luiz Melodia, Milton Nascimento e tantos outros se estivessem nascidos agora nós não teríamos aprendido poesias em versos e prosas cantadas e nem teríamos a compreensão da linguagem de um bom português. As músicas de agora só falam em gírias que viraram código de gangs nessas comunidades “faveladas” negras. O que era tudo de bom virou “de boa” e o povo se alimentando desses encalços para no carnaval gritar bem alto que “pode descer a madeira”. Por isso estamos perdidos no meio de uma juventude transviada e drogada com os efeitos dessa nova ordem descultural. E é por isso que no carnaval não se tem o “mais belo dos belos” e nem o afro mais “lindo de se ver” cedo na TV, porque essas mídias fecham seus olhos e tapam os ouvidos com medo de voltarem à escola para aprenderem tudo de novo.
    Acabei de ouvi de uma mulher suíça, casada com um baiano, que quando ela esteve em Salvador, achou que as mulheres desta terra não são respeitadas, porque as letras dos pagodes que ouvia nas rádios difamam-nas e que tinha vergonha de ser mulher. Ela se reportou a duas canções que ouvira “desce com a mão no tabaco” e “ela é problemática”. Ouvir isso de uma estrangeira é muito ruim, queria que o pessoal do debate estivesse ouvindo agora o que estou. Por isso, eles acharam que Margareth é quem estava se queixando. Imagina. Margareth só estava alertando-os para um perigo futuro e dizendo que nós não temos mais heróis e que precisamos urgentemente de uma reparação, porque senão vamos permanecer sempre engaiolados nas nossas prisões mentais e sentimentais ou puxando cordas.
    O que sinto é uma forma de racismo institucional promovido pelas elites que por sua vez coordenam e comandam esses efêmeros grupos chamados de musicais. Então amigos, “Vamos levante e lute porque senão a gente acaba perdendo o que já conquistou”. Já está na hora de uma nova insurreição. A música é além de tudo isso que está se propagando, é pura e tem vida própria assim como a diva Margareth que com a sua arte multicultural consegue em DVD registrar para a posteridade o Movimento “Afro Pop Brasileiro”, nos tornando mais vivo e bem concebível. Ela só deu um grito de alerta.
    “Sei que a claridade é bela mais aprendi a me ver no escuro, me tocar no ego e buscar a sensatez, da ação futurista ser total suntuoso porque sem o nada não havia razão e nem certeza viva no tudo. Então diga não a tudo que estar acontecendo e que não passa de uma exação” Tonho Matéria.

  2. Luana Milena Macedo disse:

    Compartilho do mesmo sentimento da Margareth. Infelizmente viajo o Brasil todo e não sinto orgulgo algum quando escuto o “pagode baiano” tocando por aí. Fico triste com tanta pobreza nas letras, pouca melodia, batucada exagerada. Que bom escutar o Adelmo, A Margareth, A Daniela Mercury, Vânia Abreu, os bons nomes da música baiana. Magô, você foi sincera e sobretudo, corajosa, canta “Preciso” para eles e nos ensina o que é de fato uma linda canção.

  3. Tiago Oliveira disse:

    Fico feliz em saber que não estou só contra a alienação que se tem intensificado na minha querida Salvador-Ba, pois tempos atrás fiz um texto criticando duramente o pagode-baiano, com suas letras fracas acompanhadas de inúmeros clichês. Postei em varias comunidade do Orkut (principalmente as de Salvado e Bahia) e fui atacado duramente (não com argumentos), e sim com insultos e desprezo. Margareth além de ser muito talentosa, é uma bela mulher, não tem que dar satisfação a pessoas ligada a um gênero musical que desvaloriza a mulher em especial a mulher NEGRA. Um grande abraço a um cara que vale a pena se espelhar, valeu “portuga”!

  4. Tiago Oliveira disse:

    Excelente visão caro Tonho Matéria, um grande exemplo para o povo (sofrido) negro de Salvador. Compartilho de suas idéias; é o que nós precisamos: artistas talentosos com visão crítica e opiniões próprias. Eu já tinha visto seu comentário, mas só agora resolvi escrever. Valeu!

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