Se me entregassem o mundo de presente, eu o repassaria imediatamente às mãos de uma mulher. Qualquer uma: branca, negra, amarela, pele vermelha. Assim fazendo, estaria libertando o planeta de milhares de anos de domínio do macho, desde quando a predisposição à caça o aparelhou também para oprimir, subjugar, perseguir tudo aquilo que estivesse na mira de sua arma ou à margem do seu coração.
O macho, desde cedo, projetou um mundo dividido, com territórios demarcados, elevando à máxima altura o valor gramatical dos pronomes possessivos de primeira pessoa: meu, minha, meus, minhas. Com isso, dedicou-se, pelo resto da história, a usurpar o que estivesse na órbita das outras pessoas. Deu no que deu. Este mundo que nós temos, e no qual somos obrigados a viver, é o mundo dos homens, da imposição fálica e do medo geral.
Não repassaria este mundo a uma mulher, apoiado simplesmente nos estereótipos e mitos que se criaram à sua imagem: sexo frágil, alma delicada, sensibilidade rara e outras artimanhas que os próprios homens inventaram para mantê-las longe do poder. Não entregaria o mundo à “Amélia”, nem às “mulheres de Atenas”.
Entregá-lo-ia, sim, às donas-de-casa de família pobre, economistas e administradoras supremas de uma universidade que faz prova todo dia; matemáticas perspicazes que projetam o quase nada no desdobramento de um mês que parece nunca acabar.
Entregá-lo-ia a todas as mães, de cujas mãos a violência arrancou um filho, tingindo-lhe repentinamente os cabelos de indignação e dor. Estas saberiam aplainar o caminho da paz, porque o sofrimento é o grande arado da sabedoria.
Entregaria este mundo às mães solteiras, abandonadas pela covardia do macho, e que, mesmo assim, cumpriram à risca o compromisso com a vida, assumindo seu filho de um sobrenome só. Estas saberiam transferir dignidade e ética para as mínimas esferas do poder, como ações cotidianas de sua governança.
Entregaria este mundo a quem nasceu com o dom da criação, da resignação altiva, da decisão pensada; a quem levou os últimos milênios anotando erros e ordenando o caos.
Entregaria sem pensar duas vezes, e me recolheria à incompetência de homem, sabendo, no meu coração, que, a partir de então, iria viver em um mundo muito mais feliz do que aquele que comandei por todos esses anos.







