mai 29

 

Certa vez, num debate de lançamento do Compromisso Todos pela Educação, em São Paulo, Viviane Sena disse-me uma coisa que aqueceu intensamente minha reflexão: “se tratássemos a educação como tratamos o futebol, há muito tempo estaríamos jogando no time do primeiro mundo”. A frase de Viviane voltou a ecoar na minha mente, quando vi o mundo de pessoas que, há alguns meses, pôs-se na rua, em passeata, pedindo “a devolução dos dias de glória do Esporte Clube Bahia”, hoje relegado à segunda divisão do campeonato nacional. Bela campanha, belo espetáculo.

 

 Presentemente, ainda é possível vermos milhares de adesivos orgulhosamente colados aos vidros dos automóveis, com a palavra de ordem da campanha: DEVOLVAM O MEU BAHIA!

Nada contra o movimento; aliás, se representatividade tivesse, gostaria muito de liderar uma mobilização em favor da revitalização do meu querido Ypiranga.

 

Lastima-me, de verdade, é saber que nenhum segmento social, nenhuma torcida de professores e alunos, nenhuma confederação de ONGs demonstram emulação suficiente para ostentar a bandeira do ensino público de qualidade e fazer disso uma luta permanente, barulhenta, aguerrida, sem dar trégua às autoridades e às ruas. Ressalva se faça ao heróico “Movimento Educacionista” de Cristóvam Buarque, que ganha, pouco a pouco dimensão nacional.

 

 

Notícia comunicada, nenhum clamor nacional, além de um artigo ali, outro acolá, em alguns jornais de prestígio, escritos por um ou outro educador preocupado. Traduzindo: estamos amargando uma terrível desclassificação social e pouquíssimos se comovem com o fato; estamos caminhando para a quarta ou quinta divisão do campeonato educacional, mas não existem torcedores que se levantem brandindo indignação por tamanho descalabro.

Recentemente foram anunciadas duas tragédias: os resultados do Saeb e do Enem. Nossas escolas públicas, em larga maioria, não conseguiram atingir a metade dos pontos totais em ambos os exames. O melhor aluno do terceiro ano da rede estadual tem grau de informação equivalente ao mediano aluno da oitava série da rede particular! Das 20 escolas mais bem classificadas no Enem/2008, 15 são da rede privada e cinco públicas e, ainda assim, colégios federais.

Nas brilhantes palavras do mestre Edivaldo Boaventura, “outrora tivemos uma escola pública pedagogicamente boa e socialmente ruim; hoje temos uma escola socialmente boa, mas pedagogicamente ruim”. Cumpre-nos, portanto, pela participação, pela ação cidadã cotidiana, atar as duas pontas da escola pública que queremos: socialmente boa e pedagogicamente ótima. Mas isso envolve compromisso e paixão. Compromisso dos que sabem que democracia de verdade tem, no ensino público de qualidade, o seu verdadeiro e único berço possível; paixão dos que fazem de uma causa maior o grande vetor de suas vidas.

Sonho, portanto, (mas luto também!) em ver um dia estampada nas faixas das passeatas e nos adesivos dos carros da classe média, como o grito de uma apaixonada torcida nacional, a frase-estopim da construção de uma sociedade menos violenta e mais justa: DEVOLVAM MINHA ESCOLA PÚBLICA!

mai 14

 

Os números do ENEM perpetuam o apartheid: dos 20 melhores colégios, 15 são particulares; o Colégio São Bento, do Rio,  primeiro lugar pelo terceiro ano, cobra mensalidade de R$ 1.700,00 reais; 73% das escolas avaliadas ( maioria das redes estaduais) tiveram nota abaixo da média.


Parece que é nossa sina reproduzirmos nas diversas áreas da nossa história social o binômio “Casa Grande& Senzala”, consagrado por Gilberto Freire. Outrora, na distinção dos espaços ocupados por senhores e escravos; hoje, para assinalar as inaceitáveis desigualdades que se cristalizaram através dos séculos, mesmo que escravidão oficialmente não haja.


O que vemos, com os números acima expostos, é que a educação, instrumento por excelência de inclusão social, vem sendo, em nossa história perversa, exatamente o seu contrário: meio de exclusão, nicho de privilégios, campo sagrado de reprodução de um desequilíbrio absurdo de dois brasis que se afastam e se conhecem cada vez menos.    

 

Na rede particular, escolas com estrutura invejável, turno integral de ensino, professores que dificilmente faltam às aulas, e, de resto, uma família com pais bem informados que investem incessantemente na formação dos filhos, com ensino complementar e, não raro, viagens ao exterior.

Na rede pública estadual, escolas em condições físicas precárias, professores que fazem da ausência uma regra, e muitas, muitas matérias que sequer têm professor para ensiná-las. Ademais, os pais, com formação inferior à dos filhos pouco podem fazer para ajudá-los e se recolhem ao lugar das sombras de sua pouca instrução, resignados e ainda agradecidos pelo fato de os filhos terem uma escola aonde ir.

 

O ensino brasileiro é a grande bomba social do país, disse muito bem Gilberto Dimenstein. Esse talvez seja o maior desafio de qualquer governo que ouse desenhar futuros. No segundo grau, pessoas em formação de 15, 17, 20 anos sonham com universidade, trabalho, vida melhor para os seus e possibilidade de fazer deste mundo um lugar melhor para todos.

E, todo ano, milhões desses jovens acordam no meio da “noite veloz” alarmados pelo despertador do real que lhes diz de modo insensível e seco: não existe futuro para você!.
É isso que nos dizem os números do Enem.

 

Não desconheço o supremo esforço que este governo têm feito no sentido da inclusão de milhares de jovens: Prouni, ações afirmativas, cotas para alunos da rede pública, cursos profissionalizantes inaugurados em grande escala. Mas o abismo é grande e a velocidade, nossa maior inimiga.

 

Se é pela educação - e somente por ela - que poderemos ostentar a medalha de “país de primeiro mundo”, então “cesse tudo que a musa antiga canta” e faça-se do ensino público de qualidade a prioridade “zero” deste país.

Do contrário, é entregar a um povo potencialmente capaz um caderno em branco, onde ele não saberá sequer registrar a história do seu próprio fracasso.

mai 8

 

O poema-cartaz “ORIXÁ”, do poeta e professor Jorge Portugal será lançado no próximo dia 16/05, no foyer do teatro Dona Canô, em Santo Amaro da Purificação, dentro da programação do Bembé do Mercado.

 

O poema, que foi escrito há quatro anos em homenagem aos 80 anos de Mãe Stella de Oxóssi, teve seus trechos recitados por Maria Bethânia no cd “Pirata”, recentemente lançado.
A programação visual do texto-poema é do designer gráfico Jonas Souza, também santamarense como o autor.

 

Abaixo, o poema na íntegra:

 

Orixá

Jorge Portugal

 

 

Meu Orixá, meu arquétipo

Princípio cósmico, ético

Olhos que olham por mim

Onde desfaço meus medos

Meu bem guardado segredo

Meu oceano sem fim

 

 

Meu abismo racional

Meu não-ser ocidental

Minha rocha de firmeza

Diferente e tudo igual

Além do bem e do mal

Mora em mim tua beleza

 

 

Meu orixá, meu abrigo

Porto seguro, amigo

Anjo da guarda e do bem

Que sempre esteve comigo

Desde o tempo mais antigo

Quando eu não era ninguém

 

 

Quando eu não era ninguém

Era vento, fogo e água

Elementos em amálgama

No coração de Olorum

E hoje, aqui na Bahia

Sou homem e você, meu guia

Somos Dois

E somos Um

 

 

 

mai 6

 

ministro7Naquele 22 de abril de 2009, nenhum nobre navegante português ousaria nos “descobrir”. Descobertos fomos pelos olhos e pela voz do primeiro negro que, com altivez e coragem, no topo da nau capitânia do judiciário, admoestou o pretenso comandante.

 

Naquele 22 de Abril de 2009, não caberia um 7 de setembro em que o filho do rei, futuro imperador do país, daria gritos de independência às margens de um riacho qualquer; ali, ouvimos o brado da liberdade e da insubmissão da voz abafada do povo, silenciada por séculos pelos donos do poder, através de sucessivos crimes de lesa-cidadania: “respeite, ministro! Vossa Excelência não tem condições de dar lição de moral em ninguém!”.

 

Naquele 22 de Abril de 2009, nenhuma princesa “bondosa”, assinaria uma vaga lei que nos concedia liberdade, mas nos cassava a condição de cidadãos, proibindo-nos o voto, a escola de qualidade e o trabalho digno; presenciamos sim, a abolição proclamada em nossas almas, 121 anos depois, pela voz corajosa de um Luís Gama redivivo, encarnando todos os quilombos massacrados e abrindo os portões de todas as senzalas:” Vossa Excelência não está nas ruas; está na mídia destruindo a credibilidade de nossa justiça!”.

 

Naquele 22 de Abril de 2009, nenhum marechal, de pijama, ousaria proclamar república nenhuma; o pacto de poder que condenou a maioria de nossa gente a ser um povo de segunda classe, viu-se desmascarado pela indignação patriótica de um João Cândido reeditado, que fez a chibata girar em movimento contrário, açoitando o lombo dos que se acostumaram a bater, por séculos a fio:”respeite, ministro! Vossa Excelência não está falando com seus capangas do Mato Grosso!”.

 

Naquele dia, Ogum, Xangô e Oxóssi desceram os três num corpo só, e reafirmaram a presença arquetípica da África dentro de nós. Todos os movimentos aparentemente derrotados dos nossos heróis anônimos puseram-se de pé, vitoriosos, mesmo que não tivessem vencido uma só batalha. A Revolta dos Búzios, a Revolução dos Malês, o Quilombo dos Palmares, todos, reencenaram seus teatros de operação e puderam, séculos depois, derrotar simbolicamente o inimigo.

 

Naquele dia, saíram às ruas todas as escolas de samba, de jongo, todos os blocos-afros; bateram os candomblés e as giras de umbanda, a procissão da Boa Morte, o Bembé do Mercado de Santo Amaro; brilharam os pequenos olhos da criança negra recém-nascida ao descortinar a luz azul de um futuro melhor.

 

Naquele dia, materializando todos os nossos sonhos e desejos secularmente negados, Vossa Excelência deixou de ser apenas um ministro do supremo tribunal federal para tornar-se o Supremo Ministro de todos os brasileiros.

 

mai 6

 

mulher1Se me entregassem o mundo de presente, eu o repassaria imediatamente às mãos de uma mulher. Qualquer uma: branca, negra, amarela, pele vermelha. Assim fazendo, estaria libertando o planeta de milhares de anos de domínio do macho, desde quando a predisposição à caça o aparelhou também para oprimir, subjugar, perseguir tudo aquilo que estivesse na mira de sua arma ou à margem do seu coração.

O macho, desde cedo, projetou um mundo dividido, com territórios demarcados, elevando à máxima altura o valor gramatical dos pronomes possessivos de primeira pessoa: meu, minha, meus, minhas. Com isso, dedicou-se, pelo resto da história, a usurpar o que estivesse na órbita das outras pessoas. Deu no que deu. Este mundo que nós temos, e no qual somos obrigados a viver, é o mundo dos homens, da imposição fálica e do medo geral.

Não repassaria este mundo a uma mulher, apoiado simplesmente nos estereótipos e mitos que se criaram à sua imagem: sexo frágil, alma delicada, sensibilidade rara e outras artimanhas que os próprios homens inventaram para mantê-las longe do poder. Não entregaria o mundo à “Amélia”, nem às “mulheres de Atenas”.

 Entregá-lo-ia, sim, às donas-de-casa de família pobre, economistas e administradoras supremas de uma universidade que faz prova todo dia; matemáticas perspicazes que projetam o quase nada no desdobramento de um mês que parece nunca acabar.

 

Entregá-lo-ia a todas as mães, de cujas mãos a violência arrancou um filho, tingindo-lhe repentinamente os cabelos de indignação e dor. Estas saberiam aplainar o caminho da paz, porque o sofrimento é o grande arado da sabedoria.

 

Entregaria este mundo às mães solteiras, abandonadas pela covardia do macho, e que, mesmo assim, cumpriram à risca o compromisso com a vida, assumindo seu filho de um sobrenome só. Estas saberiam transferir dignidade e ética para as mínimas esferas do poder, como ações cotidianas de sua governança.

 

Entregaria este mundo a quem nasceu com o dom da criação, da resignação altiva, da decisão pensada; a quem levou os últimos milênios anotando erros e ordenando o caos.

Entregaria sem pensar duas vezes, e me recolheria à incompetência de homem, sabendo, no meu coração, que, a partir de então, iria viver em um mundo muito mais feliz do que aquele que comandei por todos esses anos.