Cenas de um carnaval sem carnaval
Cena número um: no estúdio da TVE, no Campo Grande , quinta-feira à noite,nove horas, eu e o Prof. Jaime Sodré já nos queixávamos dos não-acontecimentos da primeira noite de carnaval, quando à nossa esquerda, não mais que de repente, irrompeu aquele caminhão de luz, trazendo a dinastia Macedo, Armandinho à frente, e daí em diante foi contada a história do carnaval, através de todas as músicas que fizeram seu sucesso e glória. Pensei: “ meu carnaval já está pago”.
Cena número dois: sábado, circuito Barra-Ondina. Os olhos já cansados de verem os mesmos blocos de trio – mudando apenas o cantor – já lá pras duas da manhã, se arregalaram em desmedida alegria quando despontou Luiz Caldas – o verdadeiro inventor dessa nova etapa do nosso carnaval. Vinha comandando o trio Tapajós, como se um filme tivesse voltado trinta anos na minha memória. De repente, de novo, vejo um senhor de boné levantar-se com alguma dificuldade do andar superior do trio e acenar para mim: Orlando Campos, o homem que modernizou o “caminhão da alegria” e assegurou a festa do povo baiano, quando a festa ainda era de graça. Pensei: “agora já estou devendo ao carnaval”.
Cena número três: já pelas três da manhã, quando tudo parecia encerrado, um mar de gente negra, pobre, misturada – uma massa compacta em bloco que eu ainda não tinha visto até ali, invadiu o circuito da Barra vigiada fortemente pela Polícia e comandada pelo novo “Zumbi do carnaval”, Léo Santana. Parecia um quilombo de alegria vivendo sua apoteose no pedaço da classe média baiana. O “Rebolation” tomou conta de tudo e arrastou turistas, malandros, patricinhas, periguetes e avulsos, misturando arrocha e pagode numa música só.
Claro que vi também Ivete, Bell Marques, Timbalada, Daniela, e até recebi uma declaração de amor pública de minha ex-aluna Claudinha Leitte.
No dia seguinte soube de uma proposta que deseja privatizar o carnaval, em lugar fechado, com acesso apenas para a classe média alta e os turistas endinheirados. Mais parece uma volta aos bailes de salão, retomando a época do Baiano de Tênis e do Yatch.
Pensei: “vai ser uma festa sem Armandinho, Luiz, Orlando, Ylê, sem rebolation… e sem carnaval!
Jorge Portugal
secretaria@jorgeportugal.com.br
(71) 3240.2252
No município de Botoporã dia 10 de Fevereiro 2010
No município de Érico Cardoso 11 de Fevereiro 2010
No município de Irará dia 22 de Fevereiro 2010
Em Salvador, no Colégio Lomanto Junior dia 03 de Março 2010
Peço que por uns segundos você esqueça o Shopping Iguatemi, o panetone (epa!), a árvore enfeitada, a mesa farta, o abraço protocolar dos parentes e me responda: o que se comemora mesmo no dia 25 de Dezembro?
Se não me engano é a data presumível do nascimento de uma criança paupérrima, cuja trajetória neste mundo pode ser resumida em uma frase que a tal criança, uma vez adulta, vivia repetindo: “ama o teu próximo como a ti mesmo”.
Se essa frase tivesse sido levada a sério, ao longo desses dois mil e nove anos poderíamos ter evitado um mar de sofrimento e clamor que marcou e tem marcado a presença humana no planeta: cruzadas assassinas, grandes guerras mundiais, escravidão de negros africanos, racismo de todas as formas, fome, miséria e aquecimento global.
Se a humanidade ocidental-cristã tivesse realmente aquela criança na conta de um deus, certamente que nem precisaria escrever leis absurdas, impor regras e limites de convivência, erguer “cercas embandeiradas que separam quintais” e outras complicações que estarrecem e empobrecem a vida.Bastaria ter o Sermão da Montanha como fonte de inspiração e orientador de condutas.
Mas a verdade é nunca demos a menor bola para o que o nosso aniversariante fez ou propôs.Montamos uma forma de viver, por essa banda do mundo, que corresponde exatamente ao contrário das suas melhores ideias.Construímos templos suntuosos para abrigar as correntes religiosas que fundamos e temos fundado, em nome de uma certa fé nesse homem que achamos ser Deus.Acontece que ele nunca pediu nada disso e até repudiava os que transformavam casas de oração em casas da moeda.
Inventamos e sustentamos milhares de padres e pastores que se arrogam professadores e exegetas da mensagem do “cara” e o fazem… da boca pra fora!
Por esses últimos dias, tivemos notícia de morte e desespero pelas chuvas de São Paulo, cenas explícitas de corrupção por bandidos de Brasília e do fracasso de Copenhague, cujos líderes, na sua maioria auto-intitulados “cristãos”, resolveram apressar, por simples egoísmo, a morte do planeta.
Por isso, se você se encaixa em alguma das categorias acima descritas, por favor, seja coerente e verdadeiro com você mesmo(a): no próximo dia 25, não comemore o natal.
Jorge Portugal
Educador e poeta.
Postado em 28/12/2009 ás 23:30
A metáfora, perfeita, é da autoria de Ailton Ferreira, hoje Secretário Municipal da Reparação: “ quando o Jornal Nacional anuncia a morte de algum jovem negro e favelado, a bala que ceifou sua vida foi apenas o último tiro. O primeiro ocorreu quando do seu nascimento, certamente de uma mãe solteira, num barraco sem água encanada e sem luz ,na periferia; o segundo, quando ele ingressou em uma escola pública do bairro, sem material escolar, com professores que lá não apareciam e um currículo completamente defasado; o terceiro, quando, sem qualificação, bateu à porta de várias empresas e lhe foi negada a vaga, com o argumento de que não correspondia ao perfil exigido. Sem perspectivas, por volta dos dezenove anos, recebe uma proposta irrecusável do tráfico de drogas.Topa.Aos vinte e cinco, no máximo, a polícia invade o morro e lhe dá o tiro de misericórdia. O último” .
Agora entro eu: a polícia dá o tiro, mas é a nossa omissão que aperta o gatilho.Não vou falar da secular omissão histórica, porque nesse caso, durante quinhentos anos, ela foi política de estado: escravidão, abolição sem cidadania, exclusão social contínua, racismo e negação.
Quero me reportar à pouca velocidade, ao ritmo lento com que certas ações governamentais e atitudes da sociedade civil abordam a questão.Claro que vai aqui o reconhecimento a programas como Bolsa-família, Prouni,Pró-Jovem, Promimp, Cotas universitárias e tantas outras iniciativas de um presidente-operário-nordestino, que nasceu pobre, e, portanto, conheceu na pele a negritude social.
Mas a tarefa de inclusão do negro no sistema da sociedade brasileira é uma tarefa hercúlea, gigantesca, o verdadeiro projeto de construção da nação, que ainda não somos.E aí eu falo de prefeituras de capitais, prefeituras do interior, Ongs, igrejas,terreiros, sindicatos e lideranças comunitárias.
Proposta: vamos começar oferecendo uma oportunidade a esses jovens negros exatamente na linha divisória entre o sonho e a desistência? Vamos criar “ vietnãs educacionais” nos bairros populares, que os preparem para ingressar no Cefet( os que estão na oitava série) ,e na universidade(os que concluíram o ensino médio)?
Prefeitura, empresas, entidades civis e ONGs: a educação de qualidade pode ser o primeiro passo para que evitemos o último tiro.
Jorge Portugal
Um negro em movimento
E-mail: secretaria@jorgeportugal.com.br
Postado em 18/11/2009 ás 02:01
Quando a célula rítmica do samba-reggae invadiu o coração de Paul Simon, a pélvis pop de Michael Jackson também foi tomada por um frisson alucinante.
Muito antes, bem antes de tudo isso, os negros de Salvador já viviam a utopia, através do som, de juntar Jamaica e Bahia em um sonho só.
Caetano Veloso costuma dizer que o Brasil ainda não merece a Bossa-Nova.Seria o caso de se perguntar: e a Bahia merece o samba-reggae?
Sim, porque a sublime invenção do Mestre Neguinho do Samba permanece como o que há de mais avançado, musicalmente sofisticado e inspirador de tudo que se fez em nossa música depois da Bossa e da Tropicália.Ouvir e ver o Olodum arrastando multidões pelo mundo é confirmar esse destino nosso de conjugar inteligência e alegria para produzir felicidade.Isso é coisa da Bahia.Coisa de negro, gostem ou não.
Aí, Zulu Araújo me liga de Brasília ( e eu em Sergipe) e me comunica, num tom triste de voz, que Neguinho do Samba havia morrido e que precisávamos nos articular para o velório e enterro, vez que sua família não estava exatamente nadando em facilidades financeiras.
O filme voltou de vez. O primeiro engenho, a primeira catedral católica, as suntuosas casas de fazenda, os palacetes erguidos nas primeiras cidades, os filhos dos barões estudando em Coimbra ou Paris.E os negros cortando cana, quebrando pedra e cantando chula.
O Samba-Reggae, a batida do Ylê, do Malê e do Muzenza, a chula de João do Boi e Alumínio de São Brás, serão sempre matrizes fundamentais da nossa criação.Os seus criadores são anjos negros que fazem tudo isso para celebrar o prazer e a vida.Dificilmente pensam em dinheiro.Aliás, não sabem sequer o que realmente significa dinheiro.Mas os “donos da festa” sabem, e sabem muito bem.
Por isso, Neguinho do Samba, Mestres Bimba e Pastinha, Besouro, Nelson Maleiro e Batatinha serão eternamente reverenciados e adorados pelo povo, de onde vinha sua inspiração e para onde voltava sua produção de alegria.
Morreram pobres todos eles.Pobres? E o que dizer dos que só podem fazer sucesso a partir do que eles criaram?
Neguinho: você é e será sempre fonte.Gênio da raça, meu rei.
Jorge Portugal
Educador e compositor
E-mail: secretaria@jorgeportugal.com.br
Postado em 06/11/2009 ás 10:58
Relata-me Geraldo Salles, à época servindo ao Tiro de Guerra 138 e testemunha ocular do fato:
“ Era um fim de tarde de 1964, primeiros dias após o golpe militar.O tenente Garcia, homem do Exército na cidade, compelido pelos seus superiores a prender o grande líder comunista do lugar, via-se num beco sem saída: era amigo pessoal do acusado, conhecia-lhe o caráter e a integridade embora discordasse de sua ideologia.Usou, então, o expediente de mandar um recado em código por um amigo comum, orientando-lhe a negar seu credo político no momento do interrogatório, já agora impostergável.Nada lhe aconteceria se dissesse NÃO.
- Então, senhor Maurino, o senhor é comunista?
- Nasci comunista, sou comunista e vou morrer comunista.E após a resposta, colocou o distintivo do Partido na lapela, e marchou solene e serenamente para a cadeia municipal, escoltado pela tropa”.
Naquele momento, o Camarada Maru ficou maior do que o Partido, maior do que a cidade, maior do que a ditadura, maior do que todos nós.Na sua “ tenda de barbeiro” , na sua limitação material de homem pobre, na sua responsabilidade gigantesca de pai de enorme prole, permaneceu íntegro e fiel aos seus ideais, mesmo que isso lhe custasse a “ tenda”, a família e a vida.
Comunista que tinha em sua casa dois grandes retratos de Marx e Jesus Cristo, já em idade avançada, via-o, em tempos de campanha eleitoral, na ponte das moringas,hierático e impassível, sob um forte sol de verão, carregando uma placa feita de papelão, propagando a candidatura de Fernando Santana, do PCB, seu amigo e camarada de toda uma vida.
Tornou-se o meu herói, meu mestre e meu paradigma, embora, se cem anos me fossem dados, eu jamais chegaria a um terço do seu incomparável valor.
Influenciou e humanizou muita gente: Trigueiros, Antônio Rocha, Valter Bacalhau,Prof. Carlos Augusto, None, e o próprio Caetano, um dia, confessou sua enorme admiração por aquele homem de “ idéias firmes e elegância ímpar” .
Na última semana, enterraram seu corpo no Campo da Caridade.Minha cidade ficou mais pobre.E eu, do outro lado do Atlântico, não pude estar presente para cantar baixinho no seu ouvido de um corpo inerte que parecia dormir feliz: “ Camarada Maru, ainda guardo aquele sonho que você sonhou pra mim”.
*Jorge Portugal
Educador, poeta e membro do Conselho Nacional de Política Cultural.
Postado em 06/10/2009 ás 21:
Mulheres extraordinárias deveriam ocupar, na mídia, espaço igual ou maior ao dedicado a mulheres enfiadas, não acham? Até porque o trabalho das mulheres extraordinárias é contínuo, persistente, muitas vezes heroico e, não raro, silencioso.As mulheres enfiadas aparecem do nada para os “quinze minutos de fama” e depois desaparecem para sempre, após terem saciado a fome voraz da mídia-urubu.
Mas, como não é por aí que passa a lógica dos nossos comunicadores sociais(?), valho-me deste humílimo espaço para ovacionar três mulheres que, pela história, pensamento e ação, tornaram-se – sem o serem oficialmente – professoras de verdade.
A primeira é Maria da Penha Fernandes que, passando por Salvador na semana passada, lotou o teatro do ISBA para nos contar sua trajetória de luta e a disposição incansável em afirmar os princípios da lei que leva o seu nome e representa hoje uma carta de alforria para todas as mulheres oprimidas e vítimas constantes da violência dos seus maridos e companheiros.Da sua cadeira de rodas, nos fez enxergar uma alma em movimento, e a determinação tenaz de defender a vida em um país dominado pela paralisia ética.
A segunda, Mãe Stella de Oxóssi, já tem a sua história contada pela cor da pele.Com a responsabilidade, muito cedo, de dirigir sua comunidade religiosa, impôs-se pela autoridade do olhar e a ternura dos gestos.Graduou-se em enfermagem, construiu escola dentro do terreiro, vem escrevendo livros de deliciosa literatura e palestrado a outras gentes sobre a essência de sua religião e a grandeza de um povo que transforma dor em beleza.
Mãe Stella é, hoje, o oráculo vivo da Bahia; o colo carinhoso e a voz que lidera; a expressão pessoal de até onde pode chegar o povo negro, pelos caminhos da educação e da fé.
Mãe Stella é, agora, Doutoura Honoris Causa pela Universidade do Estado da Bahia. Ou melhor: a Uneb torna-se ,agora, muito mais “Universidade da Bahia” ao conferir esse título a Mãe Stella.
E, por último, Dona Canô Velloso, que neste mês completou 102 anos de vida, lucidez e sabedoria.Mas essa já ocupa o supremo patamar das “entidades” e só me cabe dizer: a bênção, Dona Canô, a bênção, minha comadre!
Jorge Portugal
Tiete de Penha, “filho”de Stella e compadre de Canô.
E-mail> secretaria@jorgeportugal.com.br
Quando o tema é educação e o défict educacional do país, principalmente no tocante ao ensino médio, não tenha dúvida: os meios de comunicação ainda não fizeram um terço do tanto que podem nessa área. A sub-utilização de TV, rádio e Internet é algo tão absurdo que chega à condição de crime de lesa-juventude.
O que nos fazem crer é que os pensadores e fazedores da educação tristemente ignoram que o mundo chega hoje à moçada através da tela da TV e do computador. Que a sala de aula é importante, fundamental, porém deve estar cada vez mais conectada a esses “mass-mídia”, por sua vez elevados à condição de salas de aula complementares.
Dou dois exemplos aqui da Bahia e sem precisar sair de casa.
Há nove anos propusemos à grade de programação da Rede Bahia, o Aprovado! Seria um programa de TV, uma espécie de revista de educação e cultura, com linguagem clara e ritmo ágil, que costurasse assuntos de interesse do pré-vestibulando, informações sobre profissões e mercado de trabalho, dicas de matérias dadas pelos melhores professores dos cursinhos baianos e, de quebra, um convidado musical que pontuasse com suas canções toda essa conversa informativa e agradável. Não deu outra: os pessimistas que vaticinaram o fracasso imediato do projeto tiveram que engolir a longa vida do programa e sua impressionante pontuação no Ibope. Estamos falando de uma “sala de aula complementar” com quase dois milhões de alunos-espectadores espalhados por todo o território baiano. Pois bem, mesmo tendo como convidados expoentes do pensamento e da pesquisa baianos, figuras de renome nacional no campo da cultura, temas de alta relevância do saber contemporâneo, o Aprovado! jamais foi citado como fonte de alguma questão de vestibular, ou utilizado com alguma regularidade como conteúdo de reforço para estudantes do ensino médio. Um verdadeiro desperdício!
Um dia, ministrando aula em um colégio da elite baiana, uma estudante me interrompeu e fez-me uma pergunta entre a indignação e a esperança:
- “Portuga, por que as nossas aulas daqui não são iguais às do Aprovado? Aqui a gente fica olhando toda hora para o relógio e lá a gente nem sente quando o tempo passa”. É sinal de que algo “ali” está dizendo alguma coisa a eles.
Recentemente lancei um site de educação na internet:www.redeeduca.com.br. Em apenas duas semanas já temos cerca de 50.000 visitas de todo o Brasil e boa parte do mundo, e contamos com 18.000(dezoito mil) estudantes que regularmente entram nesse portal e ficam pesquisando em um tempo médio de duas horas, todos os dias. Mas lá temos aulas em vídeo postadas na web TV, conteúdo escrito sobre as atualidades de todas as áreas, aulas em áudio, o Quiz Educa( teste de avaliação instantâneo) e outros atrativos para essa turma que já nasceu “olhando um computador”.
Como se vê, pode custar muito pouco ligar o mundo das pessoas ao mundo do saber. Basta fazer com engenho e arte. Volto ao tema em breve.
Maria da Penha, Maria que empenha sua vida para libertar e libertar-se.
Maria que carrega em si o sangue e a história de outras Marias, mesmo que Maria não se chamem.
Maria Quitéria, Maria Felipa, Luiza Mahin, Olga Benário, Ana Montenegro, Joana Angélica, Mãe Menininha, todas que tiveram força para dizer NÃO quando o mundo as obrigava a dizer sim.
Maria da Penha, a que fez seu sofrimento virar lei. Pela coragem, pela persistência, pela crença na luta sem tréguas, pela força da condição feminina elevada ao altar da condição humana.
Marias pagavam caro no mundo dos Josés, dos Joões, dos Joaquins. O sexo frágil, a dor calada, a espera resignada.
O pai, o irmão, o marido: a máscula sucessão da força que manda, que provê, que impõe.
Maria da Penha sentiu no corpo essa força, mas buscou mais força dentro de si e tornou-se forte frente a tudo isso.
Maria da Penha, pessoa e símbolo. Referência que se faz farol em um momento de turbulências e sombras.
No dia 09 de Setembro, Maria da Penha estará conosco, aqui em Salvador, e falará com a voz de todas as mulheres.
Vamos aplaudi-la. De pé. Como se devem aplaudir os que dão a vida para a vida não perder.
Era de se esperar o chilique de certa elite brasileira quando do lançamento do Vale-Cultura. Através de editoriais raivosos, bem no estilo udenista, os dois “jornalões” de São Paulo desancaram o projeto com expressões exaltadas que beiravam o xingamento: “projeto eleitoreiro”, “vale-tudo”, “bolsa-circo” e por aí foram.
Como conhecemos muito bem o sub-texto desses parágrafos solertes – a não-aceitação do sucesso de um operário nordestino, sem diploma universitário na presidência – entendemos perfeitamente o papel dessa turma e o roteiro a ser seguido. É apenas uma variação de outros textos que vociferam contra o “Bolsa-família”, o Prouni, e as políticas de ações afirmativas.
Dessa vez os argumentos, combinados, apontavam para o fato de que o valor do Vale-Cultura poderá ser usado para o consumo de espetáculos de “baixo teor educativo”, ou para comprar livro de autoajuda, ou ainda cd’s e dvd’s de artistas populares. Temem que os nossos operários se recusem a freqüentar apresentações de orquestras sinfônicas ou não gastem os cinqüenta mangos comprando um livro de James Joice.
Eu também, como educador idealista incorrigível, adoraria que os milhões de trabalhadores brasileiros já saíssem com o vale na mão, correndo para assistir a uma peça de Vianinha ou a um filme de Gláuber. Mas, é bom lembrar, que essa porcariada toda que abastece o repertório do povão é alimentada por essa mesma mídia que dedica páginas e horários nobres ao culto das celebridades e à comunicação do grotesco.
Agora pergunto: qual é a tragédia que há no fato de que uma pessoa que jamais leu livro algum compre um título de autoajuda para iniciar seu caminho de leitor? Se a leitura de o “Alquimista” levá-lo, mais tarde, às paginas do “Alienista”, já está valendo o Vale-Cultura.
Depois, esses argumentos se parecem muito com aqueles que há cinco anos condenavam a política de cotas, alegando que a entrada de alunos pobres (e negros) por esse sistema iria rebaixar o nível da universidade. Revelou-se justamente o contrário!
Óbvio que articular o novo currículo do ensino médio, que já reclama um bom repertório cultural por parte da moçada, com esse “adicional” para o consumo de cultura no bolso dos pais, pode, sim, criar o melhor dos mundos. Mas esse é um processo que começa a começar exatamente aqui, neste Brasil de Lula, Juca e Hadad.
Agora, a esses “torcedores do pior” e demófobos em tempo integral, deixo a resposta lúcida do paulista Vítor Maximo, enviada ao “painel do leitor” da Folha de São Paulo:
“Não sei se essa iniciativa do governo irá funcionar, mas é bom lembrar que milhões de brasileiros nunca foram a um cinema, que dirá ao teatro. Quanto às possíveis escolhas do público contemplado com o vale por “espetáculos comerciais”, devo dizer que só fui conhecer Fellini depois de Mazzaropi e Jerry Lewis.
Podiam dormir sem essa, não é?
Na década de setenta, com o mundo inteiramente em preto-e-branco, tínhamos que escolher um lado. Os que queríamos mudar o mundo, fazer a revolução socialista e implantar uma sociedade mais justa e igualitária não deveríamos, de preferência, dar bom-dia à turma conservadora ou reformista ou até mesmo aos suspeitos que preferiam o silêncio cauteloso à comprometedora e perigosa exposição de suas opiniões. ”Prepare o seu coração pras coisas que eu vou contar…”; “podem me prender, podem me bater que eu não mudo de opinião”; ou, culminância das culminâncias, “vem vamos embora que esperar não é saber”. No coração da esquerda enfezada não havia lugar para “eu te darei o céu, meu bem e o meu amor também”.
Por isso, passei boa parte de minha juventude execrando Roberto Carlos. Para mim (para nós), se ele não era propriamente um agente da ditadura, a ela servia com suas baladas românticas, cantigas de ninar um povo alienado, entorpecido ante o clamor da revolução. Lembro-me muito bem dos meus bate-bocas com um colega de ginásio em Santo Amaro, Heron Magalhães, que amava “as canções que você fez pra mim”, ao que eu contrapunha “o quintal de minha casa não se varre com vassoura…”.
Não preciso dizer da crise de identidade que vivi quando, em 1971, ele “estourou” “Debaixo dos caracóis dos seus cabelos” dedicada a Caetano Veloso. Não podia! Caetano era um dos nossos, da vanguarda musical revolucionária e não ficava bem ser alvo de homenagens do rei da juventude alienada.
Anos (e homens) duros. Duríssimos anos (e homens).
Todo esse filme me veio à mente, sem cortes, enquanto eu assistia ao show comemorativo de 50 anos de carreira do Rei, no último 11 de Julho.
Em meio ao reencontro com aquele garoto enrijecido que parecia rir de mim lá do túnel do tempo, me surpreendi cantando, sem vacilar ou esquecer, todas as canções que Roberto desfolhava do seu repertório clássico. Então me dei conta de que, hoje, aos 50 e poucos, certamente já não me lembro da metade do repertório de Vandré, Caetano ou Edu, mas me recordo inteiramente de tudo, tudo mesmo que Roberto cantou.
Acho que não só eu. Posso garantir que o mesmo sentimento vibrava em milhões de brasileiros.
Os outros, da chamada “ala emepebista”, compuseram o repertório da nossa fé racionalista, da nossa leitura intelectual do mundo e muito nos ajudaram em um momento de longo silêncio e ranger de dentes.
Mas Roberto falava à nossa emoção, sem sofisticação ou filtros. Acariciou, o tempo todo, nossas alegrias e dores de amores. Foi o mestre maior de nossa educação sentimental. Foi fundo. Foi no mais fundo de cada um de nós. E por isso ficou.
Creio que daqui a dez mil anos, quando um ET de outro planeta qualquer vier visitar este planeta extinto pela estupidez humana, e se pousar em algum lugar onde existiu um país chamado Brasil, poderá surpreender-se ao ouvir uma belíssima melodia soprada pela voz do vento: “eu tenho tanto pra lhe falar, mas com palavras não sei dizer como é grande o meu amor por você”. Obrigado, Roberto.
No dia 20 de Junho estava eu em Milão, na Itália, para receber o prêmio Ágape, em reconhecimento, pelos italianos, dos projetos sócio-educativos que desenvolvo ou estimulo aqui na Bahia. Foi uma bonita cerimônia, transmitida para o mundo inteiro pela RAI, ocorrida no Castelo San Gaudenzio, uma fortaleza medieval que nos faz entrar no túnel do tempo e voltar aos idos de 1340, ano de sua fundação.
No dia 22, após o evento de premiação, fiz o indispensável roteiro de conhecer Veneza – cidade-sonho ou sonho de cidade? – e seguir para Roma. Em Roma deu-se um encontro esperado a vida inteira. Ou melhor: um reencontro.
A verdade é que, os que amamos estudar história, temos por toda a existência, o imaginário povoado por fatos, personagens, idéias e lugares da cidade eterna. As aulas sobre a “era clássica”, de Édio Souza e Hélio Rocha, voltam como um filme a que a gente estivesse assistindo na condição de participante. O esplendor da Capela Sistina, com o gênio de Michelangelo obrigando a 500 pessoas de mundos diferentes a olharem para o teto em êxtase coletivo, a monumentalidade do Vaticano e sua Basílica de São Pedro (que deixaria Francisco de Assis estarrecido!), as ruínas do Senado, do Fórum, a Coluna Trajana, o Panteão, enfim, uma cidade-museu a céu aberto para o encanto dos olhos e da memória.
Além dessa Roma histórica, dos etruscos, do império e do renascimento, ainda nos brinda a Roma de Fellini, com a Fontana de Trevi num inesquecível azul a nos estimular a visão dos deuses de uma Anita Egberg- poesia e mulher- alucinando desejos e inspirações de uma “dolce vita”.
Durante todo o tempo na Itália não deixava de me perseguir a frase-chave de Eduardo Galeano na abertura do indispensável “As veias abertas de América Latina” para equacionar as indecentes desigualdades entre povos e nações: “na divisão internacional do trabalho, alguns países se especializaram em ganhar e outros, em perder”. Bem que eu queria estar com a cabeça livre, em férias, tendo os olhos apenas para o deslumbramento e o espírito crítico deixado na gaveta. Mas a frase me martelava o tempo todo, me fazendo voltar sempre ao Brasil, à Bahia, naquela encruzilhada de contrastes que eu percebia e vivenciava.
Óbvio que Roma foi a capital do maior império da história, concentrou no seu território mais riquezas culturais que qualquer outro lugar do mundo e, por isso, tornou-se uma cidade-livro-filme pela qual as pessoas pagam caro para ler-ver-viver. Os italianos são enlouquecidamente apaixonados pela sua história e cultura e já se põem em armas à mais leve insinuação de que exista algum lugar mais importante no planeta.
Na semana de morte do ídolo pop, assisti o filme sobre a vida e obra de Wilson Simonal. O aniversário de sua morte - 25 de junho - coincidiu tristemente com a morte de Michel Jackson e fez-me lembrar do aniversario de nascimento de João Cândido - 24 de junho. Um resgate necessário sobre as dúvidas em relação ao seu talento e sua vida pessoal. Simonal não era informante do DOPS, nem delator de colegas artistas. Era sim um bólido no mundo artístico que, como disse Mário Prata, acusado injustamente, não foi anistiado nem pela esquerda nem pela direita. Simonal recebeu uma espécie de anistia pelo governo Collor em 1991, 17 anos depois de ter sido acusado de envolvimento com órgãos de inteligência e de repressão.
Michael Jackson também morreu condenado e ridicularizado por muitos. Uma trajetória de brilho e queda. Sucesso de mídia, palco e venda; conseguiu chegar a extraordinária cifra de 750 milhões de discos vendidos; insuperável. Sua vida tornou-se símbolo de desejo, renúncia e podridão. Foi acusado de pedofilia em 1993. Doze anos depois foi inocentado. Outros tantos admitiram que pudesse ser tudo verdade e a sua miséria veio rápida. Morreu com a pecha de que poderia ter feito tudo diferente.
O Almirante Negro, João Cândido, líder da Revolta da Chibata em 1910, foi internado em um hospital psiquiátrico como louco. Sua anistia só lhe foi concedida 97 anos após sua morte. Isso tudo após uma intensa luta para que os direitos pudessem ser reparados. O projeto de lei de autoria da Senadora Marina Silva é de 2002 e foi sancionado pelo Presidente Lula em 2008. Os anistiados da ditadura militar e seus familiares já recebem suas indenizações. Já os familiares de João não puderam receber tal recurso. O artigo que o garantia foi vetado.
Todos eles ícones em suas áreas e também pretos. Elaboraram textos e mensagens sobre sua condição de negros num período que muitos líderes ficaram calados. Michael reclamou em julho de 2002 contra as gravadoras que exploravam afro-americanos nos Estados Unidos, Simonal ensinou para o filho através da música Tributo a Martin Lhuter King: cada negro que for, mais um negro virá - Para lutar com sangue ou não - Com uma canção também se luta irmão, João Cândido manifestou-se junto a outros amotinados “Nós, marinheiros, cidadãos brasileiros e republicanos, não podemos mais suportar a escravidão na Marinha brasileira“.
Não gosto dos textos que os tratam como coitados. São apenas símbolos paradoxais de seu tempo. Os três não se livraram da condição de serem olhados, desejados e repelidos como negros. Apesar de eles terem pensado em algum modo de não ser negros. Muitos choram arrependidos a covardia de nada terem feito quando deveriam fazê-lo. A inveja mórbida da alegria exorbitante do negro paira em nós como um simulacro de um mundo que condena o destino do outro pela cor de sua pele e origem. Mataram João, mataram Simonal, mataram Michael e o estigma continua com os nossos deuses e deusas morrendo para serem reconhecidos depois do tempo.
Sérgio São Bernardo
sergiosaobernardo.blogspot.com
